Santa Brigida, As Profecias e Revelações de Santa Brígida

As Profecias e Revelações de Santa Brígida - Livro 1

  • ”Meus inimigos são como os mais selvagens animais, que nunca podem estar satisfeitos nem permanecer em calma. Seu coração está tão vazio de meu amor que o pensamento da minha paixão nunca os penetra. Nem sequer uma vez, desde o mais íntimo de seu coração, tem saído uma palavra como esta: ”Senhor, tu nos redimistes, louvado sejas por tua amarga paixão!” Como pode viver o meu Espírito em pessoas que não sentem o divino amor por mim, pessoas que estão desejando trair a outros para conseguir seu próprio benefício?”

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    As Profecias e Revelações de Santa Brígida da Suécia - Livro 1

    Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo à sua esposa escolhida e muito amada, Santa Brígida; sobre a proclamação de sua santíssima encarnação; a rejeição, profanação e abandono de nossa fé e batismo; e como Ele convida sua amada esposa e todo o povo cristão a amá-Lo.

    Livro 1 - Capítulo 1

    Eu sou o Criador do Céu e da Terra, uno na divindade com o Pai e o Espírito Santo. Eu sou aquele que falou aos aos patriarcas e profetas e aquele a quem esperavam. Para cumprir seus anseios e de acordo com minha promessa, assumi a carne sem pecado e sem concupiscência, entrando no ventre da Virgem, como o sol que brilha através de claríssima joia. Assim como o sol não danifica o vidro ao entrar nele, assim também a virgindade da Virgem não foi perdida quando eu assumi a natureza humana. Eu assumi a carne de tal forma que não abandonei minha divindade, e Eu não fui menos Deus – governando e sustentando todas as coisas com o Pai e o Espírito Santo - embora estivesse no ventre da Virgem em minha natureza humana.

    Assim como a luminosidade jamais é separada do fogo, assim também, minha divindade nunca foi separada de minha humanidade, nem mesmo na morte. Desde então, permiti que meu corpo puro e sem pecado fosse ferido, dos pés à cabeça, e fosse crucificado por todos os pecados do gênero humano. Esse mesmo corpo é agora oferecido a cada dia no altar para que o gênero humano possa amar-me e se lembrar de meus grandes feitos mais frequentemente.

    Eu, deveras, quis que meu reino estivesse dentro do homem, e por direito, Eu deveria ser Rei e Senhor para ele, porque Eu o fiz e o redimi. Entretanto, agora ele quebrou e profanou a fé que me prometeu em seu batismo, e quebrou e desprezou minhas leis e meus mandamentos, que Eu prescrevi e revelei a ele. Ele ama sua própria vontade e se recusa a ouvir-me. Alem disso, ele exalta acima de mim o pior ladrão, o demônio, e deu à ele sua fé. O demônio realmente é um ladrão, já que, me rouba, por meio das tentações diabólicas, maus conselhos e falsas promessas, a alma humana que Eu redimi com meu sangue. Mas ele não faz isso por que, seja mais poderoso do que eu, porque eu sou tão poderoso que Eu posso fazer todas as coisas com uma palavra, e tão justo, que mesmo que todos os santos me pedissem, Eu não faria a menor coisa contra a justiça.

    Entretanto, como o homem, a quem foi dado livre arbítrio, voluntariamente rejeita meus mandamentos e obedece o demônio, é justo que ele também experimente sua tirania e malícia. Esse demônio foi por mim criado bom, mas decaiu por sua vontade má, e se tornou, por assim dizer, meu servo para aplicar retribuição aos trabalhadores do mal.

    Ainda, embora eu seja agora tão desprezado, sou ainda tão misericordioso que, qualquer um que reze pela minha misericórdia e se humilhe por correção, terão seus pecados perdoados, e eu o salvarei do ladrão diabólico - o demônio Mas para aqueles que continuam me desprezando, Eu levarei minha justiça sobre eles, de forma que ouvindo isso, tremerão, e os que experimentam isso dirão: ‘Ai de nós os nascidos ou concebidos! Ai de nós os que provocamos o Senhor da majestade até a ira!’

    Mas tu, filha que eu escolhi para mim e com quem eu agora falo em espírito: ama-me com todo teu coração, não como tu amas teu filho, filha ou pais, mas mais do que qualquer coisa no mundo, já que Eu que te criei e não poupei nenhum de meus membros no sofrimento por ti. Ainda Eu amo a tua alma tão amorosamente que, ao invés de te perder, eu me deixaria ser crucificado novamente, se isso fosse possível. Imita minha humildade, porque Eu, que o rei da glória e dos anjos, fui vestido com horríveis miseráveis trapos, e fiquei nu em um pilar e ouvi todo tipo de insultos e zombarias com meus próprios ouvidos. Sempre prefira minha vontade à tua, porque minha Mãe, tua Senhora, do começo ao fim, nunca quis nada a não ser o que eu quis.

    Se tu fazes isso, então teu coração estará com o meu coração, e será incendiado por meu amor, da mesma forma que qualquer coisa seca é facilmente incendiada pelo fogo. Tua alma será tão inflamada e preenchida por mim, e eu estarei em ti, que todas as coisas mundanas se tornarão amargas para ti e todo desejo carnal como veneno. Descansarás nos braços da minha divindade, onde nenhum desejo carnal existe, mas somente deleite espiritual e alegria, que enche a alma deleitada com felicidade - interior e exteriormente – de forma que ela não pensa em nada e nada deseja a não ser ser o gozo que possui. Portanto, somente ama-me, e terás tudo que desejares e terás em abundância. Não está escrito que o óleo da viúva não diminuiu até o dia que a chuva foi enviada à terra, por Deus, de acordo com as palavras do profeta? Eu sou o verdadeiro profeta! Se acreditas em minhas palavras, segue e as cumpre, óleo - gozo e júbilo - não diminuirão para ti, por toda a eternidade.



    Palavras de Jesus Cristo à sua filha - que tomou por sua esposa - sobre os artigos da verdadeira fé, e sobre que tipos de adornos, sinais e desejos a esposa precisa ter para agradar o Esposo.

    Livro 1 - Capítulo 2

    Eu sou o Criador dos céus, da terra, do mar e de tudo que está neles. Eu sou um com o Pai e o Espírito Santo, não como os deuses de pedra ou de ouro, como os utilizados pelo povo antigo, e não vários deuses, como o povo pensava, mas um só Deus: Pai, Filho e Espírito Santo, três pessoas, mas um em natureza divina, o Criador de tudo, mas por ninguém criado, imutável, todo-poderoso e eterno - sem princípio ou fim. Eu sou o que nasceu da Virgem, sem perder minha divindade, mas unindo-a à minha humanidade, de forma que, em uma pessoa, possa ser o verdadeiro Filho de Deus e Filho da Virgem. Eu sou o que pregado na cruz, morreu e foi sepultado, mas minha divindade permaneceu intacta.

    Embora eu tenha morrido na humanidade e na carne, que Eu, o Filho único, assumi, eu ainda continuei a existir na minha natureza divina, sendo um só Deus com o Pai e o Espírito Santo. Eu sou o mesmo que ressuscitou dos mortos e subiu ao Céu, e que agora falo contigo em meu Espírito. Eu te escolhi e tomei por esposa para mostrar-te os caminhos do mundo e meus segredos divinos, porque isso me agrada. Tu és minha por direito, porque quando teu marido morreu, colocaste toda a tua vontade em minhas mãos, e após sua morte, pensaste e rezaste sobre como poderias te tornar pobre e abandonar tudo por mim. Então, és minha por direito, por causa deste teu imenso amor, e por isso cuidarei de ti. Então, Eu te tomo como minha esposa, e para meu próprio prazer, como é próprio Deus ser com uma alma casta.

    É obrigação da noiva estar preparada quando o noivo quer celebrar o casamento, de forma que ela esteja adequadamente vestida e pura. Tu já estarás limpa se teus pensamentos estiverem sempre atentos a teus pecados, em como no batismo Eu te purifiquei do pecado de Adão, e quantas vezes eu fui paciente e te sustentei quando caíste em pecado. A noiva deve também trazer a insignia de seu noivo em seu peito, que significa que deves observar e reconhecer os favores e benefícios que eu te fiz, assim como quão nobremente eu te criei, dando-te um corpo e alma; quão nobremente eu te enriqueci, dando-te saúde e bens temporais; quão amorosamente e docemente eu te redimi quando morri por ti e restaurei a tua herança celestial - se quiseres tê-la.

    A esposa deve também fazer a vontade do seu esposo. Mas qual é minha vontade, se não que deves querer me amar acima de todas as coisas e não desejar nada a não ser Eu?

    Criei todas as coisas pelo bem da humanidade e coloquei todas as coisas sob a autoridade dela, mas ela ama todas as coisas exceto a mim, e não odeia nada mas a mim. Eu recuperei sua herança, que tinham perdido por causa do pecado, mas eles ela é tão tola e sem razão, que prefere a glória passageira - que é como a espuma do mar que se levanta por um momento como uma montanha, e depois rapidamente cai em nada - ao invés da glória eterna na qual há bem que nunca acaba.

    Mas se não desejas, minha esposa, nada a não ser Eu, se desprezas todas as coisas pelo meu bem – não somente seus filhos e parentes, mas também honras e riquezas - eu te darei a mais preciosa e amorosa recompensa! Eu não te darei nem ouro nem prata, mas a mim mesmo, para ser seu noivo - e em recompensa, Eu, que sou o Rei da Glória. Mas se tu estás com vergonha de ser pobre e desprezada, então considera como Eu, seu Deus, fiquei antes de ti, quando meus servos e amigos me abandonaram no mundo. Eu não estava procurando amigos do mundo, mas amigos do céu. E se agora estiveres preocupada e com medo do peso e dificuldade do trabalho, bem como da doença, considere quão difícil e penoso é queimar no inferno!

    O que não merecerias se tivesses ofendido um senhor terrestre, como me fizeste? Assim, embora eu te ame com todo o meu coração, não fica sem justiça o menor ponto. Então, como pecaste em todos os teus membros, tens também que prestar satisfação e penitência em cada membro. Mas, por causa de tua boa vontade e tua propósito de reparar seus pecados, vou mudar tua sentença com misericórdia, trocando a dolorosa punição por uma pequena penitência.

    Então, abrace e tome sobre ti um pequeno sofrimento, para que possas ser limpa do pecado e alcances o grande premio em pouco tempo! A esposa deve ficar cansada trabalhando ao lado do seu esposo de modo que possa ainda mais confiantemente ter seu descanso com ele.



    Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo à sua esposa sobre como ela deve amar e honrá-Lo, o Esposo; sobre como o mal ama o mundo e odeia a Deus.

    Livro 1 - Capítulo 3

    Eu sou teu Deus e Senhor a quem adoras e honras. Sou o que sustenta o céu e a terra com meu poder. Eles não são sustentados por nenhum pilar ou qualquer outra coisa. Eu sou o que, a cada dia, é tomado e oferecido no altar, sob a aparência de pão; verdadeiro Deus e homem. Sou o mesmo que te escolheu. Honra o meu Pai! Ama-me! Obedece ao meu Espírito! Honre minha Mãe como tua Senhora! Honre todos os meus santos! Mantém a verdadeira fé que deves aprender por ele que experimentou dentro de si a batalha dos dois espíritos - o espirito da falsidade e o espirito da verdade - e com minha ajuda venceu. Mantenha a verdadeira humildade. O que é a verdadeira humildade senão comportar-se como é realmente, e louvar a Deus pelas boas coisas que ele nos tem dado?

    Mas agora, há muitos que me odeiam e a meus feitos, e que consideram minhas palavras como desgraça e vaidade, e ao contrário, com afeição e amor, abraçam o adulterador: o demônio. Tudo o que eles fazem para mim é feito com reclamação e amargor. Eles nem mesmo confessam meu nome ou me servem, se não tem medo da opinião de outros homens. Eles amam o mundo com tal fervor que nunca se cansam de trabalhar por ele, noite e dia, sempre queimando de amor por ele. Seu serviço é tão agradável para mim como o de alguem que dá dinheiro a seus inimigos para matar seu próprio filho! Isto é o que eles fazem para mim. Dão-me algumas esmolas e me honram com seus lábios para conseguir sucesso no mundo e permanecer em seu privilégio e em seus pecados. O bom espírito está, portanto, bloqueado neles e eles estão impedidos ter qualquer progresso em fazer o bem.

    O entanto, se quiseres amar-me de todo seu coração e não desejar nada a não ser a mim, Eu te atrairei a mim através do amor, como um imã atrai o ferro a si. Tomar-te-ei em meu braço, que é tão forte que ninguém o pode estender, e tão firme que ninguém, uma vez estendido, pode dobrar, e é tão doce que ultrapassa todos os aromas e está além da comparação com qualquer coisa doce ou prazer do mundo.

    EXPLICAÇÃO

    Este homem, que foi o professor da esposa de Cristo, foi o santo teólogo e cônego de Linkoping, chamado mestre Matias da Suécia. Ele escreveu um excelente comentário sobre toda a Bíblia. Ele foi sutilmente tentado pelo demônio com muitas heresias contra a fé católica. Mas ele superou todas elas com a ajuda de Cristo e não pode ser conquistado pelo demônio, como é mostrado na biografia escrita de Santa Brigida. Foi este mestre Matias quem compôs o prólogo destes livros que começa assim: “Stupor et mirabilia, etc”.

    Ele foi um homem santo e com grande poder espiritual em palavras e obras. Quando ele morreu na Suécia, a esposa de Cristo estava vivendo em Roma. Quando ela estava rezando, ela ouviu uma voz dizendo a ela em espírito: “Feliz és tu mestre Matias, pela coroa que foi preparada para ti no céu! Vem agora à sabedoria que nunca terá fim!".

    Também se pode ler mais sobre mestre Matias no livro I, capitulo 52; Livro V, em resposta à pergunta 3 na ultima questão, e no livro VI, capítulos 75 e 89.



    Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo à sua esposa nas quais lhe diz que não se preocupe nem pense que o que se revela a ela proceda de um espírito maligno, e sobre como distinguir um Espírito bom de um mau.

    Livro 1 - Capítulo 4

    Eu sou teu Criador e Redentor. Porque tens temido minhas palavras? Porque te tens perguntado se procedem de um espírito bom ou de um mau? Diga-me, tens encontrado algo em minhas palavras que não te tenha ditado tua própria consciência? Ordenei-te algo contrario a razão? A isto a esposa respondeu: ”Não, ao contrario, tuas palavras são verdadeiras e eu estava errada.” O Espírito, seu Esposo, acrescentou: ”Eu te ordenei três coisas. Nelas poderias reconhecer o bom espírito. Ordenei-te que honrasses o teu Deus que te criou e te tem dado tudo o que tens. Ordenei-te que te mantivesses na verdadeira fé, ou seja, que cresses que nada se criou nem se pode criar sem Deus. Também te ordenei que mantivesses uma razoável temperança em todas as coisas, pois o mundo foi feito para uso do homem, afim de que as pessoas o aproveitem para suas necessidades.

    Da mesma forma, também podes reconhecer o espírito imundo por três coisas contrarias a estas: Ele tenta para que te elogies a ti mesma e te orgulhes do que te foi dado; Ele tenta para que atraiçoes tua própria fé; também te tenta a impureza em todo o corpo e em todas as coisas, e faz com que teu coração arda por isso.

    Às vezes também engana as pessoas sob a forma de bem. Por isso te tenho ordenado que sempre examines tua consciência e que a exponhas a prudentes diretores espirituais. Por isso não duvides de que o bom espírito de Deus esteja contigo quando não desejas outra coisa a não ser a Deus e Dele te inflames toda. Só Eu posso criar esse fervor e assim, é impossível ao demônio aproximar-se de ti. Também não é possível para ele aproximar-se das pessoas, a menos que Eu o permita, seja pelos pecados humanos ou por algum de meus desígnios ocultos, porque ele é minha criatura como todas as demais, e foi criado bom por mim, embora tenha se pervertido por sua própria maldade. Portanto, Eu sou Senhor sobre ele.

    Por esta razão me acusam falsamente aqueles que dizem que as pessoas que me rendem grande devoção estão loucas ou possuídas. Fazem-me parecer como um homem que exponha a sua casta e fiel mulher a um adúltero. Isso é o que Eu seria se deixasse que alguém que me amasse plena e retamente fosse possuído por um demônio. Mas como Eu sou fiel, nenhum demônio poderá nunca controlar a alma de nenhum dos meus devotos servidores. Embora meus amigos, às vezes pareçam estar quase fora de sua razão, não é porque sofram devido ao demônio, nem porque me sirvam com fervorosa devoção. Mas se deve a algum defeito do cérebro ou a alguma outra causa oculta que serve para humilhá-los. Às vezes, também pode ocorrer que o demônio receba de Mim um poder sobre os corpos das pessoas boas, para um maior beneficio delas, ou que obscureça suas consciências. Entretanto, nunca poderá conseguir o controle das almas que têm fé e se deleitam em Mim.



    Amorosas palavras de Cristo à sua esposa com a preciosa imagem de uma nobre fortaleza que simboliza a Igreja Militante, e sobre como a Igreja de Deus será agora reconstruída pelas orações da gloriosa Virgem e dos Santos.

    Livro 1 - Capítulo 5

    Eu sou o Criador de todas as coisas. Sou o Rei da gloria e o Senhor dos anjos. Construí para Mim uma nobre fortaleza e tenho colocado nela os meus eleitos. Meus inimigos têm corrompido seus fundamentos e tem dominado meus amigos - tanto que fazem sair a medula dos ossos de seus pés amarrados a colunas. Suas bocas são apedrejadas e são torturados pela fome e a sede. Assim, os inimigos perseguem o seu Senhor. Meus amigos estão agora gemendo e suplicando ajuda; a justiça pede vingança, mas a misericórdia invoca o perdão.

    Então, Deus disse à Corte Celestial ali presente: ”O que pensais dessas pessoas que têm assaltado minha fortaleza?”. Eles, a uma voz responderam: “Senhor, toda a justiça está em Ti e em Ti vemos todas as coisas. A Ti foi dado todo juízo, Filho de Deus, que existes sem princípio nem fim, Tu és seu Juiz. E Ele disse: ”Como todos sabeis e vedes em Mim, pelo bem da Minha Esposa, decidam qual é a sentença justa”. Eles disseram: ”Isto é justiça: Que aqueles que derrubaram os muros sejam castigados como ladrões; que aqueles que persistem no mal, sejam castigados como invasores, que os cativos sejam libertados e os famintos saciados”.

    Então Maria, a Mãe de Deus que a princípio havia permanecido em silencio, disse: “Meu Senhor e Filho querido, tu estiveste em meu ventre como verdadeiro Deus e homem. Tu te dignaste a santificar-me a mim que era um vaso de argila. Eu te suplico, tem misericórdia deles uma vez mais!” O Senhor respondeu a sua Mãe: ”Bendita seja a palavra de tua boca! Como um suave perfume sobe até Deus. Tu és a glória e a Rainha dos anjos e de todos os santos, porque Deus foi consolado por ti e a todos os santos deleitas. E porque tua vontade tem sido a Minha desde o começo de tua juventude, uma vez mais cumprirei o teu desejo”. Então Ele disse à Corte Celestial: ”Porque haveis lutado valentemente, pelo bem da vossa caridade, terei piedade por ora".

    Vede, re-edificarei meu muro pelos vossos rogos. Salvarei e curarei os oprimidos pela força e os honrarei cem vezes pelo abuso que sofreram. Se os que fazem violência pedem misericórdia, terão paz e misericórdia. Aqueles que a desprezam, sentirão Minha justiça”. Então Ele disse à sua esposa:” Esposa minha, te escolhi e te revesti com Meu Espírito. Tu escutas Minhas palavras e as dos meus santos. Embora os santos vejam da mesma forma todas as coisas em mim, já que são espíritos, Eu agora vou também mostrar-te o que todas essas coisas significam. Afinal, tu que ainda estás no corpo, não me podes ver da mesma forma que eles, que são meus espíritos. Agora te mostrarei o que significam estas coisas.

    A fortaleza da qual tenho te falado é a Santa Igreja, que construí com meu próprio sangue e o dos santos. Eu mesmo a cimentei com minha caridade e depois coloquei nela meus eleitos e amigos. Seu fundamento é a fé, ou seja, a crença em que Sou um Juiz justo e misericordioso. Este fundamento tem sido agora deturpado porque todos creem e pregam que sou misericordioso, mas quase ninguém crê que Eu seja um Juiz justo. Consideram-me um juiz iníquo. De fato, um juiz seria iníquo, se, à margem da misericórdia, deixasse os maus sem castigo de forma que pudessem continuar oprimindo os justos.

    Eu, porém sou um Juiz justo e misericordioso e não deixarei que o mínimo pecado fique sem castigo nem que o menor bem fique sem recompensa. Pelos buracos perfurados no muro, entram na Santa Igreja pessoas que pecam sem medo, que negam que Eu seja justo e atormentam meus amigos como se os cravassem em estacas. A estes meus amigos não se dá alegria nem consolo. Pelo contrário, são castigados e injuriados como se fossem demônios. Quando dizem a verdade sobre mim, são silenciados e acusados de mentir. Eles anseiam com paixão ouvir ou falar a verdade, mas não há ninguém que os escute nem quem lhes diga a verdade.

    Além disso, Eu, Deus Criador, estou sendo blasfemado. As pessoas dizem: ”Não sabemos se Deus existe. E, se existe, não nos importa.” Jogam no chão minha bandeira e a pisoteiam dizendo: “Porque sofreu? Em que nos beneficia? Se cumpre nossos desejos estaremos satisfeitos, que mantenha Ele seu reino em seu Céu! “Quando quero entrar neles, dizem: ”Antes morrermos que submeter nossa vontade!” Dá-te conta, esposa minha, que tipo de gente é! Eu os criei e posso destruí-los com uma palavra! Que soberbos são para comigo! Graças aos rogos de minha Mãe e de todos os santos, permaneço misericordioso e tão paciente que estou desejando enviar-lhes palavras da minha boca e oferecer-lhes misericórdia. Se a quiserem aceitar, terei compaixão.

    Do contrário, conhecerão minha justiça e, como ladrões, serão publicamente envergonhados diante dos anjos e dos homens e condenados por cada um deles. Como os criminosos são colocados nas forcas e devorados pelos corvos, assim eles serão devorados pelos demônios, mas não serão consumidos. Como as pessoas amarradas em cepos não podem descansar, eles padecerão dor e amargura em todas as partes.

    Um rio de fogo entrará por suas bocas, mas seus estômagos não serão saciados e sua sede e suplício se reavivarão a cada dia. Porém, meus amigos estarão a salvo, e serão consolados pelas palavras que saem de minha boca.

    Eles verão minha justiça junto de minha misericórdia. Revesti-los-ei com as armas do meu amor, que os tornarão tão fortes que os adversários da fé escorrerão diante deles como o barro; quando virem minha justiça, cairão em vergonha perpétua por haverem abusado de minha paciência.



    Palavras de Cristo à sua esposa sobre como seu Espírito não pode morar nos malvados; sobre a separação dos bons e perversos e o envio dos bons, armados com armas espirituais, à guerra contra o mundo.

    Livro 1 - Capítulo 6

    Meus inimigos são como os mais selvagens animais, que nunca podem estar satisfeitos nem permanecer em calma. Seu coração está tão vazio de meu amor que o pensamento da minha paixão nunca os penetra. Nem sequer uma vez, desde o mais íntimo de seu coração, tem saído uma palavra como esta: ”Senhor, tu nos redimistes, louvado sejas por tua amarga paixão!” Como pode viver o meu Espírito em pessoas que não sentem o divino amor por mim, pessoas que estão desejando trair a outros para conseguir seu próprio benefício?

    Seu coração está cheio de vermes vis, ou seja, cheio de paixões mundanas. O demônio deixou seus excrementos em suas bocas e por isso não têm gosto pelas minhas palavras. Por isso, com meu serrote os cortarei para apartá-los de meus amigos. Não há forma pior de morrer do que sob a serra. Igualmente não haverá castigo que eles não compartilhem: serão serrados em dois pelo demônio e separados de mim. Vejo-os tão odiosos que todos os que aderirem a eles, se separarão de mim.

    Por esta razão, estou enviando meus amigos para que eles separem os demônios de meus membros, já que os demônios são meus verdadeiros inimigos. Eu os envio como nobres soldados à batalha. Todo aquele que mortifique sua carne e se abstenha do ilícito é meu verdadeiro soldado. Como lança levarão as palavras de minha boca e em suas mãos brandirão a espada da fé; em seu peito estará a couraça do amor para que, aconteça o que acontecer não deixem de me amar. Devem ter o escudo da paciência em suas costas, de forma que suportem tudo com paciência. Tenho-os entesourados como ouro num estojo: agora devem sair e andar em meus caminhos.

    Segundo os desígnios da justiça, Eu não poderia entrar na glória de minha majestade sem suportar tribulação na minha natureza humana. Portanto, como entrarão eles? Se seu Senhor sofreu, não é de estranhar que eles também tenham de sofrer. Se seu Senhor suportou chicotadas, não será para eles grande coisa o suportar palavras. Não hão de temer porque nunca os abandonarei. Da mesma forma que é impossível para o demônio entrar no coração de Deus e dividi-lo, igualmente será impossível separá-los de mim. E como, diante de meus olhos são ouro puríssimo, pois foram testados com um pouco de fogo, não os abandonarei: é para sua maior recompensa.



    Palavras da gloriosa Virgem à sua filha, sobre a forma de vestir e o tipo de roupas e enfeites com os quais a filha deve adornar-se e vesti-se.

    Livro 1 - Capítulo 7

    Eu sou Maria, que deu à luz o Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Sou a Rainha dos anjos. Meu Filho te ama com todo o coração. Ama-O! Deves adornar-te com roupas muito honestas e eu te mostrarei como e que tipo de roupas devem ser. Como antes, tinhas uma anágua, uma túnica, sapatos, uma capa e um broche sobre seu peito, agora hás de cobrir-te com roupas espirituais. A anágua é a contrição. Como a anágua se veste junto ao corpo, assim a contrição e a conversão são o primeiro passo de volta a Deus. Através delas, a mente, que em um momento encontrou gozo no pecado, se purifica e a carne impura se mantém sob controle.

    Os dois sapatos são duas disposições, na verdade a intenção de retificar as transgressões passadas e a intenção de fazer o bem e manter-se longe do mal. Tua túnica é a esperança em Deus. Como a túnica tem duas mangas, há de haver justiça e misericórdia em tua esperança. Desta forma esperarás na misericórdia de Deus porque não esquecerás sua justiça. Pensa em sua justiça e em seu juízo, de forma que não esqueças sua misericórdia, porque Ele não usa a justiça sem misericórdia nem a misericórdia sem justiça. A capa é a fé. Do mesmo modo que a capa cobre tudo e tudo está contido nela, a natureza humana pode igualmente abarcar tudo e conseguir tudo mediante a fé.

    Esta capa deve ser enfeitada com as insígnias do amor de teu Esposo, ou seja, da forma como te criou, da forma que te alimentou, te atraiu para seu Espírito e abriu teus olhos espirituais. O broche é a consideração de sua paixão. Fixa firmemente em teu peito o pensamento de como Ele foi fraudado e mortificado, como se manteve vivo na cruz, ensanguentado e perfurado em todas as suas fibras, como em sua morte seu corpo inteiro se convulsionou pela dor aguda da paixão, como entregou seu Espírito nas mãos do Pai. Que este broche permaneça sempre em teu peito! Sobre tua cabeça, coloque-se uma coroa, ou seja, a castidade em teus afetos, que prefiras resistir aos açoites antes de tornar a manchar-te. Sê modesta e digna. Não penses nem desejes nada mais que o teu Criador. Quando tens a Ele, tens tudo. Adornada desta forma, deves esperar o teu Esposo.



    Palavras da Rainha do Céu à sua querida filha, ensinando-lhe que deve amar e louvar seu Filho junto de sua Mãe.

    Livro 1 - Capítulo 8

    Eu sou a Rainha dos Céus. Estás preocupada sobre como tens que louvar-me. Tenha a certeza de que todo o louvor a meu Filho é louvor a mim. E aqueles que o desonram, desonram a mim, pois meu amor para com Ele e o dele para comigo é tão ardente como se nós dois fossemos um só coração. Tanto me honrou a mim, que era um vaso de argila, que me elevou acima de todos os anjos. Por isso tu me hás de louvar assim: ”Bendito sejas, Senhor Deus, Criador de todas as coisas, que te dignaste descer ao ventre da Virgem Maria. Bendito sejas Senhor Deus que quiseste habitar nas entranhas da Virgem Maria, sem ser um fardo para Ela e te dignaste receber sua carne imaculada sem pecado.

    Bendito sejas, Senhor Deus, que vieste à Virgem, dando-lhe gozo a sua alma e a todos os seus membros e que, com o gozo de todos os membros de seu corpo sem pecado, Dela nasceste. Bendito sejas, Senhor Deus, que depois de tua ascensão alegraste a Virgem Maria com frequentes consolações e com tua consolação a visitaste. Bendito sejas, Senhor Deus, que elevaste o corpo e a alma da Virgem Maria, tua Mãe, aos Céus e a honraste situando-a junto de tua divindade, sobre todos os anjos. Tem misericórdia de mim, Senhor, por seus rogos e intercessão”.



    Palavras da Rainha dos Céus à sua querida filha sobre o formoso amor que o Filho professava à sua Mãe Virgem; sobre como a Mãe de Cristo foi concebida em um matrimonio casto e santificada no ventre de sua mãe; sobre como subiu ao Céu em corpo e alma; sobre o poder de seu nome e sobre os anjos designados aos homens para o bem e para o mal.

    Livro 1 - Capítulo 9

    Sou a Rainha do Céu. Ama meu Filho, porque ele é o honestíssimo e quando tens a Ele, tens tudo o que é honesto. Ele é o mais desejável e quando tens a Ele tens tudo o que é desejável. Ama-o também porque Ele é virtuosíssimo e quando o tens, tens todas as virtudes. Vou te contar como foi maravilhoso seu amor pelo meu corpo e minha alma e quanta honra deu ao meu nome. Ele, meu filho, me amou antes que eu o amasse, pois é meu Criador. Ele uniu meu pai e a minha mãe em um matrimonio tão casto que não se pode encontrar nenhum casal mais casto.

    Nunca desejaram unir-se exceto de acordo com a Lei, só para terem descendência. Quando o anjo lhes anunciou que teriam uma Virgem pela qual chegaria a salvação do mundo, antes desejariam morrer do que unir-se em um amor carnal, pois a luxuria estava extinta neles. Asseguro-te que, pela caridade divina e devido à mensagem do anjo, eles se uniram na carne, não por concupiscência, mas contra sua vontade e por amor a Deus. Dessa forma, minha carne foi gerada de suas sementes e através do amor divino.

    Quando meu corpo se formou, Deus enviou nele a alma criada a partir da sua divindade. A alma foi imediatamente santificada junto com o corpo e os anjos a vigiavam e custodiavam dia e noite. É impossível expressar-te que grandíssimo gozo sentiu minha mãe quando minha alma santificada se uniu ao meu corpo. Depois, quando o curso da minha vida se cumpriu, meu Filho primeiro elevou minha alma, por ter sido a dona do corpo, a um lugar mais eminente que os demais, perto da glória de sua divindade, e depois meu corpo, da forma que nenhum outro corpo de criatura esteja tão perto de Deus como o meu.

    Veja quanto meu Filho amou a minha alma e meu corpo! Existem pessoas, entretanto, que maliciosamente negam que eu tenha sido assunta em corpo e alma, e existem outras que simplesmente não tem maior conhecimento. Mas a verdade disso é certa: Fui elevada até a Gloria de Deus em corpo e alma! Escuta agora o muito que meu Filho honrou meu nome! Meu nome é Maria, como diz o evangelho.

    Quando os anjos olham esse nome, se regozijam em sua consciência e dão graças a Deus pela grandíssima graça que operou em mim e comigo, porque eles veem a humanidade de meu Filho glorificada em sua divindade. As almas do purgatório se regozijam de maneira especial, como quando um homem enfermo que está na cama escuta alentadoras palavras de outros e isto agrada seu coração fazendo-o sentir-se contente. Ao ouvir meu nome, os anjos se aproximam imediatamente das almas dos justos, a quem foram dados como guardiões, e se regozijam em seus progressos. Os anjos bons foram designados a todos como proteção e os anjos maus como provação.

    Não é que os anjos estejam separados de Deus, mas assistem a alma sem deixar Deus, e permanecem constantemente em sua presença, enquanto seguem inflamando e incitando a alma a fazer o bem. Os demônios todos se espantam e temem meu nome. Ao som do nome de Maria, soltam imediatamente a presa que tenham em suas garras. Da mesma forma que uma ave de rapina com a presa em suas garras, a deixa quando escuta um ruído e volta depois quando vê que não era nada, igualmente os demônios deixam a alma, assustados, ao ouvir meu nome, mas voltam de novo rápidos como uma flecha a menos que vejam que depois se produziu uma emenda.

    Ninguém está tão frio no amor de Deus – a menos que esteja condenado- que o demônio não se distancie dele se invoca meu nome com a intenção de não retornar mais aos seus maus hábitos, e o demônio se mantém longe dele a menos que volte a consentir em pecar mortalmente.



    Palavras da Virgem Maria à sua filha, oferecendo-lhe um proveitoso ensino sobre como deve viver, e descrevendo maravilhosos detalhes da paixão de Cristo.

    Livro 1 - Capítulo 10

    Sou a Rainha do Céu, a Mãe de Deus. Eu te disse que devias levar um broche sobre teu peito. Agora te mostrarei com mais detalhes como, desde o principio, quando eu primeiro ouvi e entendi que Deus existia, sempre e com temor estive zelosa sobre minha salvação na observância de seus mandamentos.

    Quando aprendi mais plenamente que o mesmo Deus era meu Criador e o Juiz de todas minhas ações, cheguei a amá-Lo profundamente e estive constantemente alerta e atenta para não ofendê-Lo por palavra ou por obra.

    Quando soube que Ele havia dado sua Lei e mandamentos a seu povo e fez milagres através deles, fiz a firme resolução em minha alma de não amar nada mais a não ser Ele, e as coisas mundanas se tornaram muito amargas para mim. Então, sabendo que o mesmo Deus redimiria o mundo e nasceria de uma Virgem, eu estava tão movida de amor por Ele que não pensava em nada mais a não ser em Deus, nem queria nada fora Dele. Separei-me, no possível, da conversação e presença de parentes e amigos, e dei aos necessitados tudo o que havia chegado a ter, ficando somente com um moderado vestuário e alimentação.

    Nada me agradava a não ser Deus. Sempre esperei em meu coração viver até o momento de seu nascimento, e talvez, aspirar a ser uma indigna servidora da Mãe de Deus. Também fiz em meu coração o voto de preservar minha virgindade, se isso fosse aceitável a Ele, e de não possuir nada no mundo. Mas se Deus quisesse outra coisa, meu desejo era que se cumprisse em mim seu desejo e não o meu, porque acreditei que Ele era capaz de tudo e que Ele só queria o melhor para mim. Por Ele, submeti-lhe toda a minha vontade.

    Quando chegou o tempo estabelecido para a apresentação das virgens no templo do Senhor, estive presente com elas graças à religiosa obediência de meus pais.

    Pensei comigo, que nada era impossível para Deus e que, como Ele sabia que eu não desejava nem queria mais que a Ele, Ele poderia preservar minha virgindade, se isto lhe agradasse, e se não, que se fizesse sua vontade.

    Depois de ter escutado todos os mandamentos no templo, voltei a casa ainda ardendo mais que nunca por Deus, sendo inflamada com novos fogos e desejos de amor a cada dia. Por isso, me separei ainda mais de tudo e estive só noite e dia, com grande temor de que minha boca falasse e meus ouvidos ouvissem algo contra Deus, ou de que meus olhos olhassem algo em que me deleitasse; em meu silencio senti também temor e ansiedade por estar calando sobre algo que deveria falar.

    Com essas perturbações em meu coração, e a sós comigo mesma, encomendei todas as minhas esperanças a Deus. Naquele momento veio ao meu pensamento considerar o grande poder de Deus; como os anjos e todas as criaturas o servem; e como sua glória é indescritível e eterna.

    Enquanto me perguntava tudo isso, tive três visões maravilhosas: Vi uma estrela, mas não como as que brilham no Céu. Vi uma luz, mas não como a que ilumina o mundo. Percebi um aroma, mas não de ervas nem de nada disso, mas indescritivelmente suave, que me plenificou tanto que senti como se saltasse de gozo. Nesse momento, ouvi uma voz, mas não de fala humana.

    Tive muito medo quando a ouvi e me perguntei se seria uma ilusão. Então, apareceu diante de mim um anjo de Deus de uma belíssima forma humana, mas não revestida de carne, e me disse: “Ave, cheia de graça...” Ao ouvi-lo perguntei-me o que significava aquilo ou porque me tinha saudado dessa forma, pois sabia e cria que eu era indigna de algo semelhante, ou de algo tão bom, mas também sabia que para Deus não era impossível fazer tudo o que quisesse. Então, o anjo acrescentou:” O filho que nascerá de ti é santo e se chamará Filho de Deus. Se fará como a Deus apraz”. Ainda não me acreditei digna nem lhe perguntei: “Por quê?” ou “Quando se fará?”, mas lhe perguntei: “Como é que eu, tão indigna, hei de ser mãe de Deus, se nem sequer conheço varão?"

    O anjo me respondeu, como disse, que nada é impossível para Deus, mas “Tudo o que ele queira se fará”. Quando ouvi as palavras do anjo, senti o mais fervente desejo de converter-me na mãe de Deus, e minha alma disse com amor: “Aqui estou, faça-se em mim tua vontade!" Ao dizer aquilo, nesse momento e lugar, foi concebido meu Filho em meu ventre com uma inefável exultação da minha alma e dos membros do meu corpo. Quando Ele estava em meu ventre, o gerei sem dor alguma, sem torpor nem cansaço em meu corpo. Humilhei-me em tudo, sabendo que levava em mim o Todo-poderoso. Quando o dei à luz, o fiz sem dor nem pecado, igual a quando o concebi, com tal exultação de alma e corpo que senti como se caminhasse sobre o ar, gozando de tudo. Ele entrou em meus membros, com gozo de toda minha alma, e dessa forma, com gozo de todos meus membros, saiu de mim, deixando minha alma exultante e minha virgindade intacta.

    Quando olhei e contemplei sua beleza, a alegria transbordou de minha alma, sabendo-me indigna de um Filho assim. Quando observei os lugares nos quais, como sabia através dos profetas, suas mãos e pés seriam perfurados na crucifixão, meus olhos se encheram de lagrimas e meu coração se partiu de tristeza. Meu Filho olhou meus olhos lacrimosos e se entristeceu quase até morrer. Mas ao contemplar seu divino poder, me consolei de novo, dando-me conta de que isto era o que ele queria, e por ele, como era o correto, conformei toda a minha vontade à sua. Assim, minha alegria sempre se misturava com a dor.

    Quando chegou o momento da paixão de meu Filho, seus inimigos o arrastaram. Golpearam-no na face e no pescoço e lhe cuspiram zombando dele. Quando foi levado à coluna, ele mesmo se desnudou e colocou suas mãos sobre o pilar, e seus inimigos as ataram sem misericórdia. Atado à coluna, sem nenhum tipo de roupa, como quando veio ao mundo, se manteve ali sofrendo a vergonha de sua nudez. Seus inimigos o cercaram e, tendo fugido todos os seus amigos, flagelaram seu puríssimo corpo, limpo de toda mancha e pecado. Na primeira chicotada eu, que estava por perto, caí quase morta, e ao voltar a mim, vi em meu espírito seu corpo chicoteado e chagado até as costelas.

    O mais horrível foi que quando lhe retiraram as amarras, as correias grossas haviam sulcado sua carne. Estando aí meu Filho, tão ensanguentado e lacerado que não lhe restou nenhuma área sã sem ser chicoteada, alguém ali presente perguntou: “Vão matá-lo sem estar sentenciado?” e imediatamente lhe cortou as amarras. Então, meu Filho vestiu suas roupas e vi como ficou cheio de sangue o lugar onde havia estado. E, por suas pegadas, pude ver por onde andava, pois o solo ficava empapado de sangue por onde Ele ia. Não tiveram paciência quando se vestia, empurram-no e o arrastaram com pressa. Sendo tratado como um ladrão, meu Filho secou o sangue de seus olhos. Quando ele foi sentenciado à morte, lhe impuseram a cruz para que a carregasse. Levou-a um pouco, mas depois veio um que a pegou e o ajudou a carregá-la. Enquanto meu Filho ia até o lugar de sua paixão, alguns o golpearam no pescoço e outros lhe esbofetearam a face. Batiam com tanta força que embora não visse quem lhe batia, ouvia claramente o som da bofetada.

    Quando cheguei com Ele ao lugar da paixão, vi todos os instrumentos de sua morte ali preparados. Ao chegar ali Ele só se desnudou enquanto os carrascos diziam entre si: “Estas roupas são nossas e ele não as recuperará porque está condenado à morte”. Meu Filho estava ali, nu como quando nasceu e nisto alguém veio correndo e lhe ofereceu um pano com o qual Ele contente pode cobrir sua intimidade. Depois seus cruéis executores o agarraram e o estenderam na cruz, pregando primeiro sua mão direita na ponta da cruz onde tinha feito o buraco para o cravo. Perfuraram sua mão no ponto em que o osso era mais sólido. Com uma corda lhe estenderam a outra mão e a pregaram no outro extremo da cruz, do mesmo modo.

    Continuando, cruzaram seu pé direito com o esquerdo por cima usando dois cravos de forma que seus nervos e veias se estenderam e se romperam. Depois lhe puseram a coroa de espinhos e a apertaram tanto que o sangue que saia de sua venerável cabeça lhe tapava os olhos, lhe obstruía os ouvidos e lhe empapava a barba ao cair. Estando assim na cruz, ferido e sangrando, sentiu compaixão de mim, que estava ali soluçando e, olhando com seus olhos ensanguentados em direção a João, meu sobrinho, me encomendou a ele. Nesse momento pude ouvir alguns dizendo que meu Filho era um ladrão, outros que era um mentiroso, e ainda outros dizendo que ninguém merecia a morte mais do que Ele.

    Ao ouvir tudo isto se renovava minha dor. Como disse antes, quando lhe fincaram o primeiro cravo, esse primeiro sangue me impressionou tanto que cai como morta, meus olhos cegos na escuridão, minhas mãos tremendo, meus pés instáveis. No impacto de tanta dor não pude olhá-Lo até que terminaram de crucificá-Lo. Quando pude levantar-me, vi meu Filho arfando ali miseravelmente e, consternada de dor, eu sua Mãe tão triste, apenas podia manter-me em pé.

    Vendo-me a mim e seus amigos chorando desconsoladamente, meu Filho gritou em voz alta e pesarosa dizendo: “Pai porque me abandonaste”? Era como dizer: “Ninguém se compadece de mim senão tu, Pai”. Então seus olhos pareciam meio mortos suas faces estavam afundadas, seu rosto lúgubre, sua boca aberta, e sua língua ensanguentada.

    Seu ventre estava pressionado na direção das costas, porque todos os líquidos tinham sido perdidos. Era como se não tivesse órgãos. Todo o seu corpo estava pálido e lânguido devido à perda de sangue. Suas mãos e pés estavam muito rígidos e estirados ao terem sido forçados para adaptá-los a cruz. Sua barba e seu cabelo estavam completamente empapados de sangue.

    Estando assim, lacerado e lívido, sua mente e seu coração se mantinham vigorosos, pois tinha uma boa e forte constituição. De minha carne, Ele recebeu um corpo puríssimo e bem proporcionado. Sua pele era tão fina e macia que ao menor arranhão imediatamente lhe saia sangue, que sobressaia sobre sua pele tão pura. Precisamente por sua boa constituição, a vida lutou contra a morte em seu corpo chagado. Em certos momentos, a dor nas extremidades e fibras de seu corpo lacerado lhe subia até o coração, ainda vigoroso e integro e isto trazia um incrível sofrimento. Em outros momentos, a dor baixava de seu coração para seus membros feridos e, ao suceder isto, se prolongava a amargura de sua morte.

    Submerso na agonia, meu Filho olhou ao redor e viu seus amigos que choravam e que teriam preferido suportar eles mesmos a dor com seu auxilio e ter ardido para sempre no inferno em lugar de vê-Lo tão torturado. Sua dor pela dor dos seus amigos excedia toda a amargura e tribulações que havia suportado em seu corpo e em seu coração pelo amor que lhes tinha. Então, na excessiva angustia corporal de sua natureza humana, clamou a seu Pai: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”.

    Quando eu, sua triste Mãe, ouvi essas palavras, todo o meu corpo se comoveu com a dor amarga de meu coração, e todas as vezes que as recordo choro desde então, pois elas permaneceram presentes e recentes em meus ouvidos. Quando se lhe aproximava a morte e seu coração se rompeu com a violência das dores, todo seu corpo se convulsionou e sua cabeça se levantou um pouco para depois cair outra vez. Sua boca ficou aberta e sua língua podia ser vista sangrando. Suas mãos se retraíram um pouco do lugar da perfuração e seus pés suportaram mais com o peso de seu corpo. Seus dedos e braços pareceram estender-se e seus ombros ficaram rígidos contra a cruz.

    Então, alguns me diziam: “Maria, teu Filho está morto”. Outros diziam: ”Está morto, mas ressuscitará”. À medida que tudo seguia veio um homem e lhe cravou uma lança no lado com tanta força que quase saiu pelo outro lado. Quando tiraram a lança, sua ponta estava tingida de sangue vermelho e me pareceu como se me tivessem perfurado o meu próprio coração, quando vi meu querido Filho transpassado. Depois o retiraram da cruz e eu tomei seu corpo sobre meu regaço. Parecia um leproso, completamente lívido. Seus olhos estavam mortos e cheios de sangue, sua boca tão fria como gelo, sua barba eriçada e sua face contraída.

    Suas mãos estavam tão desconjuntadas que não se sustentavam sequer sobre seu ventre. Recebi-o sobre meus joelhos como havia estado na cruz, como um homem contraído em todos os seus membros. Depois disso, o estenderam sobre um tecido limpo de linho e com meu próprio lenço lhe sequei as feridas e seus membros e fechei seus olhos e sua boca que havia ficado aberta quando morreu. Assim o colocaram no sepulcro. De boa vontade me teria colocado ali viva com meu Filho se essa tivesse sido sua vontade! Terminado tudo isto veio o bondoso João e me levou à sua casa. Vê, Filha minha, quanto suportou meu Filho por ti!



    Palavras de Cristo à sua esposa sobre como Ele mesmo se entregou, por sua própria e livre vontade, para ser crucificado por seus inimigos, e sobre como controlar o corpo de atos ilícitos frente à consideração de sua paixão.

    Livro 1 - Capítulo 11

    O Filho de Deus se dirigiu a sua esposa, dizendo: “Sou o Criador do Céu e da terra, e o que se consagra no altar é meu verdadeiro corpo". Ama-me com todo teu coração, porque eu te amei e me entreguei a meus amigos por minha própria e livre vontade, enquanto meus amigos e minha Mãe caiam em amarga dor e pranto.

    Quando vi a lança, os cravos, as correias e todos os demais instrumentos de minha paixão ali preparados, ainda assim fiquei a sofrer com alegria. Quando minha cabeça sangrava por todas as partes a partir da coroa de espinhos, mesmo que meus inimigos se apoderassem de meu coração, desejaria que o ferissem e o desprezassem, ao invés de perder-te.

    Portanto serias muito ingrata se, em correspondência a tanta caridade, não me amasses. Se minha cabeça foi perfurada e se inclinou na cruz por ti, também tua cabeça deveria inclinar-se até a humildade. Já que meus olhos estavam ensanguentados e cheios de lagrimas, teus olhos deveriam abster-se de visões agradáveis a teus olhos. Se meus ouvidos se cobriram de sangue e ouvi palavras de zombaria contra mim, teus ouvidos teriam que abster-se das conversas frívolas e inoportunas.

    Ao se ter dado bebida amarga à minha boca e negado uma doce, preserve a tua boca do mal e deixa que se abra para o bem. Posto que minhas mãos foram estendidas e cravadas, que as obras simbolizadas por tuas mãos se estendam aos pobres e aos meus mandamentos. Que teus pés, ou sejam, teus atos, com os quais deves caminhar até mim, sejam crucificados aos deleites de maneira que, da mesma forma que sofri em todos meus membros, também todos os teus membros estejam dispostos a obedecer-me. Peço mais serviços para ti do que para outros porque te dei uma maior graça”.



    Sobre como um anjo reza por sua esposa e como Cristo pergunta ao anjo o que é que pede para sua esposa e o que é bom para ela.

    Livro 1 - Capítulo 12

    Um anjo bom, o guardião da esposa, apareceu rogando a Cristo por ela. O Senhor lhe respondeu e disse: “Uma pessoa que reza por outra deve rogar pela salvação dela. Tu és como um fogo que nunca se extingue, incessantemente ardendo com meu amor. Tu vês e conheces tudo quando me vês e não queres nada mais do que o que eu quero. Portanto, diz-me o que é que convém a esta minha esposa? Ele respondeu: “Senhor, tu sabes tudo”. O Senhor lhe disse: “Tudo o que se criou ou se criará existe eternamente em mim.”

    Mas, para que minha esposa possa reconhecer minha vontade, diz-me o que é bom para ela, agora que está escutando”. E o anjo disse: “Ela tem um coração orgulhoso e arrogante. Portanto, necessita uma vara com que possa ser domada”. Então, o Senhor disse: ”Que pedes para ela meu amigo"? O anjo disse: “Senhor, peço-te que lhe garanta a misericórdia com a vara”. E o Senhor acrescentou: “Pelo seu bem o farei, pois nunca emprego a justiça sem misericórdia". Então, a esposa deve amar-me com todo seu coração e com boa vontade.



    Sobre como um inimigo de Deus tinha três demônios dentro dele e sobre a sentença que Cristo lhe aplicou.

    Livro 1 - Capítulo 13

    Meu inimigo tem três demônios em seu interior. O primeiro reside em seus genitais, o segundo em seu coração, o terceiro em sua boca. O primeiro é como um barqueiro que deixa que a água lhe chegue aos joelhos, e a água, ao aumentar gradativamente, termina enchendo o barco. Então se produz uma inundação e o barco se afunda. Esse barco representa seu corpo, que é assaltado pelas tentações de demônios, e por suas próprias concupiscências, como se fossem tempestades. Primeiro, a luxuria entrou em seu corpo até os joelhos, ou seja, através do desejo demoníaco com o qual se deleitou com pensamentos impuros. E como ele não resistiu pelo arrependimento e penitencia, e não reparou o barco do seu corpo, mediante os apertos da abstinência, a água da luxuria cresceu diariamente enquanto ele deu seu consentimento ao mal.

    Então, o barco repleto, ou seja, cheio pela concupiscência do ventre, se inundou e afundou na luxuria, de forma que não pôde chegar ao porto da salvação. O segundo demônio, que residia em seu coração, é como um verme dentro de uma maçã, que primeiro come o pé da maçã e depois deixa seus excrementos, se espalha pelo interior da maçã até que todo o fruto se decompõe. Isto é o que faz o demônio. Primeiro destrói a vontade da pessoa e seus bons desejos, que são como a polpa, onde se encontra toda a força da alma e reside toda bondade, e quando o coração se esvazia desses bens, põem em seu lugar, dentro do coração, os pensamentos mundanos e os desejos que os dominam mais. Assim, impele o corpo ao seu próprio prazer, e por essa razão, o valor e entendimento do homem diminuem e ele odeia a sua vida. Esse homem é sem duvida uma maçã sem polpa, ou seja, é um homem sem coração, que entra em minha igreja pois já não tem o amor de Deus.

    O terceiro demônio é como um arqueiro que olha pela janela e dispara nos descuidados. Como não vai estar o demônio dentro de um homem que sempre o inclui em sua conversação? Aquele a quem amamos mais é quem mais mencionamos. As palavras amargas com que ele fere a outros são como flechas disparadas por tantas janelas quantas vezes o demônio é mencionado e pessoas inocentes sejam ofendidas por suas palavras.

    Eu, que Sou a verdade, juro pela minha verdade que os condenarei como uma prostituta, ao fogo e enxofre; como a um traidor insidioso, à mutilação de seus membros; como a um zombador do Senhor, à vergonha eterna. Entretanto, enquanto sua alma e seu corpo permaneçam unidos, minha misericórdia está ainda aberta para ele. O que exijo dele é que participe com maior frequência dos divinos ofícios e orações, que não tenha medo de nenhuma humilhação nem deseje qualquer honra e que o inferno ou más palavras não sejam mencionados pela sua boca.

    EXPLICAÇÃO

    Este homem, um abade da ordem cisterciense, enterrou uma pessoa que havia estado excomungada. Quando ele rezou a oração de encomenda de corpo sobre ele, Santa Brígida ouviu em êxtase espiritual as seguintes palavras do Senhor: “Ele utilizou seu poder e o enterrou. Podes estar segura de que o próximo enterro depois deste será o seu, pois pecou contra o Pai, que nos disse que não mostremos parcialidade nem honremos injustamente aos ricos. Para benefício próprio, este homem honrou uma pessoa indigna e a colocou entre os dignos, coisa que não devia fazer. Pecou contra mim também, o Filho, porque Eu disse: “Aquele que me rejeita será rejeitado. Este homem honrou e exaltou alguém que minha Igreja e meu vigário haviam rejeitado”. O abade se arrependeu quando ouviu essas palavras e morreu ao quarto dia.



    Palavras de Cristo à sua esposa sobre a maneira e respeito com que deve conduzir a oração, e sobre três classes de pessoas que servem a Deus no mundo.

    Livro 1 - Capítulo 14

    Sou teu Deus, o que foi pregado na cruz, verdadeiro Deus e homem em uma pessoa, e que está presente todos os dias nas mãos do sacerdote. Quando me ofereces uma oração, termine-a sempre com o desejo de que se faça minha vontade e não a tua. Quando rezas por alguém que já está condenado não te escuto. Algumas vezes não te ouço se desejas algo que possa ir contra tua salvação. É por isso, necessário que submetas tua vontade à minha, porque como Eu sei todas as coisas, não te permito nada mais do que te seja benéfico. Há muitos que não rezam com a intenção correta e é por isso que não merecem ser atendidos. Há três tipos de pessoas que me servem neste mundo.

    Os primeiros são os que creem que sou Deus e o provedor de todas as coisas, que tem poder sobre tudo. Estes me servem com a intenção de conseguir bens e honras temporais, mas as coisas do Céu não lhes importam e estão até dispostos a perdê-las para obter bens presentes. O êxito mundano se ajusta completamente à sua medida, segundo seus desejos. Já que perderam os bens eternos, Eu lhes compenso com consolos temporais por qualquer bom serviço que me façam, pagando-lhes até o ultimo centavo e até o ultimo ponto.

    Os segundos são os que creem que sou Deus onipotente e Juiz severo, mas que me servem por medo do castigo e não por amor à gloria celestial. Se não me temessem não me serviriam.

    Os terceiros são os que creem que sou o Criador de todas as coisas e Deus verdadeiro e que creem que sou justo e misericordioso. Estes não me servem por medo do castigo, mas por amor divino e caridade. Prefeririam suportar qualquer castigo, por duro que fosse, a não me ofender. Estes merecem verdadeiramente ser escutados quando rezam, pois sua vontade coincide com minha vontade. O primeiro tipo de servos nunca sairá do castigo nem chegará a ver meu rosto. O segundo não será tão castigado, mas também não chegará a ver meu rosto, a não ser que corrija seu temor mediante a penitencia.



    Palavras de Cristo à esposa revelando-se como um grande Rei; sobre os tesouros que simbolizam o amor de Deus e o amor do mundo, e uma lição sobre como melhorar nesta vida.

    Livro 1 - Capítulo 15

    Sou como um grande Rei majestoso e potente. Quatro coisas correspondem a um rei. Primeiro, tem que ser rico; segundo, generoso; terceiro, sábio; quarto, caritativo. Eu tenho essas quatro qualidades que mencionei. Em primeiro lugar, Sou o mais rico de todos, pois abasteço as necessidades de todos e não tenho menos depois de ter dado. Segundo, sou o mais generoso, pois estou preparado para dar a quem me pede. Terceiro, sou o mais sábio, pois conheço as dividas e necessidades de cada pessoa. Quarto, sou caritativo, pois estou mais disposto a dar do que alguém para pedir. Tenho, digamos, dois tesouros.

    No primeiro tesouro guardo materiais pesados como o chumbo e os compartimentos onde se encontram estão cobertos por afiadíssimos pregos. Mas estas coisas pesadas chegam a parecer tão leves como plumas para a pessoa que começa a alterá-las e revolvê-las e que, depois, aprende a carregá-las. O que antes parecia tão pesado se converte em luz e as coisas que antes se viam afiadas e cortantes se tornam suaves. No segundo tesouro, se vê ouro resplandecente, pedras preciosas, e aromáticas e deliciosas bebidas. Mas o ouro é realmente barro e as bebidas são veneno.

    Há dois caminhos até o interior desses tesouros, apesar de que antes só havia um. No cruzamento, ou seja, na entrada dos dois caminhos, há um homem que, gritando a três homens que tomam o segundo caminho, lhes diz: “Ouçam, ouçam o que tenho para dizer! Se não querem escutar, ao menos ponham vossos olhos para ver que o que digo é certo. Se não querem usar seus ouvidos nem seus olhos, ao menos usem suas mãos para tocar e dar conta de que não falo em falso.” Então, o primeiro deles diz: “Vamos atender e ver se o que diz é verdade”. O segundo homem diz: “Tudo o que diz não é verdade". O terceiro diz: “Sei que tudo o que diz é verdade, mas não me importa”.

    O que são esses tesouros se não o amor por mim e amor pelo mundo? Há duas trilhas até esses tesouros. O rebaixar-se e a completa autonegação conduz ao meu amor, enquanto o desejo carnal conduz ao amor ao mundo. Para algumas pessoas, a carga que suportam por meu amor parece feita de chumbo, porque quando têm que jejuar ou vigiar, ou praticar a restrição, pensam que estão carregando uma carga de chumbo. Se têm que ouvir zombarias e insultos porque gastam tempo em oração e na pratica da religião, é como se sentassem sobre pregos, sempre é uma tortura para eles.

    A pessoa que desejar estar em meu amor, primeiro tem que reverter o chumbo, ou seja, fazer um esforço para fazer o bem desejando-o com um ardor constante. Então, perseverando na tarefa que assumiu, começará a carregar tudo o que antes lhe parecia chumbo, com uma disposição tão alegre que todos os trabalhos ou jejuns e vigílias, ou qualquer outro trabalho, será para ele tão leve como uma pluma.

    Meus amigos descansam em um lugar que, para os malvados e negligentes, parece estar coberto de espinhos e pregos, mas a meus amigos lhes oferece o melhor repouso, suave como as rosas. O caminho direto até este tesouro é desprezar tua própria vontade. Isto acontece quando um homem, pensando em minha paixão e morte, não se preocupa com sua vontade, mas resiste e luta constantemente para melhorar. Apesar de que esse caminho é algo difícil no principio, ainda há muito prazer neste processo, tanto que tudo o que no principio parecia impossível de carregar se torna muito leve, de forma que pode dizer com toda razão a si mesmo: “Leve é o jugo de Deus”.

    O segundo tesouro é o mundo. Aí há ouro, pedras preciosas e bebidas que parecem deliciosas, mas são amargas como o veneno quando se experimenta. O que ocorre a todos que levam o ouro é que, quando seu corpo se debilita e seus membros falham, quando sua medula se desgasta e seu corpo cai por terra devido à morte, então deixam o ouro e as joias e não merecem mais do que o barro. As bebidas do mundo, ou seja, seus prazeres parecem deliciosos, mas quando chegam ao estomago debilitam a cabeça e pesam no coração, arruínam o corpo e a pessoa, e desaparecem como palha. À medida que se aproxima a dor da morte, todas essas delicias se tornam tão amargas como o veneno. A própria vontade conduz a este desejo, quando uma pessoa não se preocupa em resistir aos seus apetites e não medita sobre o que Eu tenho ordenado e sobre o que tenho dito, mas a todo o momento faz o que lhe apetece, seja lícito ou não.

    Três homens caminham por esta trilha. Refiro-me a todos os réprobos, todos os que amam o mundo e a seu próprio desejo. Eu lhes grito desde a encruzilhada dos caminhos, até a entrada dos dois, porque ao ter vindo em carne humana mostrei dois caminhos à humanidade em concreto, um para ser seguido e outro para ser evitado, ou seja, um caminho que leva à vida e outro que conduz à morte. Antes da minha vinda em carne somente havia um caminho.

    Nele, todas as pessoas, bons e maus, iam ao inferno. Eu sou o que clamei e meu clamor foi este: “Povos, escutem minhas palavras, que conduzem ao caminho da vida, ponham seus sentidos em compreender que o que digo é verdade. Se não as escutam ou não podem escutá-las, então ao menos olhem – ou seja, usem a fé e a razão – e vejam que minhas palavras são certas. Da mesma forma que uma coisa visível pode ser percebida pelos olhos do corpo, assim também o invisível se pode perceber e crer mediante os olhos da fé”.

    Há muitas almas simples na Igreja que fazem poucos trabalhos, mas que se salvam graças a sua fé, por crerem que sou o Criador e redentor do universo. Não existe ninguém que não possa compreender ou chegar à crença de que Eu sou Deus, se considera como a terra dá frutos e os Céus produzem chuva; como se tornam verdes as árvores; como subsistem os animais, cada um em sua espécie; como os astros são úteis ao ser humano, e como ocorrem coisas contrárias à vontade do homem.

    Partindo de tudo isso, uma pessoa pode ver que é mortal e que é Deus quem dispõe todas as coisas. Se Deus não existisse tudo estaria em desordem. Por conseguinte, tudo foi criado e disposto por Deus, tudo se ordenou racionalmente para a própria instrução do ser humano. Nem sequer a mínima coisa existe nem subsiste no mundo sem razão. Assim, se uma pessoa não pode entender ou compreender meus poderes devido a sua debilidade, ao menos pode ver e crer por meio da fé.

    Ma se ainda – oh homens! – não queres empregar teu intelecto para considerar meu poder, podes usar tuas mãos para tocar as obras que Eu e meus santos temos realizado. São tão patentes que ninguém pode duvidar de que se trata de obras de Deus. Quem, senão Deus pode ressuscitar os mortos ou devolver a vista a um cego? Quem senão Deus expulsa os demônios? O que ensinou que não sirva para a salvação da alma e do corpo, e seja fácil de levar?

    Entretanto, o primeiro homem ou, melhor, algumas pessoas dizem: “Escutemos e comprovemos se isto é correto!” Estas pessoas estão há algum tempo a meu serviço, mas não por amor, mas como experimentação e imitação de outros, sem renunciar a sua própria vontade, mas tratando de conjugar sua própria vontade junto com a minha. Estes se encontram em uma perigosa posição porque querem servir a dois mestres, ainda que não possam servir bem a nenhum dos dois. Quando forem chamados, serão recompensados pelo mestre que mais amaram.

    O segundo homem, ou seja, algumas pessoas dizem: “O que disse é falso e a Escritura é falsa”. Eu sou Deus, o Criador de todas as coisas, nada foi criado sem mim. Eu estabeleci o novo e o antigo testamento; ambos saíram de minha boca e neles não há falsidade porque Eu sou a verdade. Por isso aqueles que dizem que Eu sou falso e que as Sagradas Escrituras são falsas, nunca verão meu rosto porque sua consciência lhes diz que Eu sou Deus, pois tudo ocorre segundo meu desejo e disposição.

    O Céu lhes dá luz, pois eles não podem iluminar a si mesmos; a terra dá frutos, o ar permite que se fecunde a terra, todos os animais têm certas disposições, os demônios me confessam, os justos sofrem de maneira incrível pelo seu amor a mim. Eles olham tudo isso e ainda não me veem Poderiam ver-me em minha justiça, se considerassem como a terra devora os ímpios e como o fogo consome os malvados. Igualmente, também podiam ver-me em minha misericórdia quando a água fluiu da rocha para os retos ou as águas se abriram para que eles passassem; quando o fogo não os queimou, ou os Céus lhes deram alimento como a terra. Assim, vendo tudo isso, ainda dizem que minto, então, nunca verão meu rosto.

    O terceiro homem, ou seja, certas pessoas, dizem: ”Sabemos muito bem que Ele é Deus em verdade, mas não nos importa”. Essas pessoas serão atormentadas eternamente, porque me desprezam a mim que sou seu Senhor e seu Deus. Não é um grandíssimo desprezo de sua parte usar meus dons e recusar a servir-me? Se ao menos tivessem adquirido tudo isso por sua conta e não inteiramente por mim, seu desdém não seria tão grande. Mas Eu darei minha graça àqueles que comecem voluntariamente a carregar meu fardo e a lutar com um desejo ardente de fazer o que possam.

    Eu trabalharei junto com esses que levam meu fardo, ou seja, os que progridem a cada dia por amor a mim. Serei sua força e os inflamarei tanto que estarão desejosos de fazer mais. Os que perseveram no ponto que parece mortificá-los – mas que em verdade lhes é benéfico – são os que labutam dia e noite sem descanso, fazendo-se inclusive mais ardentes, pensando que o que fazem é pouco. Estes são meus amigos mais queridos e são muito poucos, pois os demais acham mais prazerosas as bebidas do segundo tesouro.



    Como a esposa viu um santo falando com Deus sobre uma mulher que havia sido terrivelmente afligida pelo demônio e que depois se converteu graças às orações da gloriosa Virgem.

    Livro 1 - Capítulo 16

    A esposa viu que um dos santos dizia a Deus: “Porque o demônio está afligindo a alma desta mulher que tu redimiste com teu sangue? O demônio contestou de imediato dizendo: “Porque é minha por direito.” E o Senhor disse: ”Com que direito é tua?”O demônio lhe respondeu: ”Há – disse – dois caminhos. Um que conduz ao Céu e outro ao inferno. Quando ela se viu frente a esses dois caminhos, sua consciência e razão lhe disseram que escolhesse meu caminho. Como tinha livre vontade para escolher o caminho de seu agrado, pensou que seria mais vantajoso dirigir sua vontade para o pecado, e assim, começou a caminhar por minha trilha. Depois, a enganei com três vícios: a gula, a cobiça pelo dinheiro e a luxúria. Agora habito em seu ventre e em sua natureza. Tenho-a presa por cinco mãos. Com uma mão lhe fecho os olhos para que não veja coisas espirituais. Com a segunda, sujeito suas mãos de forma que não possa fazer nenhuma boa obra. Com a terceira lhe sustenho os pés, de maneira que não caminhe para a bondade. "Com a quarta, sujeito seu intelecto para que não se envergonhe de pecar e, com a quinta lhe prendo o coração para que não sinta contrição”. A bendita Virgem Maria disse então a seu Filho: ”Filho meu, faça com que ele diga a verdade sobre o que eu quero lhe perguntar.” O Filho respondeu: ”Tu és minha Mãe, és a Rainha do Céu, és a Mãe da misericórdia, o consolo das almas do purgatório, a alegria dos que peregrinam pelo mundo. És a Soberana dos anjos, a criatura mais excelente diante de Deus. Também és Soberana sobre o demônio. Ordena tu mesma a este demônio, Mãe, e ele te dirá o que quiseres”. A bendita Virgem perguntou então ao demônio: ”Diga-me, Satanás, que intenção tinha aquela mulher antes de entrar na Igreja”? Satanás lhe respondeu: ”Tomou a resolução de não voltar a pecar”.

    E a Virgem Maria lhe disse: ”Embora sua intenção anterior a conduzisse ao inferno, diga-me, em que direção aponta sua atual intenção de afastar-se do pecado?” O demônio lhe respondeu com raiva: ”A intenção de abster-se de pecar a conduz para o Céu”. A Virgem Maria disse: ”Como tu entendeste que era teu direito afastá-la do caminho da Santa Igreja devido a sua intenção anterior, agora é questão de justiça que deve ser conduzida de volta a Igreja, dada sua presente intenção. Agora demônio, vou te fazer outra pergunta: Diga-me, que intenção tem em seu atual estado de consciência?” O demônio lhe respondeu: ”Em sua mente está terrivelmente contrita e arrependida, chora por tudo o que fez. Decidiu nunca mais cometer pecados semelhantes e emendar-se em tudo o que possa”. A Virgem, então, perguntou ao demônio: ”Poderia dizer-me se os três pecados de luxúria, gula e cobiça podem existir em um coração junto às suas três boas resoluções de contrição, arrependimento e propósito de emenda?” O demônio respondeu: ”Não”. E a bendita Virgem disse: ”Me dirás então, quais têm que retroceder e sair de seu coração, as três virtudes ou os três vícios, que, segundo tu, não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo?” O demônio replicou: ”Digo que os pecados”. E a Virgem falou: ”O caminho do inferno está então fechado para ela e o caminho do Céu está aberto”. De novo, a bendita Virgem Maria inquiriu ao demônio: ”Diga-me, se um ladrão arrombar as portas da esposa e quiser violá-la, que teria que fazer o Esposo?” Satanás respondeu: ”Se o Esposo é bom e valente, deve defendê-la arriscando sua vida por ela.” Então, a Virgem disse: “Tu és o ladrão malvado. Esta alma é a esposa de meu Filho, que a redimiu com seu próprio sangue. Tu a corrompeste e a atacaste à força. Portanto, e posto que meu Filho é o Esposo de sua alma e Senhor sobre ti, retira-te de sua presença”.

    EXPLICAÇÃO

    Esta mulher era uma prostituta, que depois de arrepender-se quis voltar ao mundo porque o demônio a molestava dia e noite, tanto que visivelmente pressionava seus olhos e, diante de muitos, a arrastava fora de sua cama. Então, na presença de testemunhas fiéis, a santa dona Brígida disse abertamente: ”Saia, demônio, tens já vexado bastante a esta criatura de Deus”. Depois de dizer isso, a mulher se aquietou por meia hora, com os olhos fixos no solo e, depois se levantou e disse: ”Na verdade eu vi o demônio em uma forma abominável saindo pela janela e ouvi sua voz que me dizia: ”Mulher, verdadeiramente estás livre”. Desde esse momento, esta mulher, venceu toda impaciência, cessaram seus sórdidos pensamentos e veio a descansar em uma boa morte.



    Palavras de Cristo à sua esposa comparando um pecador com três coisas: uma águia, um caçador e um lutador.

    Livro 1 - Capítulo 17

    Eu sou Jesus Cristo, que está falando contigo. Sou o que esteve no ventre da Virgem, verdadeiro Deus e homem. Apesar ter estado na Virgem ainda regia tudo com o Pai. O homem, que é um perverso inimigo meu, se parece com três coisas. Primeiro, é como uma águia que voa pelos ares enquanto outras aves voam por baixo; segundo, é como um caçador que entoa doces melodias com uma flauta recoberta de cola, cujos sons deleitam as aves de modo que voam até a flauta e ficam presas na cola. Terceiro, é como um lutador que ganha todos os combates.

    É como uma águia porque, em seu orgulho, não pode tolerar que haja ninguém acima dele e fere a qualquer que esteja a seu alcance com as unhas de sua malicia. Cortarei as asas de seu poder e de seu orgulho e eliminarei sua maldade da terra. Colocá-lo-ei em uma inextinguível panela fervente, que é o sofrimento do inferno, onde será eternamente atormentado, se não emendar seu caminho. É também como um caçador que atrai todos para si com a doçura de suas palavras e promessas, mas quem se aproxima dele, fica preso na perdição sem poder escapar. Por esta razão, as aves do inferno lhe picarão os olhos para que nunca possam ver minhas glorias, senão somente a escuridão perpetua do inferno. Cortar-lhe-ão as orelhas para que não ouça as palavras de minha boca.

    Em troca de suas doces palavras lhe darão amargos tormentos desde a planta de seus pés até o alto de sua cabeça e sofrerá tantas torturas quantos foram os homens que conduziu à perdição. É também como um lutador briguento, quem gosta de ser o primeiro em maldade, não querendo ceder diante de ninguém, e sempre determinado a derrotar a qualquer um. Como lutador, então, terá o primeiro lugar em cada castigo; seus tormentos se renovarão constantemente e nunca terminarão. Ainda assim, enquanto sua alma esteja unida a seu corpo, minha misericórdia permanece quieta esperando-o.

    EXPLICAÇÃO

    Este foi um poderosíssimo cavaleiro que odiava muito o clero e costumava lançar-lhe insultos. A precedente revelação é sobre ele, igual a que segue: O Filho de Deus disse: “Oh mundano cavaleiro, pergunta a sabedoria que ocorreu ao soberbo Aman que desprezava minha gente! Não foi a sua uma morte ignominiosa e uma grande degradação? Da mesma forma este homem zomba de mim e de meus amigos. Por isto, o mesmo que Israel não chorou pela morte de Aman, aos meus amigos não doerá a morte deste homem. Terá uma morte muito amarga se não emenda seu caminho”. E isso foi o que se passou.



    As palavras de Cristo à sua esposa sobre como deveria haver humildade na casa de Deus, e como essa casa significa pureza de vida e como casas e esmolas devem ser doadas apenas de bem ganhos honestamente, e sobre como restaurar bens adquiridos indevidamente.

    Livro 1 - Capítulo 18

    Na minha casa todos devem ter a humildade que agora é totalmente rejeitada. Deve haver uma forte parede divisória entre os homens e as mulheres, porque mesmo que eu seja capaz de defender todos e mantê-los todos sem uma parede, ainda, por razões de precaução e por causa da astúcia do diabo, eu quero uma parede que deve separar as duas residências. Deve ser forte e não muito elevada, mas moderada. As janelas devem ser muito simples e transparentes, o telhado moderadamente elevado, pelo que nada pode ser visto lá que não pertença à humildade. Porque aqueles que agora constroem casas para mim são como mestres construtores que, quando o senhor ou o mestre da casa entram nelas, agarram-lhe pelos cabelos e pisam-lhe com os pés; eles elevam o que é sujo para o alto e pisam o ouro com os pés. Isto é o que muitos fazem para mim agora.

    Eles constroem sujeira, ou seja, criam para o céu coisas perecíveis e mundanas, mas descuidam das almas que são mais preciosas do que todo ouro. Se eu quero ir até eles através das minhas pregações ou através de bons pensamentos, eles agarram-me pelos cabelos e pisam-me com seus pés, o que significa que eles me insultam e consideram minhas palavras e minhas ações desprezíveis como sujeira. Eles se consideram muito mais sensatos. Mas se eles quiserem construir coisas para mim e para minha honra, deveriam primeiro elevar as almas para o reino dos Céus. Os que querem construir minha casa devem, com a máxima precisão, tomar cuidado em não deixar ser destinado à construção nenhum centavo que não tenha sido honesta e justamente adquirido.

    Há muitas pessoas que sabem que possuem bens conseguidos ilicitamente e não se aborrecem por isso, nem tem intenção de restituir e devolver seus roubos e pilhagens, apesar de que poderiam fazê-lo se quisessem. Entretanto, como sabem que não podem manter estas coisas para sempre, dão uma parte de seus bens mal adquiridos às Igrejas, como se me pudessem aplacar por suas doações. As possessões legítimas reservam aos seus descendentes. E isto não me agrada nada.

    Uma pessoa que deseja agradar-me com suas doações têm que ter antes de tudo, o desejo de emendar seu caminho e depois fazer todo o bem que possa. Deve lamentar-se e chorar pelo mal que tenha feito e repará-lo se puder. Se não puder deve ter a intenção de fazer a restituição de seus bens fraudulentamente adquiridos. Então, tem que cuidar de não voltar a cometer os ditos pecados. Se a pessoa a quem tem que restituir seus bens mal adquiridos já não está viva, então pode fazer a mim a doação que a todos posso devolver o pago. Se não pode restituí-los, sempre se humilhe diante de mim, com propósito de emenda e um coração contrito, tenho os meios de fazer a restituição e agora ou no futuro, restaurar a propriedade de todos os que tiverem sido fraudados.

    Explicar-te-ei o significado da casa que quero construir. A casa é a vida religiosa. Eu sou o Criador de todas as coisas, através de quem tudo se fez e existe; Sou seu fundamento. Há quatro paredes nessa casa. A primeira é a justiça pela qual julgo os que são hostis a esta casa. A segunda parede é a sabedoria, pela qual ilumino seus habitantes com meu conhecimento e compreensão. A terceira é o poder mediante o qual os fortaleço contra as maquinações do demônio. A quarta parede é minha misericórdia, que acolhe qualquer um que a peça. Nesta parede está a porta da graça, através da qual todos os que a procuram são bem vindos. O telhado da casa é a caridade, mediante a qual cubro os pecados daqueles que me amam, de forma que não sejam sentenciados por suas faltas. A claraboia do teto por onde entra o sol é representação da minha graça.

    Através dela se introduz nos habitantes a transparência da minha divindade. Que a parede seja grande e forte significa que nada pode debilitar minhas palavras nem destruí-las. Que deveria ser moderadamente alta significa que minha sabedoria pode ser entendida e compreendida em parte, mas nunca completamente. As janelas simples e transparentes referem que minhas palavras são simples e ainda assim chega ao mundo, através delas, a luz do conhecimento divino. O telhado moderadamente alto significa que minhas palavras não devem manifestar-se de maneira incompreensível e inalcançável, mas em forma compreensível e inteligível.



    Palavras do Criador à esposa sobre o esplendor de seu poder, sabedoria, virtude e sobre como aqueles que agora se dizem sábios são os que mais pecam contra Ele.

    Livro 1 - Capítulo 19

    Eu sou o criador do Céu e da Terra. Tenho três qualidades. Sou o mais poderoso, o mais sábio e o mais virtuoso. Sou tão poderoso que os Anjos me honram no Céu e, no inferno, os demônios não se atrevem a olhar-me. Todos os elementos respondem às minhas ordens e chamadas. Sou tão sábio que ninguém consegue alcançar meu conhecimento. Minha sabedoria é tal que sei tudo o que tem sido e o que ainda será. Sou tão racional que nem sequer a mínima coisa, nem um verme nem nenhum outro animal, por informe que pareça, foi feito sem um motivo. Também sou tão virtuoso que todo o bem emana de mim como de um manancial abundante e toda a doçura vem de mim como de uma boa vinha. Sem mim, ninguém pode ser poderoso, ninguém pode ser sábio, ninguém pode ser virtuoso. Por isso, os homens poderosos do mundo pecam contra mim em excesso. Dei-lhes força e poder para que possam honrar-me, mas atribuem a si mesmos a honra como se a tivessem obtido por si mesmos. Os desgraçados não consideram sua imbecilidade. Se lhes enviasse a menor enfermidade, seriam imediatamente derrubados e tudo para eles perderia seu valor. Como, pois, serão capazes de suportar meu poder e os castigos da eternidade? Mas aqueles que agora se dizem sábios, pecam ainda mais contra mim. Dei-lhes sentido, entendimento e sabedoria para que me amassem, mas a única coisa que entendem é seu próprio proveito temporal. Tem olhos em sua face, mas somente olham para seus próprios prazeres. Estão cegos, até para dar graças a mim que lhes tenho dado tudo, pois ninguém, nem bom nem mau, pode perceber ou compreender nada sem mim, mesmo quando permito aos malvados inclinar sua vontade para fazer o que desejam. Tampouco, ninguém pode ser virtuoso sem mim. Agora, poderia usar um provérbio comum: “Todos desprezam o homem paciente”. Devido a minha paciência, todos creem que sou um pobre tolo e é por isso que me olham com desprezo. Mas pobres deles quando, depois de tanta paciência, lhes for dada sua sentença! Diante de mim serão como lama que desliza para as profundidades e não param até chegar à parte mais baixa do inferno.



    Diálogo de agradecimento entre a Virgem Mãe e o Filho e, entre eles, com a esposa e sobre como a esposa deverá se preparar para o casamento.

    Livro 1 - Capítulo 20

    A Mãe apareceu dizendo ao Filho: “És o Rei da Glória, Filho meu, és o Senhor de todos os senhores, criaste o Céu e a Terra e tudo o que existe neles. Sejam cumpridos todos os teus desejos, faça-se toda tua vontade!” O Filho respondeu: “Há um antigo provérbio que diz: ‘O que se aprende na juventude se preserva até a velhice’. Mãe, desde tua juventude aprendeste a seguir minha vontade e a submeter todos os seus desejos a mim. Disseste corretamente: ‘Faça-se tua vontade! ’ És como ouro precioso que se estende e esmaga sobre a dura bigorna, porque foste golpeada por todo tipo de tribulação e sofreste em minha Paixão mais que todos os demais. Quando, pela intensidade de minha dor na cruz meu coração se partiu, isto feriu teu coração como afiadíssimo espinho. Terias desejado ser cortada em duas se fosse essa minha vontade. Mesmo se tivesses tido a capacidade de opor-se a minha paixão e suplicado que me fosse permitido viver, não terias querido obter isto, de nenhuma maneira, se não fosse de acordo com minha vontade. Por essa razão, fizeste bem ao dizer: ‘Faça-se tua vontade!’”

    Então, Maria disse à esposa: “Esposa de meu Filho, ame-o porque Ele te ama. Honra seus Santos que estão em sua presença, são como estrelas incontáveis, cuja luz e esplendor não se pode comparar com nenhuma luz temporal. Assim como a luz do mundo é diferente da escuridão, igualmente – mas muito mais – ocorre com a luz dos santos, que difere da luz deste mundo.

    Eu te digo, certamente, que se os Santos fossem vistos claramente como são, nenhum olho humano poderia suportar sem ver-se privado de sua vista corporal”. Então, o Filho da Virgem falou com sua esposa dizendo: “Esposa minha, deves ter quatro qualidades. Primeiro, tens que estar preparada para a boda de minha divindade, onde não há desejo carnal senão somente o mais suave prazer espiritual, do tipo que é próprio que Deus tenha com uma alma casta. Desta forma, nem o amor por teus filhos, nem os bens temporais, nem o afeto de teus parentes te deve separar do meu amor. Não permitas que te aconteça como foi com aquelas virgens tolas que não estavam preparadas quando o Senhor quis convidá-las para a boda e ficaram de fora.

    Segundo, deves ter fé em minhas palavras. Como sou a Verdade, nada, senão a verdade sai de meus lábios e ninguém pode encontrar em minhas palavras outra coisa que a verdade. Às vezes, o que digo tem um sentido espiritual e outras vezes se harmoniza com a letra da palavra em cujo caso minhas palavras têm que ser entendidas segundo seu sentido literal. Portanto, ninguém pode acusar-me de mentir. Em terceiro lugar, hás ser obediente para que não haja nenhum só membro de teu corpo pelo qual faças o mal e para que não se submeta a correspondente penitência e reparação. Porém, sou misericordioso, mas não deixo de lado a justiça.

    Por isso, obedece humildemente e com prazer àqueles aos quais estás sujeita a obedecer, de forma que não faças nada que te pareceria útil e razoável, se isto for contra a obediência. É melhor renunciar a tua própria vontade pela obediência, mesmo se seu objetivo for bom, e ajustar-se à obediência de teu diretor sempre e quando não for contra a salvação de tua alma nem seja irracional. Em quarto lugar, deves ser humilde porque estás unida em um matrimônio espiritual. Por isso, deves ser humilde e modesta quando chegar teu marido. Que teu criado seja moderado e contido, ou seja, que teu corpo pratique a abstinência e seja bem disciplinado, porque vais portar a semente de um fruto espiritual para o bem de muitos. Da mesma forma que, ao inserir um broto em um talo seco e o talo começar a florescer, tu deve portar frutos e florescer por minha graça. E minha graça te embriagará e toda a Corte Celestial se regozijará pelo doce vinho que te hei de dar.

    Não desconfies de minha bondade. Eu te asseguro que, assim como Zacarias e Isabel se regozijaram em seus corações com um gozo indescritível pela promessa de um futuro filho, tu também te regozijarás pela graça que te quero dar e, por sua vez, outros se alegrarão através de ti. Foi um Anjo que falou com os dois, Zacarias e Isabel, mas sou Eu, Deus Criador dos Anjos e de ti, quem te fala agora. Pelo meu bem, eles deram a vida ao meu mais querido amigo, João. Através de ti, quero que me nasçam muitos filhos, não de carne, mas do espírito. Em verdade, João foi uma cana cheia de doçura e mel, pois nada impuro jamais entrou em sua boca nem jamais transpassou os limites da necessidade para obter o que necessitava para viver. Nunca saiu sêmen de seu corpo, por esta razão, podemos chamá-lo de anjo e virgem”.



    Palavras do Esposo à sua esposa recorrendo a uma alegoria sobre um feiticeiro para ilustrar e explicar o que é o demônio.

    Livro 1 - Capítulo 21

    O Esposo, Jesus, falou a sua esposa em alegorias, empregando o exemplo de um sapo. Disse: “Certo feiticeiro tinha um ouro finíssimo e reluzente. Um homem simples e de modestas maneiras veio a ele e quis comprar seu ouro. O feiticeiro lhe disse: ‘Não conseguirás este ouro a não ser que me dês um ouro melhor e em maior quantidade’. O homem disse: ‘Desejo tanto teu ouro que te darei o que queres antes que eu fique sem ele’. Depois de dar ao feiticeiro um ouro melhor e em maior quantidade, levou o ouro reluzente que este tinha e o guardou em uma maleta, planejando fazer um anel. Passado algum tempo, o feiticeiro foi ver o homem e lhe disse: ‘O ouro que compraste e guardaste em tua maleta não é ouro como crês, e sim um sapo feio que se alimentou em meus peitos e comeu do meu alimento. E para comprovar a verdade da questão, abre a maleta e verás como o sapo saltará ao meu peito onde se alimentava. Quando o homem tomou a maleta para averiguar, pôde sentir o sapo dentro dela forçando as quatro travas já a ponto de rompê-las. Ao abrir a fechadura da maleta, o sapo viu o feiticeiro e saltou em seu peito. Os criados e amigos do homem viram isso e lhe disseram: ‘Mestre, seu ouro está dentro do sapo e, se o deseja, facilmente pode conseguir o ouro. ‘Como’? – perguntou – ‘Como poderei’? Eles disseram: ‘Se alguém usar um bisturi afiado e aquecido e o inserir no lombo do sapo, o ouro sairá dessa parte do lombo em que há um buraco. Se não puder encontrar o buraco, então, terá que fazer todo o possível para inserir o bisturi firmemente nessa parte e, é assim que conseguirás recuperar o que compraste’.

    Quem é o feiticeiro senão o demônio persuadindo as pessoas e lhes trazendo prazeres e glórias fugazes? Ele assegura que o que é falso é verdade e faz com que o verdadeiro pareça falso. Ele possui esse ouro precioso, ou seja, a alma que, mediante meu divino poder, fiz mais preciosa que todas as estrelas e planetas. Eu a fiz imortal e estável e mais deliciosa para mim do que todo o resto da criação. Preparei para ela um eterno lugar de descanso e morada junto a mim. Arrebatei-a do poder do demônio com um ouro melhor e mais caro ao dar-lhe minha própria carne imune a todo pecado, resistindo a uma Paixão tão amarga que nenhum membro de meu corpo ficou ileso. Pus a alma redimida em uma maleta até o momento em que lhe daria um lugar na corte de minha divina presença. Agora, entretanto, a alma humana redimida se transformou em um sapo torpe e feio brincando em sua soberba e vivendo no lodo de sua luxúria.

    O ouro, ou seja, minha propriedade por direito, me foi arrebatado. Por isso, o demônio ainda pode me dizer: ‘O ouro que compraste não é ouro e sim um sapo alimentado nos peitos dos meus prazeres. Separa o corpo da alma e verás como este voará direto ao peito de meu deleite onde se alimentou’. Minha resposta a ele é esta: ‘Visto que o sapo é horrível para ser olhado, horrível para ser ouvido, venenoso para ser tocado e em nada me agrada, mas a ti sim, em cujos peitos se alimentou, então podes ficar com ele, pois tens direito a ele. Assim, quando se abre a fechadura, ou seja, quando a alma se separa do corpo, essa voará diretamente a ti para ficar contigo eternamente’. Tal é a alma da pessoa que te estou descrevendo. É como um sapo maligno, cheio de imundície e luxúria alimentado nos peitos do demônio.

    Agora, falarei da maleta, ou seja, do corpo dessa alma, da morte que lhe sobrevém. A maleta é fechada por quatro travas que estão a ponto de romper-se, no sentido de que seu corpo se mantém por quatro coisas que são: força, beleza, sabedoria e visão, as quais, agora, estão começando a falhar. Quando a alma se separa do corpo, voará direta ao demônio de cujo leite se alimentou, ou seja, sua luxuria, porque se esqueceu de meu amor pelo qual tomei sobre mim os sofrimentos e penas que ela mereceu. Ela não retribui meu amor com amor, mas, em seu lugar, arrebata a propriedade que me corresponde. Deve mais a mim do que a qualquer outra pessoa, mas encontra maior prazer no demônio. O som de sua oração é, para mim, como a voz de um sapo, seu aspecto me resulta detestável. Seus ouvidos não escutam meu gozo, seu corrompido sentido de tato nunca sentirá minha divindade. Todavia, como sou misericordioso, se alguém quiser tocar sua alma, mesmo que seja impura, e examiná-la para ver se há alguma contrição ou algum bem em sua vontade, se alguém quiser introduzir em sua mente um bisturi afiado e aquecido, ou seja, o temor do meu severo juízo, ainda poderia esta alma obter minha graça sempre e quando ela consentir. Se não houvesse contrição nem caridade nela, ainda poderia haver alguma esperança no caso de que alguém a perfurasse com uma aguda correção e a castigasse fortemente, porque, enquanto a alma vive no corpo, minha misericórdia está aberta a todos.

    Dá-te conta de que Eu morri por amor e ninguém me responde com amor e sim se apoderam do que, por justiça, é meu. Seria justo que a pessoa melhorasse sua vida em proporção ao esforço que custou redimi-la. Entretanto, agora, as pessoas querem viver o pior, em proporção à dor que sofri redimindo-as. Quanto mais lhes mostro a abominação de seu pecado, mais ousadamente se lançam a pecar. Olha, pois, e considera que, não sem motivo, fico irado, porque eles mudaram minha misericórdia em ira. Redimi todos do pecado e eles se enredam cada vez mais no pecado. Por isso, esposa minha, dá-me o que estás obrigada a dar-me, ou seja, mantém tua alma limpa para mim porque eu morri por ela, para que tu pudesses manter-te pura para mim”.



    A amável pergunta da Mãe à Esposa, a humilde resposta da esposa à Mãe, a útil réplica da Mãe à Esposa e sobre o progresso das pessoas boas entre os malvados.

    Livro 1 - Capítulo 22

    A Mãe falou a à esposa de seu Filho dizendo-lhe: “Tu és a esposa de meu Filho. Diga-me, no que estás pensando e o que desejas?” A esposa respondeu: “Senhora minha, tu o sabes, porque sabes tudo”. A Virgem Bendita acrescentou: “Mesmo que eu saiba tudo, gostaria que me dissesses na presença dessas pessoas que te escutam”. A esposa disse: “Senhora minha, temo duas coisas. Primeiro – disse – temo não lamentar-me nem emendar-me por meus pecados tanto quanto desejaria. Segundo, estou triste porque teu Filho tem muitos inimigos”.

    A Virgem Maria respondeu: “Dar-te-ei três remédios para a primeira preocupação. Em primeiro lugar, pensa em como todos os seres que têm alma, como as rãs ou qualquer outro animal, de vez em quando têm problemas, mesmo que suas almas não sejam eternas, e que morrem com seus corpos. Entretanto, teu espírito e toda a alma humana vive para sempre. Segundo, pense na misericórdia de Deus, porque não há ninguém que, por mais pecados que tenha, não seja perdoado se tão somente rezar com contrição e com a intenção de melhorar. Terceiro, pensa quanta glória consegue a alma quando vive com Deus e em Deus eternamente.

    Vou dar-te também três remédios para sua segunda preocupação, sobre os muitos inimigos de Deus. Primeiro, considera que teu Deus e Criador, e o deles, é Juiz sobre eles, e que eles nunca mais irão criticá-lo novamente, mesmo porque tolerou pacientemente sua maldade durante um tempo. Segundo, recorda que eles são os filhos da infâmia, e pensa no duro e insuportável que será para eles arder eternamente. São servos tão péssimos que ficarão sem herança, enquanto os bons filhos a receberão. Mas talvez te perguntes: ‘Ninguém, então, há de pregar para eles?’ Claro que sim! Recorda que muito frequentemente as boas pessoas se misturam com os perversos e que os filhos adotivos, às vezes, se afastam dos bons como o filho pródigo que procurou uma terra distante e levou uma vida de perdição. Mas, às vezes, a pregação reverte sua consciência e eles voltam ao Pai e eu os aceito como antes de pecar. É assim que se deve pregar especialmente para eles porque, ainda que um pregador possa encontrar somente gente perversa ao seu redor, deve pensar em seu interior: ‘Talvez haja alguns entre eles que se tornarão filhos de meu Senhor. Por isso, pregarei para eles. Esse pregador será muito premiado’.

    Em terceiro lugar, considera que aos malvados se lhes permite continuar vivendo como prova para os maus para que eles, exasperados pelos hábitos dos perversos, possam conseguir sua remuneração como fruto de sua paciência. Isto poderás entender melhor por meio de um exemplo. Uma rosa desprende um agradável aroma, é bela de se ver e suave para o tato, mas cresce entre espinhos que espetam se os tocar, são feios de se ver e não desprendem nenhum bom odor. Igualmente, as pessoas boas e retas, mesmo que possam ser agradáveis por sua paciência, belas por seu caráter e suaves por seu bom exemplo, no entanto não podem progredir, nem ser postas à prova a menos que estejam entre os malvados. O espinho é, às vezes, a proteção da rosa, de forma que ninguém a arranque em plena floração. Assim também, os malvados oferecem aos bons a ocasião de não segui-los no pecado quando, devido à maldade dos outros, os justos se controlam ante a ruína a que os poderia levar uma imoderada alegria ou qualquer outro pecado. O vinho não mantém sua qualidade exceto entre excrementos e tampouco as pessoas boas e justas podem manter-se firmes e avançar para a virtude sem ser postas à prova mediante tribulações e sendo perseguidas pelos injustos. Por isso, suporta com alegria os inimigos de meu Filho. Recorda que Ele é o Juiz e, se a justiça exigir que Ele os destrua por completo, acabaria com eles em um instante. Tolera-os, pois, tanto como Ele os tolera!”



    Palavras de Cristo à sua esposa descrevendo um homem que não é sincero, mas sim inimigo de Deus e especialmente sobre sua hipocrisia e suas características.

    Livro 1 - Capítulo 23

    As pessoas o veem como um homem bem vestido, forte e digno, ativo na batalha do Senhor. Entretanto, quando tira a casca, é repugnante de se olhar e inútil para qualquer trabalho. Seu cérebro aparece nu, tem as orelhas na frente e os olhos na parte traseira de sua cabeça. Seu nariz está cortado. Suas bochechas estão fundas como as de um homem morto. Em seu lado direito, sua “maçã do rosto” e a metade de seus lábios caíram por completo, ou seja, não há nada na direita exceto sua garganta descoberta. Seu peito está infestado de vermes; seus braços são como um par de serpentes.

    Um maligno escorpião senta-se em seu coração; suas costas parecem carvão queimado. Seus intestinos fedem podre como carne cheia de pus, seus pés estão mortos e são inúteis para caminhar. Agora te direi o que tudo isso significa. Por fora, é um tipo de homem que parece ornado de bons hábitos e de sabedoria, ativo no meu serviço, mas não é assim realmente. Porque se tiramos a casca de sua cabeça, ou seja, se a gente o visse como é, seria o homem mais feio de todos. Seu cérebro está tão nu, que a vaidade e a frivolidade de suas maneiras são sinais suficientemente evidentes para os homens bons, de que é indigno de tanta honra.

    Se conhecesse minha sabedoria, perceberia que quanto mais se eleva em sua honra sobre os demais, ele deveria, muito mais que os outros, cobrir-se de austeras maneiras. Suas orelhas estão em sua frente porque, em lugar da humildade, que deveria ter por sua alta categoria e que deveria deixar brilhar para outros, ele somente quer receber bajulação e glória. Em seu lugar, ele põe orgulho e é por isso que quer que todos o chamem de grande e bom. Tem olhos na nuca porque todo seu pensamento está no presente e não na eternidade. Ele pensa em como agradar os homens e sobre o que se requer para as necessidades do corpo, mas não em como agradar-me nem no que é bom para as almas. Seu nariz está cortado, tanto que perdeu a discrição mediante a qual poderia distinguir entre pecado e virtude, entre a glória temporal e eterna, entre as riquezas mundanas e eternas, entre os prazeres breves e os eternos. Suas bochechas estão afundadas, ou seja, todo seu sentido de vergonha em minha presença, junto com a beleza das virtudes pelas quais poderia agradar-me, estão mortos por completo ao menos no que me diz respeito. Tem medo de pecar por medo da vergonha humana, mas não por medo de mim. Parte de sua “maçã do rosto” e lábios sumiram, ficando sem nada a não ser a garganta, porque a imitação de meus trabalhos e a pregação de minhas palavras, junto com a oração sentida desde o coração, desapareceram nele, por isso nada ficou, salvo sua garganta glutona. Mas ele encontra, na imitação do depravado e no envolver-se em assuntos mundanos, algo, a uma só vez, saudável e atrativo.

    Seu peito está cheio de vermes porque nele, onde deveria estar a recordação de minha Paixão e a memória de minhas obras e mandamentos, somente há preocupação pelos assuntos temporais e desejos mundanos. Os vermes corroeram sua consciência de forma que já não pensa em coisas espirituais. Em seu coração, onde eu gostaria de morar e onde deveria residir meu amor, reside um maligno escorpião de cauda venenosa e feição insinuante.

    Por isso que de sua boca saem palavras sedutoras e aparentemente sensíveis, mas seu coração está cheio de injustiça e falsidade, porque não lhe importa se a Igreja que representa se destrói enquanto ele pode seguir adiante com sua vontade egoísta. Seus braços são como serpentes porque, em sua perversidade, alcançam os simples e os atraem para si com simplicidade, mas quando se acomodam a seus propósitos, os dispensa como a pobres desgraçados. Como uma serpente, se enrosca sobre si escondendo sua malícia e iniquidade, de tal forma que dificilmente se pode detectar seu artifício. A meus olhos, ele é como uma vil serpente, porque como a serpente é mais odiosa que qualquer outro animal, ele é também para mim o mais infame de todos na medida em que reduz a nada minha justiça e me considera como alguém relutante em infligir castigos.

    Suas costas são como o carvão negro, ainda que devesse ser como o marfim, pois suas obras deveriam ser mais corajosas e puras que as dos outros, para apoiar os fracos com sua paciência e exemplo de vida reta. Entretanto, é como carvão porque, ele também é fraco para pronunciar uma só palavra que me glorifique, a menos que o beneficie. Ainda assim, se crê valente com respeito ao mundo. Em consequência, ainda que ele creia que se mantém reto, cairá na mesma medida de sua deformidade como o carvão privado de vida, diante de mim e dos meus santos. Seus intestinos estão fétidos porque, diante de mim, seus pensamentos e afetos fedem à carne podre, cujo fedor ninguém pode suportar. Nenhum dos santos o pode suportar. Ao contrário, todos afastam seu rosto dele e exigem que se lhe apliquem uma sentença. Seus pés estão mortos porque seus dois pés são suas duas disposições em relação a mim, ou seja, o desejo de emenda por seus pecados e o desejo de fazer o bem. Entretanto, esses pés estão mortos nele porque a essência do amor se consumiu nele e não lhe fica nada mais do que os ossos endurecidos. É nesta condição que está diante de mim. Entretanto, enquanto sua alma permanecer em seu corpo poderá obter minha misericórdia.

    EXPLICAÇÃO

    São Lourenço apareceu dizendo: “Quando estive no mundo, tinha três coisas: continência comigo mesmo, misericórdia com meu próximo e caridade com Deus. Por isso, preguei a palavra de Deus zelosamente, distribuí os bens da Igreja com prudência, e suportei açoites, fogo e morte com alegria. Mas este bispo resiste e camufla a incontinência do clero, gasta livremente os bens da Igreja com os ricos e mostra caridade para consigo e para o que é seu. Portanto, declaro para ele que uma nuvem luminosa subiu ao Céu, sombreada por chamas escuras, de tal forma que muitos não a podem ver. Esta nuvem é a intercessão da Mãe de Deus para a Igreja. As chamas da avareza e da falta de piedade e de justiça a escurecem de tal maneira que a amável misericórdia da Mãe de Deus não pode entrar nos corações dos oprimidos. Por isso, que o arcebispo volte rapidamente à caridade divina corrigindo-se, aconselhando seus subordinados por palavras e por obra, e animando-os a melhorar. Se não o fizer, sentirá a mão do Juiz, e sua Igreja diocesana será purgada a fogo e espada e afligida pela rapina e a tribulação, e passará muito tempo sem que ninguém a possa consolar”.



    Palavras de Deus Pai à Corte Celeste, e a resposta do Filho, e, a Mãe ao Pai, solicitando graças para sua Filha, a Igreja.

    Livro 1 - Capítulo 24

    Falou o Pai enquanto atendia toda a Corte Celeste e disse: “Ante vós exponho minha queixa porque desposei minha Filha com um homem que a atormenta terrivelmente, atou seus pés a uma estaca de madeira e toda a sua essência se esvai”. O Filho lhe respondeu: “Pai, eu a redimi com meu sangue e a aceitei por Esposa, mas agora ela me foi arrebatada à força”. Então, a Mãe falou: “És meu Deus e Senhor. Meu corpo carregou os membros de teu bendito Filho, que é verdadeiro Filho teu e é verdadeiro Filho meu. Não lhe neguei nada na terra. Por minhas súplicas, tenha misericórdia de tua Filha!”Depois disso, falaram os Anjos dizendo: “Tu és nosso Senhor. Em ti possuímos todo o bem e não necessitamos nada mais que tu. Quando tua esposa saiu de ti, todos nos alegramos, mas agora temos razões para estarmos tristes, porque foi jogada nas mãos do pior dos homens, que a ofende com todo o tipo de insultos e abusos. “Por isso, tende piedade dela por tua grande misericórdia, pois se encontra em uma extrema miséria, e não há ninguém que possa consolá-la nem libertá-la exceto tu, Senhor, Deus todo poderoso”. Então, o Pai respondeu ao Filho dizendo: “Filho, tua angústia é a minha, tua palavra é a minha e tuas obras são as minhas. Tu estás em mim e eu estou em ti, inseparavelmente. Faça-se tua vontade!” Depois, disse à Mãe do Filho: “Por não haver-me negado nada na terra, também não te negarei nada no Céu. Teu desejo deve ser satisfeito”. Aos anjos disse: “Sois meus amigos e a chama de vosso amor arde em meu coração. Por vossas orações, terei misericórdia de minha filha”.



    Palavras do Criador à esposa sobre como sua justiça mantém os malvados na existência por uma tríplice razão.

    Livro 1 - Capítulo 25

    Eu sou o Criador do Céu e da Terra. Perguntavas-te, esposa minha, porque sou tão paciente com os malvados. Isso se deve ao fato de que sou misericordioso. Minha justiça os aguenta e minha misericórdia os mantêm por uma tríplice razão. Em primeiro lugar, minha justiça os aguenta de forma que seu tempo se complete até o final. Poderias perguntar a um rei justo porque tem alguns prisioneiros aos quais não condena à morte e sua resposta seria: ‘Porque ainda não chegou o tempo da assembleia geral da corte na qual possam ser ouvidos e onde, aqueles que os ouvem, podem tomar maior consciência’. De forma parecida, eu tolero os malvados até que chegue seu tempo, de maneira que sua maldade possa ser conhecida por outros também. Já não previ a condenação de Saul muito antes que se desse a conhecer aos homens? O tolerei durante longo tempo para que sua maldade pudesse ser mostrada a outros. A segunda razão é que os malvados fazem alguns bons trabalhos pelos quais hão de ser compensados até o último centavo. Desta forma, nem o mínimo bem que tenham feito por mim ficará sem recompensa e, consequentemente, receberão seu salário na terra. Em terceiro lugar, os aguento para que se manifeste assim a glória e a paciência de Deus. É por isso que tolerei Pilatos, Herodes e Judas, apesar de que iam ser condenados. E se alguém perguntar por que tolero a tal ou qual pessoa que se lembrem de Judas e Pilatos.

    Minha misericórdia mantém os malvados também por uma tríplice razão. Primeiro, porque meu amor é enorme e o castigo é eterno e muito grande. Por isso, devido ao meu grande amor, os tolero até o último momento para retardar seu castigo o mais possível na extensa prolongação do tempo. Em segundo lugar, é para permitir que sua natureza seja consumida pelos vícios, pois experimentariam uma morte temporal mais amarga se tivessem uma constituição jovem. A juventude padece uma maior e mais amarga agonia na hora da morte. Em terceiro lugar, pela melhora das boas pessoas e a conversão de alguns dos maus. Quando as pessoas boas e retas são atormentadas pelos perversos, isso beneficia os bons e justos, pois lhes permite resistir ao pecado ou conseguir um maior mérito. Igualmente, os maus, às vezes, tem um efeito positivo nas outras pessoas perversas. Quando esses últimos refletem sobre a queda e maldade dos primeiros, dizem a si mesmos: ‘De que nos serve seguir seus passos?’ E: ‘Se o Senhor é tão paciente, será melhor que nos arrependamos’. Desta forma, às vezes voltam a mim porque temem fazer o que fazem os outros e, além disso, sua consciência lhes diz que não devem fazer esse tipo de coisas. Dizem que, se uma pessoa foi picada por um escorpião, pode-se curá-la quando se a unte com azeite no qual haja outro escorpião morto. De forma parecida, às vezes uma pessoa malvada que vê a outra cair pode ver-se atingida pelo remorso e curada, ao refletir sobre a maldade e vaidade do outro.



    Palavras de louvor a Deus pela Corte Celeste; sobre como teriam nascido as crianças se nossos primeiros pais não tivessem pecado; sobre como Deus mostrou seus milagres através de Moisés e, depois, por si mesmo a nós com sua própria vinda; sobre a perversão do matrimônio corporal nestes tempos e sobre as condições do matrimônio espiritual.

    Livro 1 - Capítulo 26

    A Corte Celeste foi vista diante de Deus, e toda a Corte disse: “Louvado e honrado sejas, Senhor Deus, que és e foste sem fim! Somos teus servidores e te louvamos e honramos por uma tríplice razão. Primeiro, porque nos criaste para nos regozijarmos contigo e nos deste uma luz indescritível na qual nos regozijemos eternamente. Segundo, porque todas as coisas são criadas e mantidas por tua bondade e constância, e todas as coisas permanecem de acordo com tua vontade e se submetem à tua palavra. Terceiro, porque criaste a humanidade e assumiste a natureza humana para o bem dela; esse assumir a natureza humana é a razão da nossa grande alegria, e também por vossa castíssima Mãe que foi digna de vos dar à luz e a quem os Céus não podem conter nem limitar".

    Então, vossa honra e benção estão acima de todas as coisas por causa da dignidade dos anjos que exaltaste grandemente em honra. Que vossa inesgotável eternidade e constância estejam sobre todas as coisas que são e podem ser constantes! Possa vosso amor estar sobre toda a humanidade que criastes! “Oh Senhor Deus, somente Vós sejais temido por vosso grande poder, só Vós sejais desejado por vosso grande amor, só Vós sejais amado por vossa constância! Toda honra e gloria sejam dadas a Vós para sempre. Amém!”

    Então nosso Senhor respondeu: “Vocês me honram merecidamente por toda criação. Mas, digam-me, por que me louvam pela raça humana que me provocou até à ira, mais do que qualquer outra criatura? Eu a fiz superior e mais dignificada do que todas as criaturas abaixo do Céu, e por nenhuma outra sofri tanta indignidade como pelos humanos e nenhuma foi redimida por tão alto custo. Que criatura não se guia por sua ordem natural, a não ser o homem? Ele me aflige com mais desgosto que qualquer outra criatura. Da mesma forma que eu os criei, para que me louvassem e glorificassem, fiz o homem para que me honrasse. Dei a ele um corpo como templo espiritual e eu fiz e coloquei nele a alma como um belo Anjo, para que a alma humana tenha poder e força como um anjo. Neste templo, Eu, Deus e Criador da raça humana, desejei ser como o terceiro (companheiro) para que ele se alegrasse e se deleitasse em mim. Então Eu lhe fiz, de sua costela, um outro templo semelhante a ele”.

    Agora, esposa minha, para quem todas as coisas foram ditas e mostradas, tu podes perguntar como nasceriam filhos deles se não tivessem pecado? Eu respondo-te: ‘Em verdade, pelo amor de Deus e mutua devoção e união da carne dentro da qual ambos seriam internamente inflamados, o sangue do amor teria semeado sua semente no corpo da mulher sem nenhuma luxúria vergonhosa, e assim a mulher ficaria grávida. Uma vez concebida a criança sem pecado e desejo luxurioso, Eu mandaria, de minha divindade, uma alma à criança, e a mulher geraria assim a criança e a daria à luz sem dor. Quando a criança nascesse, ela teria sido perfeita como Adão quando ele foi criado. Mas essa honra foi desprezada pelo homem quando ele obedeceu ao demônio e cobiçou uma maior glória do que eu havia dado a ele. Depois que a desobediência foi realizada, meu Anjo veio a eles e eles se envergonharam de sua nudez, e imediatamente experimentaram a concupiscência e desejo da carne, sofreram fome e sede.

    Então, também me perderam, porque quando eles me tinham, não sentiam nenhuma fome, ou desejo carnal pecaminoso ou vergonha, mas somente Eu era todo seu bem e prazer e perfeito deleite. Mas quando o demônio se alegrou por sua perdição e queda, me movi de compaixão por eles e não os abandonei mas lhes mostrei uma tríplice misericórdia. Assim os vesti quando ficaram nus e lhes dei pão a partir da terra. E por causa da luxuria que o demônio excitou neles após a desobediência, Eu dei e criei almas por suas sementes através da minha divindade.

    E todo o mal com que o demônio os tentou, transformei inteiramente em bem para eles. Desde então, Eu lhes mostrei como viver e me honrar. E Eu lhes dei permissão para terem relações, porque antes da minha permissão e a manifestação da minha vontade eles ficaram chocados de medo e temerosos de unir-se e ter relações. Eu fui também movido de compaixão e os confortei quando Abel foi morto e estiveram de luto por um longo tempo mantendo abstinência. E quando eles entenderam minha vontade , começaram de novo a ter relações e a ter filhos, de cuja família Eu, seu Criador, prometi que nascessem. Quando a maldade dos filhos de Adão cresceu, Eu mostrei minha justiça ao pecador e a misericórdia a meu eleito; desses Eu me agradei tanto que os preservei da destruição e os criei, porque eles mantiveram meus mandamentos e acreditaram nas minhas promessas.

    Quando chegou o tempo da misericórdia, Eu mostrei meus poderosos milagres e obras através de Moisés e salvei meu povo, de acordo com minha promessa. Alimentei-os com o maná e caminhei à frente deles em uma coluna de nuvem e fogo. Eu lhes dei minha Lei e lhes revelei meus segredos e o futuro através de meus profetas. Desde então, Eu, o Criador de todas as coisas, escolhi para mim uma virgem nascida de um pai e uma mãe, e dela, assumi a natureza humana e aceitei nascer dela sem pecado. Do mesmo modo que a primeira criança teria nascido no paraíso através do divino amor e no amor mútuo de seu pai e de sua mãe, e com afeto, sem nenhuma luxúria vergonhosa, minha divindade tomou a natureza humana de uma virgem, sem nenhuma vergonhosa luxuria e sem dano a sua virgindade.

    Eu vim na carne como verdadeiro Deus e homem, e cumpri a Lei e todas as escrituras, tal como antes havia sido profetizado sobre mim, e Eu iniciei a Nova Lei, porque a Antiga Lei era estreita e difícil de cumprir e não foi mais que uma figura das coisas futuras que viriam. Na antiga Lei havia sido permitido a um homem ter várias mulheres, de forma que o povo não fosse deixado sem descendência ou tivessem que se casar com os gentios. Mas na minha Nova Lei, é permitido a um homem ter uma mulher, e é proibido a ele, durante seu tempo de vida ter varias mulheres. Aqueles que se unem com amor e temor divinos, para o bem da procriação e para criar filhos para a honra de Deus, são meu templo espiritual onde eu desejo morar como o terceiro com eles.

    Mas as pessoas nestes tempos se unem em matrimônio por sete razões. Primeiro, pela beleza facial; segundo, pela riqueza; terceiro, pelo prazer grosseiro e gozo indecente que conseguem no desejo sexual impuro; quarto, pelas festas com amigos e glutonaria descontrolada; quinto, por causa da vaidade no vestir,e comer, na brincadeira, entretenimento e jogos e em outras futilidades; sexto, pelo bem procriar filhos mas não criá-los para a honra de Deus ou boas obras, mas para bens materiais e honra; sétimo, se unem pela luxúria e eles são como bestas grosseiras em seus desejos luxuriosos.

    Eles vêm às portas da minha Igreja em comum acordo e, consentimento, mas seus desejos e pensamentos são completamente contra mim. Eles preferem sua própria vontade, que visa agradar o mundo, ao invés da minha vontade. Se todos os seus pensamentos e vontades fossem dirigidos a mim, e eles colocassem sua vontade em minhas mãos e se casassem em meu temor, então eu lhes daria o meu consentimento e seria como o terceiro com eles. Mas, agora meu consentimento, que seria a coisa mais preciosa para eles, não lhes foi dado, porque têm mais luxúria em seu coração do que amor por mim. Desde então, eles sobem ao meu altar onde ouvem que devem ser um só coração e alma, mas meu coração se aparta deles porque não possuem o calor de meu coração e não conhecem o sabor de meu corpo.

    Eles buscam o calor e prazer sexual que perecem e amam a carne que será comida pelos vermes . Assim, estas pessoas se unem em matrimônio sem o laço e união de Deus Pai, sem o amor do Filho e sem o consolo do Espírito Santo. Quando o casal vai para a cama, meu Espírito o abandona imediatamente e o espírito de impureza se aproxima em seu lugar porque eles se unem somente pelo prazer e não conversam entre si. Mas, minha misericórdia ainda estará com eles desde que se convertam a mim. Devido ao meu grande amor, Eu coloco uma alma vivente criada por meu poder na semente deles. Às vezes, permito que os maus pais tenham bons filhos, mas é mais frequente que nasçam maus filhos de maus pais, pois estes filhos imitam as más ações e injustiças de seus pais tanto quanto podem e os imitariam ainda mais se minha paciência permitisse. Um casal assim, nunca verá meu rosto, a menos que se arrependa, porque não há pecado tão pesado ou grave que não possa ser limpo pela penitência e o arrependimento.

    Por essa razão, desejo voltar ao matrimônio espiritual, o tipo que é apropriado para Deus ter com uma alma casta e corpo puro. Existem sete coisas boas nele em oposição aos males mencionados acima. Primeiro, não há desejo pela beleza da forma ou beleza corporal ou olhares voluptuosos mas somente olhares e amor de Deus. Segundo, não há desejo de possuir nada mais do que é necessário para sobreviver, e somente as necessidades com nada em excesso. Terceiro, eles evitam as conversas vãs e frívolas. Quarto, eles não se preocupam com ver amigos ou parentes, porque Eu sou o seu amor e desejo. Quinto, eles desejam manter a humildade interiormente em suas consciências e exteriormente no modo como se vestem. Sexto, eles nunca têm nenhuma vontade de conduzir-se pela luxúria. Sétimo, eles geram filhos e filhas para seu Deus, por meio de seu bom comportamento e bom exemplo e mediante o uso de palavras espirituais.

    Eles preservam sua fé incorrupta quando permanecem fora das portas de minha igreja onde me dão seu consentimento e Eu lhes dou o meu. Eles sobem ao meu altar onde desfrutam do gozo espiritual de meu corpo e sangue, em cujo deleite eles desejam ser um só coração, um só corpo e uma só vontade comigo, e Eu, verdadeiro Deus e homem, todo poderoso no Céu e na terra, serei como o terceiro com eles e preencherei seus corações. Os esposos mundanos começam seu matrimonio em desejos luxuriosos como bestas brutas, e mesmo pior que bestas brutas! Mas esses esposos espirituais começam em amor e temor de Deus e não se preocupam em agradar ninguém a não ser a mim. No casamento mundano o espírito do mal enche e incita ao deleite carnal onde não há nada mais que podridão, mas esses de casamento espiritual são cheios do meu Espírito e inflamados com o fogo do meu amor que nunca lhes faltará.

    Eu sou um Deus em três pessoas, e um em divindade com o Pai e o Santo Espírito. Assim como é impossível para o Pai estar separado do Filho e o Espírito Santo estar separado de ambos, e assim como é impossível o calor estar separado do fogo, também é impossível para esses esposos espirituais estarem separados de mim; Eu sou sempre como o terceiro com eles. Meu corpo foi ferido uma vez e morreu em tormentos, mas ele nunca mais será ferido nem morrerá. Da mesma forma, aqueles que são incorporadas em mim com uma verdadeira fé e vontade perfeita, nunca morrerão longe de mim; pois onde quer que fiquem, ou sentem ou caminhem, estarei sempre com eles como seu terceiro.



    Palavras da Mãe à esposa sobre três coisas em uma dança; sobre como esta dança simboliza o mundo e sobre o sofrimento da Mãe na morte de Cristo.

    Livro 1 - Capítulo 27

    A Mãe de Deus falou à esposa: “Filha minha, quero que saibas que onde há dança há três coisas: alegria vazia, vozes confusas e trabalhos sem sentido. Se alguém entra na dança angustiado e triste, então seu amigo que se encontra em pleno desfrute da dança, mas que vê seu amigo entrando triste e melancólico, deixa imediatamente sua diversão, abandona a dança e se compadece de seu amigo angustiado". Esta dança é o mundo, que sempre se encontra tomado por uma ansiedade vazia que lhes parece gozo, mas é uma alegria vazia. Neste mundo há três coisas: alegria vazia, palavreado frívolo e trabalho sem sentido, porque um homem há de deixar para trás tudo aquilo em que trabalhou. Quem, na plenitude desta dança mundana, vai considerar minhas fadigas e angústias e vai se compadecer comigo – que abandone todo gozo mundano – e vá apartar-se do mundo! Quando meu Filho morreu, eu era uma mulher com o coração transpassado por cinco espadas. A primeira foi sua vergonhosa e afrontosa nudez. A segunda espada foi a acusação contra Ele, pois lhe acusaram de traição, de falsidade e de deslealdade. Ele, quem eu sabia que era justo e honesto e que nunca ofendeu nem quis ofender a ninguém. A terceira espada foi sua coroa de espinhos que perfurou sua sagrada cabeça tão selvagemente que o sangue escorreu até sua boca, sua barba e seus ouvidos. A quarta espada foi sua voz mortiça na cruz, com a qual gritou ao Pai dizendo: ‘Pai, porque me abandonaste?’ Era como se dissesse: ‘Pai, ninguém se apieda de mim, somente tu. A quinta lança que cortou meu coração foi sua amaríssima morte.

    Seu preciosíssimo sangue se derramava por tantas veias quantas espadas transpassavam meu coração. As veias de suas mãos e pés perfurados e a dor de seus nervos feridos chegavam sem misericórdia até seu coração e de seu coração voltavam aos nervos. Seu coração era forte e vigoroso, por ser dotado de uma boa constituição, isto fazia com que sua vida resistisse lutando contra a morte e que sua amargura se prolongasse ainda mais no ápice da sua dor. À medida que sua morte se aproximava e seu coração se rompia diante de tanta e insuportável dor, de repente todo seu corpo se convulsionou e sua cabeça, que estava para trás, pareceu erguer-se de uma alguma maneira. Abriu levemente seus olhos semi-fechados e por vez abriu sua boca de forma que pude ver sua língua ensanguentada. Seus dedos e braços, que tinham estado muito contraídos, se esticaram. Nada mais houve depois disso e, assim, entregou seu Espírito e sua cabeça caiu sobre seu peito. Suas mãos escorregaram um pouco do lugar das feridas e seus pés tiveram que suportar a maior parte do peso. Então, minhas mãos se ressecaram, meus olhos se turvaram em escuridão e meu rosto ficou pálido como a morte. Meus ouvidos não ouviam nada, meus lábios não podiam articular palavra alguma, meus pés não me sustentavam e meu corpo caiu ao solo. Quando me levantei e vi meu Filho com um aspecto pior que um leproso, lhe entreguei toda minha vontade, sabendo que tudo havia ocorrido segundo sua vontade e que nada disso teria sucedido se Ele não tivesse permitido. Dei-lhe graças por tudo e certo júbilo se misturou com minha tristeza porque vi que Ele, que nunca havia pecado, por seu grandessíssimo amor, quis sofrer tudo pelos pecadores. Que estes que estão no mundo contemplem o que passei quando morreu meu Filho e que sempre o tenham em sua memória!”



    Palavras do Senhor à esposa descrevendo como foi julgado um homem ante o tribunal de Deus e sobre a terrível sentença ditada sobre ele por Deus e por todos os Santos.

    Livro 1 - Capítulo 28

    A esposa viu que Deus estava enojado e que disse: “Eu sou sem princípio e fim. Não há mudança em mim nem de anos nem de dias. Todo o tempo do mundo é como uma só hora ou momento para mim. Todos aqueles que me veem, contemplam e entendem tudo o que existe em mim em um instante. Entretanto, esposa minha, ao estares em um corpo material, não podes perceber nem conhecer como um espírito conhece. Por isso, para teu bem, te explicarei o que sucedeu. Eu estava, por assim dizer, sentado no tribunal para julgar, porque todo juízo me foi dado, e certa pessoa veio a ser julgada ante o tribunal. A voz do Pai ressoou e lhe disse: ‘Mais te valeria não ter nascido’. Não era porque Deus se tivesse arrependido de criá-lo, e sim como qualquer um que sentisse preocupação por outra pessoa e se compadecesse dela. A voz do Filho interveio: ‘Eu derramei meu sangue por ti e aceitei uma duríssima penitência, mas tu te afastaste completamente e isso já não tem nada a ver contigo’. A voz do Espírito disse: ‘Eu busquei por todos os rincões do seu coração para ver se poderia encontrar algo de ternura e caridade, mas és tão frio como o gelo e tão duro como uma pedra. Este homem não me diz respeito.’ Estas três vozes não se ouviram como se fossem três deuses, mas foram ditas audíveis para ti, esposa minha, porque de outra forma não terias podido compreender este mistério.”

    As três vozes, do Pai, Filho e Espírito Santo, se transformaram imediatamente em uma só voz que retumbou e disse: “De nenhuma maneira merece o reino dos Céus!” A Mãe da misericórdia permaneceu em silêncio e não moveu sua misericórdia, pois o defendido não era digno dela. Todos os Santos clamaram a uma voz dizendo: “É justiça divina para ele o ser perpetuamente exilado de seu Reino e de seu gozo”. Todos no purgatório disseram: “Não temos uma penitência suficientemente dura para castigar teus pecados. Terás que suportar maiores tormentos e, portanto, tens que ser apartado de nós”. Então, o mesmo defendido exclamou com uma voz horrenda: “Ai, ai da semente que fecundou no ventre de minha mãe e da qual eu me formei!” Por segunda vez exclamou: “Maldita a hora em que minha alma se uniu a meu corpo e maldito aquele que me deu um corpo e uma alma!” Voltou a clamar uma terceira vez: “Maldita a hora em que sai do ventre de minha mãe!” Então chegaram três vozes horríveis do inferno que lhe diziam: “Vem conosco, alma maldita, como o líquido que se derrama até a morte perpétua e vive sem fim!” Por segunda vez, as vozes voltaram a chamá-lo: “Vem, alma maldita, vazia por sua maldade! Nenhum de nós deixará de encher-te com seu próprio mal e dor!” Por terceira vez assim juntaram: “Vem, alma maldita, pesada como uma pedra que se afunda e nunca alcança o fundo onde descansar! Descerás mais baixo que nós e não pararás até que não tenha chegado ao mais profundo do abismo”.

    Então, o Senhor disse: “Como um homem com várias esposas, que vê cair uma e se separa dela, se volta para as outras que permanecem firmes e se alegra com elas, assim Eu separei dele meu rosto e minha misericórdia, e me volto para os que me servem e me obedecem e me alegro com eles. Portanto, agora que sabes de sua queda e desgraça, serve-me com maior sinceridade do que ele, em proporção à maior misericórdia que te dispenso! Aparta-te do mundo e de seus desejos! Por acaso eu aceitei tão amarga Paixão pela glória do mundo; ou porque não podia consumá-la em menos tempo e com mais facilidade? Claro que podia! Contudo, a justiça exigia isso. Como a humanidade pecou em todos e cada um de seus membros, tive que fazer cumprir a justiça em todos e cada um dos meus membros. Por isso, Deus, em sua compaixão pela humanidade e em seu ardente amor para com a Virgem, recebeu dela uma natureza humana através da qual pude suportar todo o castigo ao qual estaria fadada a humanidade. Ao haver tomado Eu sobre mim teu castigo, por amor, permanece firme na verdadeira humildade, como os meus servos, assim, não terás nada de que envergonhar-te nem nada que temer mais que a mim! Guarda tuas palavras de tal forma que, se essa fosse minha vontade, tu não falarias. Não te entristeças pelas coisas temporais que tão somente são passageiras. Eu posso fazer, a quem eu quiser, rico ou pobre. Assim, pois, esposa minha, deposita toda tua esperança em mim!”

    EXPLICAÇÃO

    Esse homem era um cônego de nobre reputação e subdiácono que, havendo obtido uma falsa dispensa, quis casar-se com uma rica donzela. Contudo, foi surpreendido por uma morte repentina e não conseguiu seu objetivo.



    Palavras da Virgem à filha sobre duas senhoras, uma que se chamava “soberba” e a outra “humildade”, simbolizando esta última a mais doce das Virgens e sobre como a Virgem vem reunir-se com aqueles que a amam na hora de sua morte.

    Livro 1 - Capítulo 29

    A Mãe de Deus se dirigiu à esposa de seu Filho dizendo-lhe: “Há duas senhoras. Uma delas não tem um nome especial, mas não merece nome; a outra é a humildade e se chama Maria. O demônio é o mestre da primeira senhora porque tem domínio sobre ela. Um de seus cavaleiros disse a essa dama: ‘Senhora minha, estou disposto a fazer o que puder por você, se puder copular contigo ao menos uma vez. Sou poderoso, forte e tenho um coração valente, não temo nada e estou até disposto a morrer por ti.’ Ela lhe respondeu: ‘Servo meu, seu amor é grande. Mas, eu estou sentada em um trono muito alto, e eu tenho somente este trono e há três portas entre nós. A primeira porta é tão estreita que tudo que um homem está vestindo sobre seu corpo enroscará e rasgará deixando um buraco. A segunda é tão afiada que corta até as fibras nervosas. A terceira arde com um fogo tal que ninguém escapa de seu ardor sem ficar derretido como o cobre. Ademais, estou sentada tão alto que qualquer um que queira sentar-se comigo – ao ter eu somente um trono – cairia nas grandes profundidades do caos debaixo de mim’. O demônio lhe respondeu: ‘Darei minha vida por ti, pois uma queda não representa nada para mim’.

    Esta senhora é a soberba e qualquer um que quiser chegar a ela passará, por três portas. Pela primeira porta entram aqueles, que dão tudo o que têm para receber honras humanas por sua soberba, e se não têm nada, mudam toda sua vontade em viver com orgulho e colher elogios. Pela segunda porta entra a pessoa que dedica todo seu trabalho e tudo o que faz, todo seu tempo, todos seus pensamentos e toda sua força para satisfazer sua soberba. E ainda assim, se tiver que deixar que firam seu corpo para conseguir honras e riquezas, o faria com gosto. Pela terceira porta entra a pessoa que nunca se cala e nem se aquieta e sim arde como o fogo com o pensamento de como conseguir alguma honra mundana ou posição de soberba. Mas quando obtém o que deseja, não pode permanecer muito tempo no mesmo estado e termina caindo miseravelmente. Apesar de tudo isso, a soberba ainda permanece no mundo.

    Eu sou– disse Maria – a mais humilde, estou sentada em um trono espaçoso, sobre mim não há sol, nem lua, nem estrelas e nem sequer nuvens senão um brilho inconcebível e uma calma maravilhosa da clara beleza da majestade de Deus. Abaixo de mim não há nem terra nem pedra, somente um incomparável descanso na bondade de Deus. Perto de mim não há nem barreiras nem paredes, senão a gloriosa corte dos Anjos e das almas santas. Ainda que, esteja sentada em um trono sublime, ouço meus amigos que vivem na Terra, entregando-me diariamente seus suspiros e suas lágrimas. Vejo suas lutas e sua eficácia, que é maior do que aqueles que lutam por sua senhora, a soberba. Por isso, os visitarei e os reunirei comigo em meu trono, porque este é espaçoso e há lugar para todos. Entretanto, ainda não podem vir e sentar-se comigo porque há ainda dois muros entre eles e eu, mediante os quais os conduzirei confiadamente para que possam chegar até meu trono. O primeiro muro é o mundo e é estreito. Assim, meus servos no mundo receberão consolação de minha parte. O segundo muro é a morte. Por isso, eu, sua mais querida Senhora e Mãe, comparecerei para unir-me com eles na morte de maneira que mesmo na morte possam sentir meu refrigério e consolo. Reuni-los-ei comigo no trono do gozo celestial de maneira que, na alegria sem fim, possam descansar eternamente nos braços do amor perpétuo e da glória eterna”.



    Amorosas palavras do Senhor à esposa sobre como se multiplica o número de falsos cristãos até o ponto de estarem voltando a crucificar Cristo e sobre como Ele ainda estaria disposto a aceitar a morte, uma vez mais, pela salvação dos pecadores, se fosse possível.

    Livro 1 - Capítulo 30

    Eu sou Deus. Criei todas as coisas para o benefício da humanidade, para que tudo lhe servisse e instruísse. Mas, os seres humanos abusam de tudo que fiz para seu beneficio, até sua própria condenação. Deus não lhes importa e o amam menos do que às coisas criadas. Os judeus prepararam três tipos de castigo para mim em minha Paixão: primeiro, a madeira na qual depois de ter sido açoitado e coroado de espinhos, fui pregado; segundo, o ferro com o qual cravaram minhas mãos e meus pés; terceiro, o fel que me deram para beber. Além disso, me lançaram blasfêmias como se Eu fosse um tolo devido à morte que livremente suportei e me chamaram de falso devido a meus ensinamentos. O número de pessoas assim tem se multiplicado agora no mundo; há muito poucos que me consolam. Penduram-me no madeiro por seu desejo de pecar, açoitam-me com sua impaciência, pois ninguém suporta nem uma palavra por mim e coroam-me com os espinhos de sua soberba que faz com que queiram chegar mais alto do que Eu. Cravam minhas mãos e pés com o ferro de seus corações endurecidos, visto que se gloriam em pecar e se endurecem tanto que não me temem. Pelo fel, oferecem-me tribulações e, por haver sofrido minha Paixão com alegria, me chamam de falso e vaidoso.

    Sou suficientemente poderoso para arruiná-los e também o mundo inteiro se quisesse, por causa de seus pecados. Todavia, se os arruinasse, os que ficassem me serviriam por medo e isso não seria correto porque as pessoas devem servir-me por amor. Se viesse pessoalmente e me misturasse com eles, de uma forma visível, seus olhos não suportariam ver-me, nem seus ouvidos escutar-me. Como poderia um ser mortal ver um outro imortal? Ainda assim, voltaria a morrer pela humanidade se fosse possível”.

    Então, apareceu a bendita Virgem Maria e seu Filho lhe perguntou: “Que desejas, minha Mãe, minha eleita?” E ela disse: “Tenha misericórdia de sua criação, meu Filho, por teu amor!” Ele replicou: “Serei misericordioso uma vez mais, por ti”. Então, o Senhor falou à sua esposa, dizendo-lhe: “Eu sou teu Deus, o Senhor dos Anjos. Sou Senhor da vida e da morte. Eu mesmo desejo habitar em teu coração. Eu te amo tanto! Os Céus, a Terra e tudo o que há nela não podem me conter, mas ainda assim desejo habitar em teu coração que não é mais que um pedaço de carne. O que hás de temer ou o que te há de faltar se tiveres dentro de ti Deus todo poderoso em quem se encontra toda a bondade? Deve haver três coisas em um coração para que me sirva de morada: uma cama em que possamos descansar; um assento onde possamos nos sentar e uma lâmpada que nos dê luz. Haja, pois, em teu coração uma cama para um sereno repouso onde possas descansar dos baixos pensamentos e desejos do mundo! Lembra-te sempre do gozo eterno! O assento há de ser tua intenção de permanecer comigo, ainda que, às vezes, tenha que sair. Iria contra a natureza se permanecesse continuamente em pé. A pessoa que está sempre de pé é a que sempre deseja estar no mundo e nunca vem sentar-se comigo. A luz da lâmpada há de ser a fé, mediante a qual crês que Eu posso fazer qualquer coisa, que sou todo poderoso sobre todas as coisas”.



    Sobre como a esposa viu a dulcíssima Virgem Maria adornada com uma coroa e outros adornos de extraordinária beleza e sobre como São João Batista explicou à esposa o significado da coroa e das demais coisas.

    Livro 1 - Capítulo 31

    A esposa viu a Rainha dos Céus, a Mãe de Deus, usando uma preciosa e radiante coroa sobre sua cabeça, com seu cabelo extraordinariamente belo e solto sobre seus ombros, uma túnica dourada com lampejos de um brilho indescritível e um manto azul de um Céu claro e calmo. Estando a esposa tomada de amor ante esta maravilhosa visão e mantendo-se em seu encantamento como sobressaltada de gozo interior, apareceu-lhe o bendito São João Batista e lhe disse: “Preste muita atenção ao que tudo isso significa. A coroa representa que ela é a Rainha, Senhora e Mãe do Reino dos Anjos. Seu cabelo solto indica que é uma virgem pura e imaculada. O manto da cor do céu quer dizer que ela está morta a tudo o que é temporal. A túnica dourada significa que ela esteve ardente e inflamada no amor de Deus, tanto internamente como em seu exterior.

    Seu Filho colocou sete lírios em sua coroa e, entre eles, sete pedras preciosas. O primeiro lírio é sua humildade; o segundo, o temor; o terceiro, a obediência; o quarto, a paciência; o quinto, a firmeza; o sexto, a mansidão, pois ela amavelmente dá a todos o que lhe pedem; o sétimo é sua misericórdia nas necessidades, pois, em qualquer contrariedade em que se encontre um ser humano, se a invocar com todo seu coração, será resgatado. Entre estes lírios resplandecentes, seu Filho colocou sete pedras preciosas. A primeira é sua extraordinária virtude, pois não existe virtude em nenhum outro espírito nem em nenhum outro corpo que ela não possua com maior excelência. A segunda pedra preciosa é sua perfeita pureza, pois a Rainha dos Céus é tão pura que nem uma só mancha de pecado nunca foi encontrada nela desde o princípio quando veio ao mundo pela primeira vez até o dia de sua morte. Todos os demônios juntos não poderiam encontrar nela nem a mínima impureza que coubesse na cabeça de um alfinete. Ela foi verdadeiramente pura, pois o Rei da Glória não poderia ter estado senão na mais pura e limpa, no vaso mais seleto entre os seres humanos. A terceira pedra preciosa foi sua beleza, para que Deus seja constantemente louvado pela beleza de sua Mãe. Sua beleza enche de gozo os Santos Anjos e todas as almas santas. A quarta pedra preciosa da coroa da Virgem Mãe é sua sabedoria, pois ela foi agraciada com toda a divina sabedoria em Deus e, graças a ela, toda sabedoria se completa e se aperfeiçoa. A quinta pedra é o poder, pois ela é tão poderosa diante de Deus que pode esmagar qualquer coisa que foi feita ou criada. A sexta pedra preciosa é sua radiante claridade, pois ela resplandece tão clara que projeta luz sobre os Anjos, cujos olhos brilham mais claros que a luz e os demônios não se atrevem nem a olhar o brilho de sua claridade. A sétima pedra preciosa é a plenitude de todo deleite e doçura espiritual, porque sua plenitude é tal que não há gozo que nela não seja incrementado, nem deleite que não se faça mais pleno e perfeito por ela e pela bendita visão que alguém possa ter dela, pois está cheia e repleta de graças, mais que todos os santos. Ela é o vaso puro onde descansa o pão dos Anjos e é nele que se encontra toda doçura e beleza. Estas são as sete pedras preciosas que seu Filho colocou entre os sete lírios de sua coroa. Por isso, como esposa de seu Filho, dá-lhe honra e louvores com todo teu coração, pois Ela é verdadeiramente digna de toda honra e louvor!”



    Sobre como, atrás do conselho de Deus, a esposa elege a pobreza para si e renuncia às riquezas e desejos carnais; sobre a verdade das coisas reveladas a ela e sobre três pessoas notáveis mostradas por Cristo.

    Livro 1 - Capítulo 32

    Tu serás como alguém que se desprende do mundo e, no tempo certo, colherás. Tens que te desapegar das riquezas e colher virtudes, deixar aquilo que passará e acumular bens eternos, abandonar as coisas visíveis e se apossar do invisível. Ao contrário do prazer do corpo, dar-te-ei a exultação de tua alma; ao contrário das alegrias do mundo, dar-te-ei as do Céu; em vez da honra mundana, a honra dos anjos; em vez da presença da família, a presença de Deus; em vez de possuir bens, dar-te-ei a mim mesmo, doador e Criador de todas as coisas. Responda, por favor, às três perguntas que formularei: Primeiro, diga-me se queres ser rica ou pobre neste mundo”. Ela respondeu: “Senhor, prefiro ser pobre, pois as riquezas me criam ansiedade e me distraem ao servi-lo”. Diga-me, em segundo lugar, se encontraste algo repreensível para tua alma ou falso nas palavras que ouves de minha boca”. E ela disse: “Não Senhor, tudo é razoável”. Terceiro, diz-me se o prazer dos sentidos que tu experimentaste antes te agrada mais que os gozos espirituais que agora tens. E ela respondeu: “Em meu coração envergonho-me de pensar em meus deleites anteriores e agora parecem veneno, mais amargos quanto era meu desejo por eles. Prefiro morrer antes de voltar a eles; não se podem comparar com o deleite espiritual”.

    “Portanto, disse ele, se podes comprovar que todas as coisas que te disse são certas, por que, então, tens medo ou estás preocupada com o fato de eu atrasar tudo o que já disse que se fará? Tome em conta os Profetas, considere os Apóstolos e os Santos Doutores da Igreja! Eles descobriram algo em mim que não foi a verdade? É por isso que, para eles, não importaram nem o mundo nem seus desejos. Ou, por que crês que os profetas predisseram acontecimentos futuros com tanta antecipação se não foi pela vontade de Deus que eles dessem a conhecer as palavras antes dos fatos para que os ignorantes fossem instruídos na fé? Todos os mistérios de minha encarnação foram revelados com antecedência aos Profetas, inclusive a estrela que guiou os Magos. Eles creram nas palavras do Profeta e mereceram ver aquilo que haviam crido e lhes dei certeza no momento em que viram a estrela. Da mesma forma agora, minhas palavras deverão ser anunciadas, depois verão os fatos e se crerá neles com maior evidência.

    Mostrar-te-ei três pessoas. Primeiro, um homem cuja consciência está manchada com um pecado manifesto e, demonstrado por sinais evidentes. Por quê? Não poderia tê-lo destruído pessoalmente? Não poderia tê-lo expulsado para o abismo em um segundo se eu, assim o quisesse? Claro que sim. Mas o suporto ainda para a instrução dos outros e em prova de minhas palavras, mostrando como sou justo e paciente e quão infeliz é esse homem que é governado pelo demônio.

    O poder do demônio sobre ele aumentou por sua intenção de permanecer no pecado e por seu prazer nele, com o resultado de que nem minhas palavras amáveis nem as duras ameaças ou o medo da Gehenna (do inferno) podem recuperá-lo. E, também, em justiça, porque ele teve uma constante intenção de pecar, ainda que não o colocasse em prática, por isso, merece ser enviado ao demônio por toda a eternidade. O mínimo pecado é suficiente para condenar a quem se deleita nele e não se arrepende.

    Mostrar-te-ei agora os outros dois. O demônio atormentou o corpo de um deles, mas não chegou a entrar em sua alma. Escureceu sua consciência mediante suas maquinações, mas não pôde entrar em sua alma nem adquirir poder sobre ele. Tu podes perguntar: ‘Acaso não é a consciência o mesmo que a alma? Não está ele na alma quando está na consciência?’ Por certo que não. O corpo possui dois olhos para ver, mas, mesmo perdendo o poder da vista, o corpo pode manter-se são. Acontece o mesmo com a alma. Ainda que o intelecto e a consciência, às vezes, se perturbem na confusão como meio de penitência, ainda assim, a alma nem sempre fica manchada de maneira que incorra na culpa. Assim, pois, o demônio dominou a consciência de um homem, mas não sua alma.

    Mostrar-te-ei ainda um terceiro homem cujo corpo e alma estão completamente sujeitos ao demônio. A menos que o coaja com meu poder e graça especiais, nunca poderá ser expulso nem sair dele. O demônio sai de algumas pessoas por vontade e disposição próprias, mas de outras sai tão somente pela resistência e sob coação. Entretanto entra em algumas pessoas, devido ao pecado de seus pais ou por algum desígnio oculto de Deus – como, por exemplo, em crianças ou naqueles que carecem de inteligência – em outros entra por sua infidelidade e pelo pecado alheio.

    Desses últimos, o demônio sai voluntariamente quando é expulso por pessoas que conhecem exorcismo ou a arte de expulsar demônios, sempre que o façam sem vã glória ou por algum tipo de benefício temporal, pois o demônio tem poder para entrar naquele que o expulsa ou para voltar de novo para a mesma pessoa da qual tenha sido expulso, se não houver amor de Deus em nenhum deles. Nunca sai do corpo ou da alma daqueles que os possuem completamente, exceto mediante meu poder.

    Como o vinagre que, quando se mistura com o vinho doce, infecta a doçura do vinho e já não pode mais ser separado dele, igualmente o demônio não sai da alma de ninguém a quem possua, exceto mediante meu poder. Quem é este vinho senão a alma humana, que foi mais doce para mim que nenhum outro ser criado, e tão querida por mim que inclusive deixei que minha carne fosse cortada e meu corpo machucado até as costelas por sua salvação? Antes que perdê-la, aceitei morrer por ela.

    Este vinho foi conservado entre resíduos, da mesma forma que coloquei a alma em um corpo, onde foi guardada por minha vontade, como em uma urna selada. Todavia, o pior vinagre se misturou com este vinho doce, me refiro ao demônio, cuja maldade é mais azeda e abominável para mim que o vinagre. Por meu poder, este vinagre será eliminado da pessoa cujo nome te direi, de maneira que Eu possa revelar assim minha misericórdia e sabedoria através dele, mas mostrarei meu juízo e minha justiça através do homem anterior.

    EXPLICAÇÃO

    O primeiro homem foi um nobre e soberbo cantor, que foi a Jerusalém sem a permissão do Papa e foi atacado pelo demônio. (Fala-se também algo deste endemoniado no Livro III, revelação 31 e no Livro IV, revelação 115). O segundo endemoniado foi um monge cisterciense. O demônio o atormentou tanto que podia apenas ser dominado por quatro homens. Sua língua aumentada assemelhava-se a de uma vaca. Os grilhões de suas mãos foram feitos em pedaços de forma invisível. Este homem foi salvo pelas palavras do Espírito Santo através da Senhora Brígida ao cabo de um mês e dois dias. O terceiro endemoniado era um político de Östergötland (Suécia). Quando se lhe recomendou que fizesse penitência, disse a quem o aconselhou: “Não pode o dono de uma casa sentar-se onde quiser? Se o demônio possui meu coração e minha língua como posso fazer penitência?” Maldizendo os Santos de Deus, morreu naquela mesma noite sem os sacramentos ou confissão.



    Advertências do Senhor à esposa em relação com a verdadeira e falsa sabedoria e sobre como os bons anjos assistem aos bons aprendizes, enquanto que os demônios assistem aos maus aprendizes.

    Livro 1 - Capítulo 33

    Alguns dos meus amigos são como estudantes com três características: uma inteligência para discernir, maior do que é natural ao cérebro; segunda, uma sabedoria sem ajuda humana, tanta quanto eu lhes ensino interiormente; terceira, estão sempre cheios de doçura e amor divino com os quais derrotam o demônio. Mas hoje em dia, as pessoas abordam seus estudos de outra maneira. Primeiro, buscam o conhecimento com arrogância para serem considerados bons alunos. Segundo, buscam o conhecimento para manter e obter riquezas. Terceiro, buscam o conhecimento para alcançar honras e privilégios. Por isso, quando comparecem em suas escolas e entram ali, apartar-me-ei deles, pois estudam por orgulho mesmo Eu lhes ensinando a humildade.

    Entram por cobiça, quando Eu não tive nem onde repousar a cabeça. Entram para obter privilégios, invejosos de que outros estejam situados em lugares mais altos do que eles, enquanto que Eu fui sentenciado por Pilatos e enganado por Herodes. É por isso que os abandono, porque não estudam meus ensinamentos. Todavia, como sou bondoso e amável, dou a cada um o que pedem. Se me pedem pão, dou-lhes pão e se me pedem palha dou-lhes palha.

    Meus amigos pedem pão, porque buscam e estudam a divina sabedoria, onde se pode encontrar meu amor. Outros, ao contrário, pedem palha, ou seja, sabedoria mundana. Como a palha, não serve para nada e é o alimento dos animais irracionais, da mesma forma, não há nenhum uso na sabedoria do mundo que sirva de alimento para a alma. Não há nada mais que uma pequena reputação e esforço sem sentido, pois quando um homem morre, todo seu conhecimento se apaga da existência e aquilo que empregaram para se exaltarem já não o podem ver. Eu sou um grande Senhor com muitos servos que, por meio de seu Senhor, distribuem às pessoas o que necessitam.

    Desta forma, os anjos bons e os maus permanecem debaixo de minha autoridade. Os anjos bons ajudam as pessoas que estudam meu conhecimento, ou seja, aqueles que me servem, nutrindo-os de consolações e do proveito de seu trabalho. Os anjos maus assistem os sábios do mundo. Inspiram-lhes o que eles querem e os formam segundo seus desejos, inspirando-lhes especulações junto com grande quantidade de trabalho. Ainda assim, se voltam seus olhos para mim, poderia dar-lhes o pão que não tiveram por seu esforço e bastante do mundo como para saciá-los do que nunca se podem saciar, pois eles mesmos convertem o doce em amargo.

    Mas você, esposa minha, deve ser como um queijo e seu corpo como o molde, no qual o queijo se molda até que fica na forma do molde. Desta forma, sua alma, que é para mim tão deliciosa e saborosa como o queijo, deve ser provada e purificada no corpo o tempo suficiente para que o corpo e a alma se ponham de acordo e para que ambos mantenham a mesma forma de continência, de maneira que a carne obedeça ao espírito e o espírito guie a carne até a virtude.



    Instruções de Cristo à esposa sobre a forma de viver. Também sobre como o demônio admite diante de Cristo que a esposa ama a Cristo sobre todas as coisas; sobre a pergunta que o demônio fez a Cristo do porque a ama tanto e sobre a caridade que Cristo tem para com a esposa, e como descobre o diabo.

    Livro 1 - Capítulo 34

    “Sou o Criador do Céu e da terra e nas entranhas da Virgem Maria fui verdadeiro Deus e homem, que morri ressuscitei e subi aos Céus. Tu, minha nova esposa, chegaste a um lugar desconhecido e, por isso, tens de aprender quatro coisas: Primeira, o idioma do lugar; segunda, como te vestir adequadamente; terceira como organizar teus dias e teu tempo segundo os hábitos do lugar; quarta; acostumar-te a uma nova alimentação. Como vieste da instabilidade do mundo para a estabilidade, deves aprender um novo idioma, ou seja, como abster-te de palavras inúteis e ainda das mais legítimas, devido à importância do silêncio e da quietude.

    Deves vestir-te de humildade interior e exterior, de forma que, nem te exaltes interiormente por crer-te mais santa do que outros, nem exteriormente te sintas envergonhada de atuar publicamente com humildade. Terceiro, teu tempo deve ser regulado de maneira que, da mesma forma que frequentemente costumavas dedicar tempo às necessidades do corpo, agora tenhas tempo para a alma e nunca queiras pecar contra mim. Quarto, sua nova alimentação é a prudente abstinência da gula e dos manjares tanto quanto possa suportar tua constituição natural. Os atos de abstinência que excedem a capacidade da natureza não me agradam, pois Eu exijo racionalidade e submissão dos desejos.”

    Neste momento apareceu o demônio. O Senhor lhe disse: “Tu foste criado por mim e viste em mim toda justiça. Diga-me se esta nova esposa é legitimamente minha por direito demonstrado! Eu te permito que vejas e entendas seu coração para que saiba como me contestar! Ama ela algo mais que a mim ou me trocaria por algo?” O demônio lhe respondeu: “Ela não ama nada como a ti. Antes que perder-te, se submeteria a qualquer tormento, sempre que tu lhe deres a virtude da paciência. Vejo, como um veículo de fogo, descendo de ti até ela, que amarra tanto seu coração a ti que ela não pensa nem ama nada mais que a ti”.

    Então, o Senhor disse ao demônio: “Dize-me o que sente teu coração e se gostas do grande amor que sinto por ela”. O demônio respondeu: “Tenho dois olhos, um corporal – mesmo que não sou corpóreo – por meio do qual percebo as coisas temporais tão claramente que não há nada escondido nem tão escuro que se possa esconder de mim. O segundo olho é espiritual, e com ele vejo toda dor, mesmo que seja muito leve, e posso entender a que pecado pertence. Não há pecado, por mais tênue e leve que seja, que eu não possa ver, a menos que tenha sido purgado pela penitência. Apesar de que não há órgãos mais sensíveis que os olhos, deixaria que duas tochas ardentes penetrassem meus olhos em troca de que ela não visse com os olhos do espírito. Também tenho dois ouvidos. Um deles é corporal, e ninguém fala tão privadamente que eu não o possa ouvir e saber graças a este ouvido. O segundo é o ouvido espiritual, e nem os pensamentos nem os desejos de pecar se me podem ocultar, a menos que tenham sido apagados com a penitência. Há certo castigo no inferno que é como uma torrente fervendo que jorra de um terrível fogo. Eu o sofreria dentro e fora dos meus ouvidos, sem cessar, em troca de ela deixar de ouvir com os ouvidos de seu espírito. Também tenho um coração espiritual. Desejaria que o cortassem interminavelmente em pedaços, e que se renovasse continuamente para ser cortado de novo, se assim seu coração esfriasse em seu amor por ti. Mas, agora, como és justo, quero fazer-te uma pergunta para que me a respondas: Diga-me, por que a amas tanto e por que não elegeu alguém de maior santidade, riqueza e beleza para ti?”

    O Senhor respondeu: “Porque isto é o que a justiça demanda. Tu foste criado por mim e viste em mim toda justiça. Agora que ela escuta, diga-me, por que foi justo que tu caísses tão baixo e em que pensavas quando caíste?” O demônio respondeu: “Eu vi três coisas em ti: Vi tua glória e honra sobre todas as coisas e pensei em minha própria glória. Em minha soberba, estava disposto não só a igualar-te, mas ser ainda mais que ti. Segundo, vi que era o mais poderoso de todos e eu quis ser mais poderoso do que ti. Terceiro, vi o que havia de ser no futuro, e como tua glória e honra não tem nem princípio nem fim, invejei-te, e pensei que com gosto seria torturado eternamente com todo o tipo de castigos, se assim, te fizesse morrer. Com tais pensamentos caí e, assim, se criou o inferno”.

    O Senhor acrescentou: “Perguntaste-me por que amo tanto esta mulher. Asseguro-te, é porque Eu transformo em bondade toda tua maldade. Ao te tornares tão soberbo e não quererdes ter a mim, teu Criador, como a um igual, humilhando-me de todas as maneiras, reúno os pecadores comigo e me faço seu igual compartilhando minha glória com eles. Segundo, por este desejo tão baixo de querer ser mais poderoso que Eu, faço os pecadores mais poderosos que tu e compartilho com eles meu poder. Terceiro, pela inveja que me tens, estou tão cheio de amor que me ofereço a todos. Agora, pois, demônio – continuou o Senhor – teu coração de escuridão saiu da luz. Diz-me, enquanto ela escuta, quanto a amo”. E o demônio disse: “Se fosse possível, estarias disposto a sofrer em todos e cada um de teus membros a mesma dor que sofreste na cruz em vez de perdê-la”. Então o Senhor replicou: “Se sou tão misericordioso que não recuso perdoar a ninguém que me peça humildemente, pede-me tu mesmo misericórdia e Eu a darei”. O demônio lhe respondeu: “Isso não farei de nenhuma maneira! No momento de minha queda foi estabelecido um castigo para cada pecado, para cada pensamento ou palavra indigna. Cada um dos espíritos que caiu terá seu castigo. Mas antes de dobrar meu joelho ante ti, buscaria todos os castigos para mim enquanto minha boca possa abrir e fechar no castigo e o renovaria eternamente para ser castigado de novo”. Então, o Senhor disse à sua esposa: “Veja que endurecido está o príncipe do mundo e que poderoso é contra minhas graças, a minha oculta justiça! Tenha certeza de que poderia destruí-lo em um segundo por meio do meu poder, mas não lhe faço mais dano assim como a um bom anjo do Céu. Quando chegar seu tempo, e já está se aproximando, o julgarei e também a seus seguidores. Por isso, esposa minha, persevera nas boas obras! Ama-me com todo teu coração! Não temas a nada mais que a mim! Pois Eu sou o Senhor que está acima do demônio e de tudo que existe”.



    Palavras da Virgem à esposa, explicando sua dor na paixão de Cristo, e sobre como o mundo foi vendido por Adão e Eva e recuperado mediante Cristo e sua Mãe, a Virgem.

    Livro 1 - Capítulo 35

    Falou Maria: “Considera, filha, a Paixão de meu Filho. Senti como se os membros de seu corpo e seu coração fossem os meus. Da mesma forma como as outras crianças são normalmente geradas no útero de sua mãe, aconteceu em mim. Todavia, Ele foi concebido pelo ardor do amor de Deus, enquanto que outros são concebidos pela concupiscência da carne. Assim, seu primo João disse corretamente: ‘O verbo se fez carne’. Ele veio e esteve em mim por amor. O verbo e o amor o criaram em mim. Ele foi para mim como meu próprio coração e, por isso, quando dei à luz, senti que a metade de meu coração havia nascido e saído de mim. Quando Ele sofria, eu sentia como se sofresse meu próprio coração. Quando algo está metade fora e metade dentro, se a parte de fora está ferida, a parte de dentro sente uma dor parecida. Da mesma maneira, quando meu Filho foi açoitado e ferido, era como se meu próprio coração estivesse sendo açoitado e ferido. Eu era a pessoa mais próxima a Ele em sua Paixão e nunca me separei dele. Estive ao lado de sua cruz e, como quem está mais próximo da dor a sofre mais, assim sua dor foi pior para mim que para os demais. Quando ele me olhou da cruz e eu o olhei, minhas lágrimas brotaram de meus olhos como sangue das veias. Quando Ele me viu assoberbada de dor, se sentiu tão angustiado por minha dor que toda a dor de suas próprias feridas se atenuou ao ver a dor em mim. Por isso, posso dizer que sua dor era minha dor e que seu coração era meu coração. Da mesma forma como Adão e Eva venderam o mundo por um simples fruto, podemos dizer que meu Filho e Eu recuperamos o mundo com um só coração. Assim, Filha minha, pensa em como estava Eu quando morreu meu Filho e, com isso, não será difícil para você renunciar ao mundo”.



    Resposta do Senhor a um Anjo que estava rezando, de que à esposa se dariam padecimentos no corpo e na alma e sobre como às almas mais perfeitas se dão maiores moléstias.

    Livro 1 - Capítulo 36

    O Senhor disse a um Anjo que rezava pela esposa de seu Senhor: “És como um soldado do Senhor que nunca abandona seu posto por causa do tédio e que nunca aparta seus olhos da batalha por medo. És tão firme como uma montanha e ardes como uma chama. És tão limpo que não há mancha em ti. Pedes-me que tenha misericórdia de minha esposa. Mesmo que conheças e vejas tudo em mim, diga-me, enquanto ela escuta, que tipo de misericórdia estás pedindo para ela? Em resumo, a misericórdia é tripla.

    Existe a misericórdia, pela qual o corpo é castigado e a alma preservada, como ocorreu com meu servo Jó, cuja carne foi sujeita a todo tipo de dores, mas cuja alma se salvou. O segundo tipo de misericórdia é aquela mediante a qual o corpo e a alma são preservados como foi o caso do rei que viveu com todo tipo de luxos e não sentiu dores nem em seu corpo nem em sua alma enquanto esteve no mundo. O terceiro tipo de misericórdia é a que faz com que corpo e alma, sejam castigados resultando que ambos experimentam angústias em seu corpo e dor em seu coração, como é o caso de Pedro, Paulo e outros Santos.

    Há três estados para os seres humanos no mundo. O primeiro estado é daqueles que caem em pecado e se levantam de novo. Algumas vezes, permito que estas pessoas experimentem angústias em seu corpo para que se salvem. O segundo estado é o daqueles que vivem sempre com o objetivo de pecar. Todos os seus desejos se dirigem ao mundo. Se fazem algo por mim, muito de vez em quando, o fazem com a esperança de conseguir benefícios temporais de engrandecimento e prosperidade.

    A estas pessoas não se lhes dão muitas dores de corpo nem do coração. Permito que sigam com seu poder e desejos, porque eles receberão aqui sua recompensa até pelo mínimo bem que tenham feito por mim, pois lhes espera um castigo eterno, tanto como eterna é sua vontade de pecar. O terceiro estado é o daqueles que têm mais medo de pecar contra mim e de contrariar minha vontade do que do castigo em si. Antes, prefeririam o insuportável castigo eterno a provocar conscientemente minha ira. A estas pessoas, se lhes dão tribulações no corpo e no coração, como é o caso de Pedro, de Paulo e de outros Santos, de forma que corrijam suas transgressões neste mundo. Também são castigados, durante certo tempo, para merecerem uma glória maior, ou como exemplo para outros. Expliquei esta tríplice misericórdia aplicada a três pessoas deste reino cujos nomes tu conheces.

    Assim, pois, Anjo e servo meu, que tipo de misericórdia pedes para minha esposa?”E ele disse: “Misericórdia de corpo e alma, para que ela possa emendar suas transgressões neste mundo e nenhum de seus pecados se submeta a teu juízo”. O Senhor respondeu: “Faça-se segundo tua vontade!” Então, dirigiu-se à esposa: “És minha e farei contigo o que eu quiser. Não ames a nada mais do que a mim! Purifica-te constantemente do pecado em todo momento, segundo o conselho daqueles a quem te encomendei. Não ocultes nenhum pecado! Não deixes que fique nada sem examinar, não penses que nenhum pecado seja leve ou sem importância! Qualquer coisa que passe por despercebido, Eu te a recordarei e julgarei. Nenhum pecado teu será julgado por mim se for expiado nessa vida mediante tua penitência. Aqueles pecados pelos quais não se tenha feito penitência serão purgados, ou no purgatório ou por meio de algum dos meus juízos secretos, se caso ainda não tiver sido reparado aqui na Terra”.



    Palavras da Mãe à esposa descrevendo a excelência de seu Filho; sobre como Cristo é agora mais duramente crucificado por seus inimigos, os maus cristãos do que pelos judeus e sobre como, em consequência, essas pessoas receberão um castigo mais duro e amargo.

    Livro 1 - Capítulo 37

    A Mãe disse: “Meu Filho teve três qualidades. A primeira foi que ninguém jamais teve um corpo tão perfeito como Ele ao ter duas naturezas perfeitas, uma divina e outra humana. Ele foi tão puro como não se pode encontrar nenhum cisco em um olho cristalino; nenhuma só deformidade podia encontrar-se em seu corpo. A segunda qualidade foi que Ele nunca pecou. Outras crianças, às vezes, carregam os pecados de seus pais, além de seus próprios. Este menino, que nunca pecou, carregou o pecado de todos. A terceira qualidade foi que, enquanto algumas pessoas morrem por Deus e por uma maior recompensa, Ele morreu tanto por seus inimigos quanto por mim e seus amigos.

    Quando seus inimigos o crucificaram, fizeram-lhe quatro coisas. Em primeiro lugar, o coroaram de espinhos. Em segundo, cravaram suas mãos e pés. Terceiro, deram-lhe fel para beber e quarto transpassaram seu lado. Mas minha dor é que seus inimigos, que agora estão no mundo, crucificam meu Filho mais duramente do que fizeram os judeus. Mesmo assim, poderias dizer que Ele não pode sofrer e morrer agora, por isso o crucificam através de seus vícios. Um homem pode lançar insultos e injúrias sobre a imagem de um inimigo seu e, mesmo que a imagem não sentisse o dano, o perpetrador seria acusado e sentenciado por sua maliciosa intenção de injuriar.

    Igualmente, os vícios pelos quais crucificam meu Filho, em um sentido espiritual, são mais abomináveis e mais sérios para Ele que os vícios de quem o crucificou no corpo. Mas você pode perguntar ‘Como o crucificam?’ Bem, primeiro o colocam sobre a cruz que prepararam para Ele, isto é, quando não têm em conta os preceitos de seu Criador e Senhor. Depois o desonram quando Ele os adverte através de seus servos, desprezando as advertências e fazem o que lhes apetece. Crucificam sua mão direita confundindo justiça e injustiça ao dizer: ‘O pecado não é tão grave nem odioso para Deus como se diz, nem Deus castiga ninguém para sempre, mas suas ameaças são para assustar-nos.

    Por que haveria de redimir-nos se quisesse que morrêssemos?’ Eles não consideram que até o mínimo pecado no qual uma pessoa se deleita é suficiente para entregar ele ou ela ao castigo eterno. Posto que Deus não deixa que nem o mínimo pecado fique sem castigo, nem o mínimo bem sem recompensa, eles serão castigados sempre que mantenham a intenção constante de pecar e meu Filho, que vê seus corações, conta isso como um ato. Pois, se meu Filho o permitisse, eles realizariam obras segundo suas intenções.

    Crucificam sua mão esquerda convertendo a virtude em vício. Querem continuar pecando até o fim, dizendo: ‘Se, ao final, uma única vez dissermos: ”Deus tem misericórdia de mim”, a misericórdia de Deus é tão grande, que Ele nos perdoará’. O querer pecar sem emendar-se, querer a recompensa sem lutar por ela, não é virtude, a menos que haja algo de contrição em seu coração, ou ao menos que a pessoa deseje realmente emendar seu caminho, sempre que não o impeça uma enfermidade ou qualquer outra condição.

    Crucificam seus pés comprazendo-se no pecado, sem pensar, uma única vez, no amaríssimo castigo de meu Filho, nem dar-lhe graças de coração, dizendo: ‘Senhor, quão amargamente sofreste! Louvado sejas por tua morte!’ Tais palavras nunca saem de seus lábios. Coroam-no com uma coroa de escárnios ao zombar de seus servos e considerar inútil seu serviço. Dão a ele fel para beber quando se deleitam e se comprazem em pecar. Nunca sentem no coração quão sério e multifacetado é o pecado. Transpassam seu lado quando têm a intenção de perseverar no pecado.

    Digo-te, em verdade, e se o podes dizer a meus amigos, que para meu Filho essas pessoas são mais injustas que aquelas que o sentenciaram, piores inimigos que aqueles que o crucificaram, mais sem vergonha que aqueles que o venderam. A eles os espera maior castigo que aos outros. De fato, Pilatos supôs muito bem que meu Filho não tinha pecado e que não merecia a morte. Entretanto, por medo de perder o poder temporal e pela insistência dos judeus, ainda relutante, teve que sentenciar meu Filho à morte. Que temeriam estas pessoas que o serviram? Ou que honra ou privilégio perderiam se o honrassem?

    Eles receberão, pois, uma sentença mais dura por ser piores que Pilatos na consideração de meu Filho. Pilatos o sentenciou por medo, submetendo-se ao pedido e intenções de outros. Estas pessoas o sentenciam por seu próprio benefício e sem medo algum, desonrando-o pelo pecado do qual poderiam abster-se, se assim o quisessem. Mas eles não se abstêm de pecar nem se envergonham de terem cometido pecados, pois não percebem que não merecem nem a mínima consideração daquele a quem eles não servem. São piores que Judas, pois Judas, depois de ter traído o Senhor, reconheceu que Jesus era mesmo Deus e que havia pecado gravemente contra Ele. Desesperou-se, entretanto, e se precipitou ao inferno pensando que já não merecia viver. Mas estas pessoas reconhecem seu pecado e, ainda assim, perseveram nele, sem arrependimento em seus corações. No entanto, desejam arrebatar a Deus o Reino dos Céus por uma espécie de força e violência, crendo que o possam conseguir, não por seus feitos, mas por sua vã esperança, vã porque não se o dará a ninguém mais, que aos que trabalham e fazem algum sacrifício para o Senhor. São piores que os que o crucificaram. Quando viram as boas obras de meu Filho, como a ressurreição da morte ou a cura de leprosos, pensaram em seu interior: ‘Este opera maravilhas inauditas e inusitadas, superando facilmente a todos com uma só palavra, conhecendo nossos pensamentos, fazendo tudo o que deseja.

    Se continuar assim, teremos que nos submeter a seu poder e ser seus servos’. Por isso, em lugar de submeter-se a Ele, o crucificam com sua inveja. Mas se soubessem que Ele é o Rei da Glória, nunca o teriam crucificado. Por outro lado, essas pessoas veem cada dia suas grandes obras e milagres e se aproveitam de sua bondade. Escutam como têm que servi-lo e se acercam Dele, mas em seu interior pensam: ‘Seria duro e insuportável renunciar a nossos bens temporais para fazer sua vontade e não a nossa’. Por isso, desprezam a vontade Dele, colocam acima seus desejos egoístas e crucificam meu Filho por sua teimosia, acumulando pecado sobre pecado contra suas próprias consciências. São piores que seus carrascos, pois os judeus agiram por inveja e não sabiam que Ele era Deus. Estes, porem, sabem que é Deus e, por maldade, presunção e cobiça, o crucificam, em um sentido espiritual, mais duramente que os que crucificaram fisicamente seu corpo, pois estas pessoas já foram redimidas e aquelas ainda não eram. Assim, pois, esposa, obedece e teme a meu Filho, pois tudo o que Ele tem de misericordioso Ele tem também de justo!”



    Agradável diálogo de Deus Pai com o Filho sobre como o Pai deu ao Filho uma nova esposa; sobre como o Filho a tomou carinhosamente para si e sobre como o Esposo ensina à esposa a paciência e a simplicidade mediante uma parábola.

    Livro 1 - Capítulo 38

    O Pai disse ao Filho: “Acudi com amor a Virgem e recebi Dela teu verdadeiro corpo. Tu, portanto, estás em mim e Eu em ti. Assim como o fogo e o calor nunca estão separados, também é impossível separar tua natureza divina e humana”. O Filho respondeu: “Glória e honra a ti, Pai! Faça-se tua vontade em mim e a minha em ti!” O Pai, por sua vez, acrescentou: “Olha, Filho meu, confio-lhe esta nova esposa como um cordeiro que deve ser guiado e alimentado. Como um pastor, então, deves procurar queijo para comer, leite para beber e lã para vestir. Quanto a você, esposa, tens que obedecer-lhe. Tens três deveres: deves ser paciente, obediente e alegre”.

    Então, o Filho disse ao Pai: “Tua vontade vem com poder, teu poder com humildade, tua humildade com sabedoria, tua sabedoria com misericórdia. Que tua vontade, que é e sempre será sem princípio nem fim, se faça em mim! A ela, abrirei as portas de meu amor em teu poder e na inspiração do Espírito Santo, pois somos, não três, mas um só Deus”. Então, o Filho disse à sua esposa: “Ouviste como o Pai te confiou a mim como um cordeiro. Por isso, deves ser simples e paciente como um cordeiro e produzir alimento e vestido.

    Há três grupos de pessoas no mundo. O primeiro está completamente nu, o segundo sedento e o terceiro faminto. Os primeiros equivalem a fé de minha Igreja, que está nua porque todos se envergonham de falar sobre a fé e meus mandamentos. E se alguém fala, é desprezado e chamado de mentiroso. Minhas palavras, procedentes de minha boca, hão de vestir esta fé como a lã. Assim como a lã cresce no corpo da ovelha mediante o calor, também minhas palavras hão de entrar em teu coração através do calor de minhas naturezas divina e humana. Elas vestirão minha santa fé em um testemunho de verdade e sabedoria e demonstrarão que, o que agora é considerado insignificante, é verdadeiro. Como resultado, as pessoas que até agora têm sido tíbias sobre o vestir sua fé em obras de amor, se converterão quando ouvirem minhas palavras de amor e serão reanimadas para falar com fé e atuar com coragem.

    O segundo grupo equivale a aqueles amigos meus que possuem um sedento desejo de ver minha honra reposta e se entristecem quando sou desonrado. A doçura que sentem com minhas palavras os embriagará com um maior amor por mim e, junto a eles, outros, que agora estão mortos, se reinflamarão no meu amor, quando ouvirem sobre a misericórdia que tenho demonstrado com os pecadores. O terceiro grupo de pessoas são aqueles que, em seu coração, pensam assim: ‘Se ao menos soubéssemos – dizem – a vontade de Deus e de que maneira temos que viver e se ao menos nos ensinasse a forma correta de viver, com muito gosto faríamos o que pudéssemos’. Estas pessoas estão famintas de conhecer meu caminho, mas ninguém as satisfaz, pois ninguém lhes mostra exatamente o que devem fazer. Mesmo se alguém o mostra, ninguém vive de acordo com ele. Portanto, as palavras parecem estar como mortas para elas, pois ninguém vive de acordo com elas. Por isso, Eu lhes mostrarei diretamente o que devem fazer e as encherei com minha doçura.

    As coisas temporais, que parecem as mais desejadas por todos agora, não podem satisfazer a natureza humana a não ser melhor avivar o desejo de buscar mais e mais coisas. Minhas palavras e meu amor, entretanto, satisfazem os homens e os enchem de abundante consolação. Por isso, esposa minha, que és uma das minhas ovelhas, cuida-te de manter a paciência e a obediência. És minha por direito e, por isso, deves seguir minha vontade. Uma pessoa que deseja seguir a vontade de outra faz três coisas: primeiro, tem o mesmo pensamento que a outra, segundo, age de forma similar, terceiro, se mantém longe dos inimigos da outra. Quem são meus inimigos senão o orgulho e cada um dos pecados? Por isso, mantem-te longe deles se desejas seguir minha vontade”.



    Sobre como a fé a esperança e a caridade se acharam perfeitamente em Cristo no momento de sua morte e deficientemente em nós.

    Livro 1 - Capítulo 39

    Eu tive três virtudes em minha morte. Primeiro, fé, quando dobrei meus joelhos e rezei, sabendo que o Pai podia livrar-me de meus sofrimentos. Segundo, esperança, quando perseverei resolutamente dizendo: ‘Não se faça a minha vontade’. Terceiro, caridade, quando disse: ‘Faça-se tua vontade!’ Também padeci agonia física devido ao temor natural de sofrer e um suor de sangue emanou do meu corpo. Por isso, para que meus amigos não temam ser abandonados quando lhes chegar o momento da prova, Eu lhes demonstrei em mim que a débil carne sempre trata de escapar da dor. Poderias perguntar, talvez, como foi que meu corpo segregou um suor de sangue. Bem, da mesma forma em que o sangue de uma pessoa enferma se resseca e se consome em suas veias, meu sangue se consumiu pela angústia natural da morte. Querendo mostrar a maneira em que o Céu se abriria e como as pessoas poderiam entrar nele depois de seu exílio, o Pai amorosamente entregou-me à minha Paixão para que meu corpo fosse glorificado, uma vez que a paixão se tinha consumado. Porque minha natureza humana não podia simplesmente entrar em sua glória sem sofrer, apesar de que Eu fui capaz de fazê-lo mediante o poder de minha natureza divina.

    Por que, então, as pessoas com pouca fé, vãs esperanças e sem amor, mereceriam entrar em minha glória? Se tivessem fé no gozo eterno e no terrível castigo, não desejariam nada mais que a mim. Se elas realmente cressem que Eu vejo todas as coisas e tenho poder sobre todas as coisas e que exijo um juízo para cada uma, o mundo lhes resultaria repugnante e não ousariam pecar na minha presença por temor a mim e não pela opinião humana. Se tivessem uma firme esperança, todo seu pensamento e entendimento se dirigiriam até mim. Se tivessem amor divino, suas mentes pensariam, ao menos, sobre o que fiz por eles, os esforços que fiz ao ensinar, a dor que padeci em minha Paixão, o grande amor que tive ao morrer, tanto que preferi morrer antes que perdê-los.

    Mas sua fé é débil e vacilante, apontando a uma queda fulminante, porque estão dispostos a crer quando estão ausentes dos impulsos da tentação, mas perdem confiança quando se veem de frente com a adversidade. Sua esperança é vã, porque esperam que seu pecado seja perdoado sem um juízo e sem uma correta sentença. Confiam que podem conseguir o Reino dos Céus gratuitamente. Desejam receber minha misericórdia sem a atuação da justiça. Seu amor para comigo é frio, pois nunca se põem a buscar-me ardentemente a menos que se sintam forçados pela tribulação.

    Como vou compadecer-me das pessoas que nem sustentam uma fé reta nem uma firme esperança nem uma fervente caridade por mim? Por isso, quando me implorarem e disserem: ‘Senhor, tem piedade de mim!’, não merecerão ser ouvidas nem entrar na minha glória. Se não querem acompanhar o seu Senhor no sofrimento não o acompanharão na glória. Nenhum soldado pode agradara a seu Senhor e ser bem recebido de novo, depois de um deslize, a menos que primeiro se humilhe para reparar sua ofensa.



    Palavras nas quais o Criador apresenta três perguntas de Graça à sua esposa: a primeiro sobre a servidão do marido e a dominação da mulher; a segunda sobre o trabalho do esposo e o gasto da esposa; a terceira sobre o Senhor desprezado e o servo exaltado.

    Livro 1 - Capítulo 40

    Eu sou teu Criador e Senhor. Responde-me a três perguntas que te vou apresentar. Qual é a situação em uma casa em que a esposa está vestida como uma grande senhora e o esposo como um servo? É correto isso?” Ela respondeu interiormente em sua consciência: “Não, meu Senhor, isso não está bem”. E o Senhor disse: “Eu sou o Senhor de todas as coisas e o Rei dos Anjos. Eu me vesti de servo, ou seja, a minha natureza humana, tão somente visando à utilidade e a necessidade. Não desejei nada do mundo, a não ser um mero alimento e roupa. Tu, entretanto, que és minha esposa, queres igualar-te a uma grande senhora, com riquezas e honras, ser exaltada. Qual é o benefício de tudo isso? Todas as coisas são vaidades e todas as coisas devem ser abandonadas. A humanidade não foi criada para essa frivolidade, senão para possuir o que necessita a natureza.

    O orgulho inventou o supérfluo que agora se mantém e se deseja como o normal. Em segundo lugar, diga-me, é correto que o marido trabalhe desde a manhã até a noite enquanto a mulher gasta em uma hora tudo o que ele conseguiu com seu esforço?” Ela respondeu: “Não, não é correto. Ao contrário, a esposa deve viver e atuar seguindo a vontade de seu esposo”. E o Senhor disse: “Eu trabalhei como o homem que trabalha de manhã até a noite. Trabalhei desde minha juventude até o momento de meu sofrimento, mostrando o caminho para o Céu, pregando e pondo em prática o que pregava.

    A esposa, ou seja, a alma humana que deveria ser como minha mulher, gasta todo meu salário em viver luxuosamente. Como consequência, de nada do que fiz se pode beneficiar, nem encontro nela virtude alguma em que deleitar-me. Terceiro, diga-me, não é errado e detestável para o senhor do lar ser desprezado sendo o servo exaltado”? E ela disse: “Sim, é verdade”. E o Senhor disse: “Eu sou o Senhor de todas as coisas. Meu lar é o mundo. Todos os membros da humanidade deveriam estar a meu serviço. Entretanto, Eu, o Senhor, agora sou desprezado no mundo, enquanto que a humanidade é exaltada. Portanto, tu, a quem Eu elegi, cuide de cumprir minha vontade, porque tudo no mundo não é mais que uma brisa do mar e um falso sonho!”



    Palavras do Criador na presença da Corte Celeste e de sua esposa, nas quais que se queixa dos cinco homens que representam o Papa e seus clérigos, os leigos corruptos, os judeus e os pagãos. Também sobre a ajuda enviada aos seus amigos que representam toda a humanidade e sobre a dura condenação de seus inimigos.

    Livro 1 - Capítulo 41

    Eu sou o Criador de todas as coisas. Nasci do Pai antes que existisse Lúcifer. Existo inseparavelmente no Pai e o Pai em mim e há um Espírito em ambos. Por conseguinte, há um Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – e não três Deuses. Eu sou Aquele que fiz a promessa da herança eterna a Abraão e conduzi meu povo para fora do Egito através de Moisés. Eu sou o que falei através dos Profetas. O Pai me colocou no ventre da Virgem sem se separar de mim, permanecendo comigo inseparavelmente para que a humanidade, que abandonou Deus, possa retornar a Deus através do meu amor.

    Agora, entretanto, em vossa presença, Corte Celeste, apesar de que vedes e sabeis tudo de mim, pelo bem do conhecimento e a instrução desta desposada minha que não pode perceber o espiritual se não por meio do físico, Eu declaro meu pesar ante vós em relação aos cinco homens aqui presentes, por serem eles ofensivos para mim de muitas maneiras.

    Da mesma forma que Eu, em uma ocasião, incluí todo o povo israelita no nome de Israel, na Lei, agora mediante estes cinco homens, me refiro a todos no mundo. O primeiro homem representa o líder da Igreja e seus sacerdotes; o segundo, os leigos corruptos; o terceiro, os judeus, o quarto os pagãos e o quinto, meus amigos. E o que diz respeito a ti, judeu, tenho feito uma exceção com todos os judeus que são cristãos em segredo e que me servem em caridade sincera, conforme a fé e em seus trabalhos perfeitos em segredo. Em relação a você, pagão, tenho feito uma exceção com todos aqueles que com gosto caminhariam pelas sendas de meus mandamentos se tão somente soubessem como e se fossem instruídos, os que tratam de pôr em prática tudo o que podem e do que são capazes. Estes, não serão, de nenhuma maneira, sentenciados convosco.

    Agora declaro meu desgosto para contigo, cabeça de minha Igreja, tu que te sentas em minha cátedra. Concedi este cargo a Pedro e a seus sucessores para que se sentassem com uma tripla dignidade e autoridade: primeiro, para que pudessem ter o poder de ligar e desligar as almas do pecado; segundo, para que pudessem abrir o Céu aos penitentes; terceiro, para que fechassem o Céu aos condenados e àqueles que me desprezam. Mas tu, que deverias estar absolvendo almas e me as oferecendo, és realmente um assassino das minhas almas. Designei Pedro como pastor e servo de minhas ovelhas, mas tu as dispersas e as feres, és pior que Lúcifer.

    Ele tinha inveja de mim e não perseguiu para matar ninguém mais que a mim, de forma que pudesse governar em meu lugar. Mas tu és o pior, porque não só me matas ao apartar-me de ti por teu mau trabalho senão que, também, matas as almas devido ao teu mau exemplo. Eu redimi almas com meu sangue e te as recomendei como a um amigo fiel. Mas tu as devolves ao inimigo do quais eu as resgatei, és mais injusto que Pilatos. Ele tão somente me condenou à morte. Mas tu não somente me condenas como se Eu fosse um pobre homem indigno, como também condenas as almas de meus eleitos e deixas livres os culpados. Mereces menos misericórdia que Judas. Ele tão somente me vendeu, mas tu, não só me vendes como também vendes as almas de meus eleitos com base em teu próprio proveito e vã reputação. Tu és mais abominável que os judeus. Eles tão somente crucificaram meu corpo, mas tu crucificaste e castigaste as almas de meus eleitos para quem tua maldade e transgressão são mais afiadas que uma espada.

    Assim, posto que és como Lúcifer, mais injusto que Pilatos, menos digno de misericórdia que Judas e mais abominável que os judeus, meu aborrecimento contigo está justificado. O Senhor disse ao segundo homem, ou seja, o que representa os leigos: “Eu criei todas as coisas para teu uso. Tu me deste teu consentimento e Eu a ti. Prometeste-me tua fé e me juraste que me servirias. Agora, entretanto, te separaste de mim como alguém que não conhece a Deus. Referes-te às minhas palavras como mentiras e a meus trabalhos como carentes de sentido. Dizes que minha vontade e meus mandamentos são muito duros. Tens violado a fé que me prometeste. Destruíste teu juramento e abandonaste meu Nome.

    Tens te afastado a ti mesmo da companhia de meus Santos e te integraste na companhia dos demônios fazendo-te sócio deles. Tu não crês que ninguém mereça louvor e honra a não ser tu mesmo. Consideras difícil tudo o que tem a ver comigo e o que estás obrigado a fazer por mim, enquanto que as coisas que gostas de fazer são fáceis para ti. É por isso que meu aborrecimento contigo está justificado, porque quebraste a fé que me prometeste no batismo e depois dele. Alem disso, me acusas de mentir sobre o amor que te mostrei por palavra e através de fatos. Disseste que eu era um louco por sofrer”.

    Ao terceiro homem, ou seja, o representante dos judeus, digo-te: “Eu comecei meu amoroso idílio contigo. Eu te elegi como meu povo, libertei-te da escravidão, dei-te minha Lei e conduzi-te até a Terra que havia prometido a teus pais e te enviei profetas que te consolaram. Depois, elegi uma Virgem dentre vós e tomei dela, a natureza humana. Meu desgosto contigo é que ainda recusas crer em mim dizendo: “Cristo não veio, mas, ainda virá”.

    O Senhor disse ao quarto homem, ou seja, aos pagãos: “Eu te criei e o te redimi para que fosses cristão. Fiz para ti todo o bem. Mas tu és como alguém que está fora de seus sentidos, porque não sabes o que fazes. És como um cego, porque não sabes para onde vais. Adoras as criaturas em lugar do Criador, a falsidade em lugar da verdade. Ajoelhas diante das coisas que são inferiores a ti. Esta é a causa do meu desgosto em relação a ti”. Ao quinto homem, disse: “Aproxima-te mais, amigo!” E se dirigiu diretamente à Corte Celestial: “Queridos amigos, este amigo meu representa meus muitos amigos. Ele é como um homem cercado por corruptos e mantido em um duro cativeiro. Quando diz a verdade, atiram pedras em sua boca. Quando faz algo bom, cravam uma lança em seu peito. Ai! Meus amigos e santos! Como posso suportar essas pessoas e quanto tempo suportarei semelhante desprezo?”

    São João Batista respondeu: “És como um espelho imaculado. Vemos e sabemos todas as coisas em ti como em um espelho, sem necessidade de palavras. És a doçura incomparável na qual saboreamos todo o bem. É como a mais afiada das espadas e um Justo Juiz”. O Senhor lhe respondeu: “Amigo meu, o que disse é certo. Meus eleitos veem toda a bondade e justiça em mim. Os espíritos diabólicos ainda o fazem, mesmo que não na luz mas em sua própria consciência. Como um homem na prisão, que aprendeu as letras e ainda as conhece quando as encontra na escuridão e não as vê; os demônios, apesar de não verem minha justiça à luz da caridade, ainda assim, conhecem e veem em sua consciência. Eu sou como uma espada que corta em dois. Eu dou a cada pessoa o que ele ou ela merecem. Então, o Senhor acrescentou, falando ao Bem-Aventurado Pedro: “Tu és o fundador da fé e da minha Igreja. Enquanto o escuta meu exército, declara a sentença desses cinco homens!”

    Pedro respondeu: “Glória e honra a Ti, Senhor, pelo amor que tens demonstrado à Terra! Que toda tua Corte te bendiga, porque tu nos fazes ver e saber em Ti tudo o que é e o que será! Vemos e sabemos tudo em Ti. É verdadeiramente justo que o primeiro homem, o que se senta em tua cátedra e realiza os feitos de Lúcifer, vergonhosamente deva renunciar a esse lugar no qual presumiu sentar-se e compartilhar o castigo de Lúcifer. A sentença do segundo homem é que aquele que abandonou a fé deve descer ao inferno com a cabeça para baixo e os pés para cima, por ter desprezado a Ti, que deveria ser sua cabeça e por ter amado a si mesmo.

    A sentença do terceiro é que não verá teu rosto e será condenado por sua perversidade e avareza, posto que os que não creem não merecem contemplar a tua visão. A sentença do quarto é que deveria ser encerrado e confinado na escuridão como um homem fora de seus sentidos. A sentença do quinto é que deverá receber ajuda”. Quando o Senhor ouviu isto, respondeu: “Prometo por Deus, o Pai, cuja voz ouviu João Batista no Jordão, que farei justiça a esses cinco”.

    Depois, o Senhor continuou e dizendo ao primeiro dos cinco homens: “A espada de minha severidade atravessará teu corpo, entrando desde o alto de sua cabeça e penetrando tão profundo e firmemente que nunca poderá ser retirada. Tua cadeira se afundará como uma pedra pesada e não parará até que alcance a parte mais baixa das profundezas. Teus dedos, ou seja, teus conselheiros arderão em um fogo sulfuroso e inextinguível.

    Teus braços, ou seja, teus vigários, que deveriam ter conseguido o benefício das almas, mas que em seu lugar conseguiram proveitos mundanos e honras, serão sentenciados ao castigo de que fala Davi: ‘Que seus filhos fiquem órfãos e sua mulher viúva, que os estranhos arrebatem sua propriedade’. Que significa ‘sua mulher’ senão a alma que foi separada da glória do Céu e que ficará viúva de Deus? ‘Seus filhos’, ou seja, as virtudes que aparentaram possuir e minha gente simples, aqueles que se submeteram, serão separados deles. Sua classe e propriedade cairão nas mãos de outros e eles herdarão a eterna vergonha em lugar de sua posição privilegiada.

    Suas mitras afundarão no barro do inferno e eles mesmos nunca se levantarão dali. Por isso, a honra e o orgulho que alcançaram sobre outros aqui na terra os afundarão no inferno tão profundamente, mais que os demais e será impossível levantar-se. Suas extremidades, ou seja, todos os sacerdotes aduladores que os assessoram, serão separados deles e ilhados, como uma parede que se derruba, na qual não ficará pedra sobre pedra e o cimento já não irá aderir às pedras. A misericórdia nunca lhes chegará, porque meu amor nunca lhes aquecerá nem lhes recolocará na eterna Mansão Celestial. Em seu lugar, despojados de todo bem, serão eternamente atormentados junto aos seus líderes.

    Ao segundo homem, Eu lhe digo: Dado que tu não queres manter-te na fé que me prometeste nem manifestar amor para comigo, te enviarei um animal que procederá da torrente impetuosa para devorar-te. E, como uma torrente que sempre corre para baixo, o animal te levará às partes mais baixas do inferno. Tão impossível como é para ti viajar corrente acima contra uma torrente impetuosa, igualmente será difícil para ti subir do inferno.

    Ao terceiro homem, eu digo: ‘Já que tu, judeu, não queres crer que Eu já vim, quando eu voltar para o segundo juízo, não me verás em minha glória senão em tua consciência e comprovarás que tudo o que lhe disse era verdade. Então, te será aplicado o castigo como mereces’. Ao quarto homem, digo: ‘Como tu não te ocupaste de crer nem quiseste saber, tua própria escuridão será tua luz e teu coração será iluminado para que compreendas que meus juízos são verdadeiros, mas, entretanto, tu não alcançarás a luz’.

    Ao quinto homem, lhe digo: ‘Farei três coisas por ti. Primeiro, te encherei internamente com meu calor. Segundo, farei com que tua boca seja mais forte e mais firme que qualquer pedra, de modo que as pedras que te sejam arremessadas voltem a quem as atirou. Terceiro, te armarei com minhas armas, de forma que, nenhuma lança te ferirá senão que tudo cederá diante de ti como a cera frente ao fogo.

    Portanto, permaneça forte e resista como um homem! Como um soldado que, na guerra, espera a ajuda de seu Senhor e luta enquanto tiver fluido de vida, assim também tu mantenhas-te firme e luta! O Senhor, teu Deus, aquele a quem ninguém pode resistir, te ajudará. E, como sois poucos em número, vos honrarei e vos converterei em muitos. Vejam, amigos meus, vejam estas coisas e as reconheçam em Mim e, por isso, mantenham-se diante Mim’. As palavras que agora pronunciei se cumprirão. Aqueles homens nunca entrarão em meu Reino enquanto eu for o Rei, a menos que emendem seus caminhos. Porque o Céu não será senão para aqueles que se humilham e fazem penitência”. Então, toda a Corte respondeu: “Glória a Ti, Senhor Deus, que não tens princípio nem fim”!



    Palavras da Virgem Maria aconselhando a esposa como deve amar a seu Filho sobre todas as coisas e sobre como cada virtude e graça está contida na Virgem Gloriosa.

    Livro 1 - Capítulo 42

    A Mãe falou: “Eu tinha três virtudes pelas quais agradei meu Filho. Tinha tanta humildade que nenhuma criatura, Anjo ou ser humano, era mais humilde que Eu. Em segundo lugar, eu tinha obediência pela qual me esforcei em obedecer a meu Filho em todas as coisas. Em terceiro lugar, tinha uma grande caridade. Por esta razão, recebi honras tríplice de meu Filho. Primeiro, se me deu mais honra que aos Anjos e aos Homens, de forma que não há virtude em Deus que não se irradie de mim, apesar de que Ele é a fonte e o Criador de todas as coisas. Mas eu sou a criatura a qual Ele garantiu a Graça principal em comparação com as demais.

    Segundo, em razão da minha obediência, recebi tal poder que, não há pecador, por manchado que esteja, que não receba o perdão se voltar-se a mim com o propósito de emenda e coração contrito. Terceiro, em razão de minha caridade, Deus se aproximou tanto de mim que, qualquer um que veja Deus, vê a mim e, qualquer um que me veja pode ver a natureza divina e humana em mim e eu em Deus como se fosse um espelho. Porque quem vê a Deus vê três pessoas nele, e quem me vê, vê como se fosse três pessoas. Porque Deus me aproximou em alma e corpo de Si Mesmo e me cumulou de toda virtude, de maneira que não há virtude em Deus que não brilhe em mim, apesar de que Deus é o Pai e o doador de todas as virtudes. Como se tratasse de dois corpos conjugados – um recebe o que recebe o outro – assim fez Deus comigo. Não existe doçura que não esteja em mim.

    É como alguém que tem uma noz e compartilha um pedaço com outra pessoa. Minha alma e corpo são mais puros que o sol e mais limpos que um espelho. Por isso, assim como as Três Pessoas se veriam em um espelho se se situassem frente a ele, assim o Pai e o Filho e o Espírito Santo podem ver-se em minha pureza. Uma vez tive meu Filho em meu ventre e junto à sua natureza divina. Agora, Ele há de se ver em mim com suas duas naturezas, Divina e Humana, como em um espelho, porque eu fui glorificada. Por isso, esposa de meu Filho, procure imitar minha humildade e não ames nada mais que meu Filho”.



    Palavras do Filho à esposa sobre como as pessoas se elevam de um pequeno bem ao bem perfeito e se afundam de um pequeno mal ao maior castigo.

    Livro 1 - Capítulo 43

    O Filho disse: “Às vezes, surge um grande benefício a partir de um pequeno bem. A palmeira possui um odor maravilhoso e dentro de seu fruto, a tâmara, há como uma pedra. Se esta semente for plantada em um solo fértil, brotará e florescerá, crescendo até converter-se em uma altíssima árvore. Mas se plantar em solo estéril, secará. O solo que se deleita no pecado é absolutamente estéril, carente de bens. Se semeamos aí a semente das virtudes, elas não poderão nascer. Rico é o solo da mente que conhece seu pecado e se lamenta de tê-lo cometido. Se a ‘pedra’ da tâmara, ou seja, o pensamento de meu severo juízo e poder, se semear aí, surgirão três raízes na mente.

    A primeira raiz é o dar-se conta de que uma pessoa não pode fazer nada sem minha ajuda. Isto lhe fará abrir a boca para pedir-me. A segunda raiz é começar a encomendar-me a algumas almas pequenas pelo bem do meu Nome. A terceira raiz é retirar-se dos próprios assuntos para servir-me. A pessoa, então, começa a praticar a abstinência, o jejum e a negação de si mesma: isso é o tronco da árvore. Depois, vão crescendo os ramos da caridade à medida que um conduz ao bem todos os que podem. Posteriormente, cresce o fruto quando instrui a outros segundo seu conhecimento e, piedosamente, trata de ensinar maneiras de dar-me uma maior glória. Esse tipo de fruto é o mais prazeroso para mim. Desta forma, a partir de um pequeno começo, um se eleva até a perfeição. Enquanto a semente forma a raiz no princípio mediante a piedade, o corpo cresce por meio da abstinência, os ramos se multiplicam por meio da caridade e o fruto cresce através da oração.

    E, de igual maneira, uma pessoa se afunda a partir de um leve mal que a leva à condenação e ao castigo. Sabes qual é a carga mais pesada que impede que as coisas cresçam? Com certeza é a carga de um menino que está a ponto de nascer, mas que não pode sair e morre no ventre da mãe, e a mãe sofre uma hérnia da qual morre, e o pai a leva ao túmulo com a criança dentro e a enterra com a matéria putrefata. Isto é o que faz o demônio com a alma. A alma imoral é como a esposa do demônio que se submete à sua vontade em tudo. Ela concebe o filho pelo demônio ao obter prazer no pecado e regozijar-se nele. Assim como uma mãe concebe e gera o fruto mediante uma pequena semente que é quase insignificante, igualmente, deleitando-se no pecado, a alma dá muito fruto ao demônio.

    Posteriormente, a força e os membros do corpo se vão formando à medida que se junta pecado sobre pecado, e aumenta cada dia. A mãe se incha com o aumento dos pecados, quer dar a luz, mas não pode, porque sua natureza se consumiu pelo pecado e se cansou da vida. Ela teria preferido continuar pecando, mas não pode, e Deus não o permite. Então, o medo se faz presente porque ela não pode realizar seu desejo. A força e a alegria acabam e ela se vê rodeada de preocupações e pesares. Então, seu ventre arrebenta e ela perde a esperança de fazer o bem. Morre enquanto blasfema e renega a justiça divina. E, assim, é conduzida pelo pai, o demônio, até o sepulcro do inferno onde ela permanece enterrada para sempre com a podridão de seu pecado e com o filho de seu depravado deleite. Vês assim, como um pecado pequeno de início, chega a aumentar e crescer até a condenação”.



    Palavras do Criador à esposa sobre como Ele é agora desprezado e ultrajado por pessoas que não prestam atenção ao que fez por amor, ao aconselhar-lhes mediante os profetas e mediante seu próprio sofrimento para sua salvação. Também sobre como ignoram o castigo que Ele dirigiu aos obstinados, corrigindo-lhes severamente.

    Livro 1 - Capítulo 44

    Eu sou o Criador e Senhor de todas as coisas. Eu fiz o mundo e o mundo me evita. Ouço no mundo um ruído parecido ao das abelhas que acumulam mel sobre a terra. Quando a abelha está voando e começa a pousar emite um zumbido. Agora, ouço como uma voz que zumbe no mundo e que diz: ‘Não me importa!’ De fato, a humanidade não presta atenção nem se preocupa com o que fiz por amor, aconselhando-se mediante os profetas, pelo meu próprio ensinamento e mediante meu sofrimento por eles. Não lhes importa o que fiz em minha ira, ao corrigir os malvados e desobedientes. Só veem que são mortais e se sentem inseguros sobre a morte, mas não os preocupa.

    Ouvem e veem a justiça que infligi ao Faraó e a Sodoma devido ao pecado e ao que se aplicou sobre outros reis e princesas, permitindo-a diariamente mediante a espada e outras desgraças, mas parece que estão cegos diante de tudo isso. Assim como as abelhas, voam por onde querem. De fato, às vezes, voam como se disparassem para o alto, quando se exaltam a si mesmos pelo orgulho, mas, em seguida, caem de novo rapidamente quando voltam a sua luxúria e a sua gula.

    Reúnem mel da terra para si mesmos, fatigando-se e acumulando para si, premidas pela necessidade do corpo, mas não para a alma. Buscam o terreno mais que a honra eterna. Convertem o que é passageiro em um auto-castigo, o inútil em tormento eterno. Entretanto, pela intercessão de minha Mãe, enviarei minha voz clara a essas abelhas, exceto a meus amigos que se encontram no mundo somente em corpo, e isso requererá misericórdia. Se me atenderem, se salvarão.



    Resposta da Mãe, dos Anjos, dos Profetas, dos Apóstolos e dos demônios a Deus, na presença da esposa, testemunhando sua grandeza na Criação, Encarnação e Redenção; sobre como as pessoas contradizem hoje todas estas coisas e também acerca de seu severo juízo sobre eles.

    Livro 1 - Capítulo 45

    A Mãe de Deus disse: “Esposa de meu Filho, veste-te e permanece firme porque meu Filho se acerca de ti. Saiba que sua carne foi espremida como a uva em um lagar, pois, como o homem pecou com todos os membros do seu corpo, meu Filho realizou a expiação em todos os membros de seu Corpo. Os cabelos Dele foram arrancados, seus tendões distendidos, suas articulações desencaixadas, seus ossos deslocados, suas mãos e pés completamente perfurados. Sua mente foi agitada, seu coração afligido pela dor, seu estômago absorvido até as costas e tudo isso porque a humanidade havia pecado com cada membro de seu corpo”.

    Então, o Filho, na presença da Corte Celeste disse: “Ainda que todos saibam, falo para esta esposa minha que está aqui. A vós me dirijo, Anjos, dizei-me: Quem é que não teve princípio nem terá fim? E quem é que criou todas as coisas e não foi criado por ninguém? Falem e deem testemunho”. Responderam os Anjos todos a uma voz: “Senhor, esse és Tu e damos testemunho de três coisas: Primeiro, de que és nosso Criador e de tudo o que há no Céu e na Terra. Segundo, de que eras e será sem princípio, teu domínio é sem fim e teu poder eterno. Nada foi feito sem ti e sem ti nada pode existir. Em terceiro lugar, testemunhamos que vemos em ti toda justiça além de tudo o que foi e será. Todas as coisas são presentes para ti, sem princípio nem fim”.

    Depois, disse aos Profetas e Patriarcas: “Quem os conduziu da escravidão à liberdade? Quem dividiu as águas diante de vós? Quem vos deu a Lei? Profetas, quem vos deu a inspiração para falar?” Eles responderam: “Tu, Senhor. Tu nos tiraste da escravidão. Tu nos deste a Lei. Tu inspiraste nosso espírito para falar”.

    Depois, disse à sua Mãe: “Dá verdadeiro testemunho de tudo o que sabes de mim!” Ela respondeu: “Antes que o Anjo que me enviaste viesse a mim, eu estava só em corpo e alma. Quando foram pronunciadas as palavras do Anjo, teu corpo esteve dentro de mim em suas naturezas, divina e humana, e senti teu Corpo em meu corpo. Gerei-Te sem dor. Dei-Te à luz sem angústia. Envolvi-Te em panos e Te alimentei com meu leite. Estive contigo desde o teu nascimento até a tua morte”.

    Então, o Senhor disse aos Apóstolos: “Dizei a quem vistes, ouvistes e percebestes com vossos sentidos!” Eles lhe responderam: “Ouvimos estas palavras e as escrevemos. Ouvimos tuas palavras prodigiosas quando nos deste a Nova Lei, quando, com uma palavra, deste ordem aos demônios e eles saíram, quando, com uma palavra, ressuscitaste os mortos e curaste os enfermos. Vimos-Te em um corpo humano. Vimos teus milagres e a glória divina de tua natureza humana. Nós Te vimos sendo preso por teus inimigos e pregado em uma Cruz.

    Nós Te vimos sofrer da maneira mais amarga e, depois, ser colocado em um sepulcro. Nós te percebemos com nossos sentidos quando ressuscitaste. Tocamos teu cabelo e teu rosto. Tocamos teus membros e tuas partes chagadas. Tu comeste conosco e compartilhaste nossa conversa. Tu és verdadeiramente o Filho de Deus e o Filho da Virgem. Também Te percebemos com nossos sentidos quando subiste, em tua natureza humana, à direita do Pai, onde estás eternamente”.

    Depois, disse Deus aos espíritos imundos: “Ainda que, em vossas consciências ocultais a verdade, ordeno que digais quem foi que diminuiu vosso poder”. Eles lhe responderam: “Como ladrões que não dizem a verdade, a menos que tenham os pés presos em um duríssimo madeiro, nós não diríamos a verdade se não fôssemos forçados por Teu tremendo e divino poder. Tu és quem desceu ao inferno com toda tua força. Tu diminuíste nosso poder no mundo. Levaste do inferno o que te correspondia por próprio direito”. Então o Senhor disse: “Deem conta, todos os que têm um espírito e não estão envolvidos por um corpo, declaro seu testemunho da verdade diante de mim. Mas aqueles que têm um espírito e um corpo, ou seja, os seres humanos me contradizem. Alguns deles conhecem a verdade, mas não se importam. Outros não a conhecem e por isso dizem que não lhes importa e afirmam que tudo é falso”.

    Ele disse novamente aos Anjos: “Os seres humanos dizem que vosso testemunho é falso, que eu não sou o Criador e que nem todas as coisas se conhecem em mim. Portanto, amam mais a criação do que a mim”. Ele disse aos Profetas: “Os homens vos contradizem e dizem que a Lei não tem sentido, que vós ganhastes liberdade graças a vossa própria coragem e capacidade, que o Espírito era falso e que vós faláveis por própria vontade”. À sua Mãe, disse: “Alguns dizem que Tu não és Virgem, outros que Eu não me encarnei em ti, outros conhecem a Verdade, mas não se importam com ela”.

    Aos Apóstolos, lhes disse: “Os contradizem dizendo que sois mentirosos, que a Nova Lei é inútil e irracional. Há outros que creem que é verdadeira, mas não se importam com ela. Agora, pois, Eu pergunto: Quem será seu juiz?” Todos eles responderam: “Tu, Deus, que és sem princípio nem fim. Tu, Jesus Cristo, que és um com o Pai. O Pai Te outorgou todo o poder de julgar, Tu és seu Juiz”. O Senhor respondeu: “Eu fui seu acusador e agora sou seu Juiz. Entretanto, apesar de tudo saber e tudo poder, dá-me vosso veredito sobre eles”.

    Eles, responderam: “Assim como o mundo inteiro pereceu em seus inícios com as águas do dilúvio, igualmente agora o mundo merece ser consumido pelo fogo, pois a iniquidade e a injustiça são agora mais abundantes que outrora”. O Senhor respondeu: “Como sou justo e misericordioso e não faço juízo sem misericórdia e nem misericórdia sem justiça, uma vez mais enviarei minha misericórdia ao mundo pela intercessão de minha Mãe e dos meus Santos. Se os seres humanos não querem escutar, os seguirá uma justiça que será a mais severa”.



    Palavras mútuas de louvor que, na presença de Santa Brígida, se dão Jesus e Maria, e sobre como as pessoas veem agora a Cristo como desleal, desgraçado e indigno dizendo que Ele é assim e também sobre a eterna condenação dessas pessoas.

    Livro 1 - Capítulo 46

    Maria falou a seu Filho dizendo: “Bendito seja Tu, que é sem princípio nem fim! Tu tiveste o corpo mais nobre e belo;Tu foste o mais valente e virtuoso dos homens, o mais digno do seres”. O Filho respondeu: “As palavras que saem de teus lábios são doces e deleitam o mais profundo do meu coração como a mais doce das bebidas. Tu és para mim a mais doce das criaturas. Da maneira que uma pessoa pode ver distintos rostos em um espelho, mas nenhum lhe agrada mais que o seu próprio, assim, mesmo amando meus Santos, a amo com particular amor, porque nasci de tua carne.

    Tu és como um incenso seleto cujo odor subiu até a divindade e a atraiu para seu corpo. Esta mesma fragrância elevou teu corpo e tua alma até Deus, onde estás agora com todo teu ser. Bendita sejas, porque os Anjos se regozijam em tua formosura e todos os que te invocam, com o coração sincero, ficam libertos graças ao teu poder. Todos os demônios tremem diante de tua luz e não se atrevem a permanecer em teu esplendor porque eles sempre querem estar nas trevas.

    Tu me louvaste por três qualidades. Disseste que Eu tive o corpo mais nobre, depois afirmaste que Eu era o mais valente dos homens e, em terceiro, disseste que fui a mais digna das criaturas. Estas qualidades são contestadas, agora, por aqueles que possuem um corpo e uma alma. Dizem que Eu possuo um corpo ignóbil, que sou o homem mais desgraçado e a mais indigna das criaturas. O que é mais ignóbil do que arrastar o outro para o pecado? Isso é o que dizem de meu corpo: que conduz ao pecado. Dizem, literalmente, que o pecado não é tão repugnante nem desgosta a Deus tanto como Eu lhes havia dito. ‘Porque – segundo eles – nada existe a menos que Deus queira e nada foi criado sem Ele. Por que, então, não poderíamos usar tudo o que foi criado como nós quisermos? Nossa natural fragilidade assim o exige e esta é a forma com a qual todos temos vivido antes e ainda vivemos’.

    Assim é como, agora, as pessoas se dirigem a mim. Minha natureza humana, com a qual apareci entre os homens como Deus verdadeiro, é, efetivamente, considerada por eles como desprezível, apesar do quanto Eu apartei a humanidade do pecado e lhe mostrei a gravidade disso, como se Eu tivesse incentivado a fazer algo inútil e torpe. Dizem, literalmente, que nada é nobre exceto o pecado e tudo aquilo que satisfaça seus caprichos. Também dizem que eu sou o mais desgraçado dos homens. Quem é mais desgraçado que alguém que, quando diz a verdade, vê sua boca ferida pelas pedras que lhe arremessam e é golpeado na face e, além de tudo isso, escuta as censuras das pessoas dizendo-lhe: ‘Se fosse um homem se vingaria’? Isso é o que fazem comigo.

    Falo com eles através de sábios doutores e das Sagradas Escrituras, mas eles dizem que Eu minto. Ferem minha boca com pedras e com socos cometendo adultério, matando e mentindo. Dizem: ‘Se fosse um grande homem, se fosse o mais poderoso Deus, se vingaria dessas transgressões’. Todavia, Eu sofro em minha paciência. Cada dia, ouço-os afirmar que o castigo nem é eterno nem tão severo como se falou e minhas palavras são consideradas mentiras.

    Por último, me veem como a mais indigna das criaturas. O que é mais desprezível em uma casa do que um cachorro ou um gato que alguém estaria mais que contente em trocar por um cavalo, se pudesse? Mas as pessoas afirmam que Eu sou pior que um cachorro. Não me acolheriam se, para isso, tivessem que se desapegar do cachorro, e antes ainda, me recusariam e me negariam se tivessem que ficar sem a casinha do cachorro. Existe algo tão insignificante para a mente humana, que não seja considerado de maior valor ou que seja mais desejado que Eu? Se me tivessem em maior estima que as demais criaturas, me amariam mais que tudo. Mas não possuem nada tão insignificante que não o amem mais que a mim.

    Apiedam-se de qualquer coisa mais que de mim. Desgostam-se por suas próprias perdas e pelas de seus amigos. Afligem-se por uma única palavra ofensiva. Entristecem-se por ofender as pessoas de maior classe que eles, mas não se importam em ofender a, Mim, o Criador de todas as coisas. Quem há, que seja tão desprezado que não seja ouvido quando pede algo ou que não seja compensado quando tenha dado algo? Eu sou totalmente indigno e desprezível a seus olhos, tanto que não me consideram merecedor de nenhum bem, apesar de Eu lhes ter dado todo o bem.

    Mãe minha, tu saboreaste mais de minha sabedoria que os demais e nada mais que a verdade saiu de teus lábios. Tampouco, dos meus lábios, pode sair outra coisa mais que a verdade. Em presença de todos os Santos, Eu me justificarei a mim mesmo ante o primeiro homem, o que disse que Eu tinha um corpo indigno. Demonstrarei que, de fato, possuo o corpo mais nobre, sem deformidade nem pecado, e esse homem cairá na eterna censura para que todos o vejam. Já para aquele que disse que minhas palavras eram mentiras e que não sabia se Eu era ou não Deus, demonstrar-lhe-ei que sou verdadeiramente Deus e ele deslizará como o barro até o inferno. E ao terceiro, ao que sustentava que eu era indigno, o condenarei ao castigo eterno, de maneira que nunca veja minha glória nem sinta meu gozo”.

    Então, disse à esposa: “Mantenha-te firme no meu serviço! Tu te vês rodeada por um muro, como dissemos, do qual não podes escapar nem escavar seus fundamentos. Assume voluntariamente esta pequena tribulação e chegarás a experimentar o eterno descanso em meus braços! Tu conheces a vontade do Pai, escutas as palavras do Filho e conheces meu Espírito. Obtenha alegria e consolo nos diálogos com minha Mãe e meus Santos. Por isso, mantenha-te firme! Do contrário, chegarás a conhecer essa minha justiça pela qual se verás forçada a fazer o que, agora amavelmente, eu a estou incentivando que faças.



    Palavras do Senhor à esposa sobre a adesão à Nova Lei; sobre como essa mesma Lei é agora rejeitada e desdenhada pelo mundo, sobre como os maus sacerdotes não são sacerdotes de Deus e sim traidores de Deus e sobre a sua maldição e condenação.

    Livro 1 - Capítulo 47

    Eu sou o Deus que em um tempo fui chamado de o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Eu sou o Deus que deu a Lei a Moisés. Esta Lei era como uma vestimenta. Assim como uma gestante prepara o enxoval de seu bebê, Deus também preparou a Lei, que foi como a vestimenta, sombra e sinal das coisas por vir. Eu me vesti e me envolvi a mim mesmo com as vestes da nova Lei. À medida que um menino cresce, suas roupas são substituídas por outras novas.

    Da mesma forma, quando as vestimentas da Lei Antiga estavam a ponto de serem abandonadas, Eu me vesti com a nova roupa, ou seja, com a Nova Lei e a dei a todos que quisessem ter a mim e ás minhas vestes. Esta roupa não é muito apertada, nem difícil de vestir, mas é bem proporcionada em todas as partes. Não obriga as pessoas a jejuar ou a trabalhar demais, nem a matar-se, nem a fazer nada que esteja além dos limites de suas possibilidades, mas ela é benéfica para a alma e conduz à moderação e mortificação do corpo. Pois, quando o corpo adere demais ao pecado, o pecado o consome.

    Duas coisas podem ser encontradas na Nova Lei. Primeira, uma prudente temperança e o reto uso dos bens físicos e espirituais. Segunda, uma grande facilidade para manter-se na Lei, pelo fato de que, uma pessoa que não pode manter-se em um estado, pode permanecer em outro. Nela, pode-se ver que a pessoa que não conseguia viver o celibato, podia porém, viver um matrimônio honrado, podia levantar outra vez e prosseguir. Entretanto, agora, Minha Lei é rejeitada e menosprezada.

    As pessoas dizem que a Lei é muito rígida, pesada e sem atrativos. Eles a chamam de rígida, porque nos ordena a nos contentarmos somente com aquilo que é necessário e evitar o que é supérfluo. Porém, eles querem ter tudo além do razoável e mais do que o corpo pode suportar, como se fossem animais. É por isso que ela lhes parece ser muito rígida ou rigorosa. Em segundo lugar, eles dizem que é pesada, pois a Lei diz que a pessoa deve ser indulgente com os desejos de prazer submetendo-os à razão e em determinados momentos. Mas, querem ceder aos seus prazeres mais do que lhes convém e além dos limites. Terceiro, dizem que ela não é atrativa, pois a lei ordena que eles amem a humildade e atribuam todo bem a Deus. Querem ser orgulhosos e exaltarem-se a si mesmos pelos presentes bons que Deus lhes deu. É por isso que ela não é atraente para eles.

    Veja como eles depreciam as vestes que lhes dei! Eu acabei com as formas antigas e introduzi as novas para durarem até que Eu venha para o Juízo, pois os velhos caminhos eram muito difíceis. Porém, eles, afrontosamente descartaram as vestimentas com as quais Eu cobri a alma, ou seja, uma fé ortodoxa. Além de tudo isso somaram pecado sobre pecado, porque também querem me trair. Davi não disse no salmo: ‘Aquele que comeu de meu pão tramou a traição contra mim?’ Quero que percebas duas coisas nessas palavras. Primeiro, ele não diz “trama”, mas “tramou”, como se fosse algo já passado. Segundo, ele aponta somente para um homem como traidor. Da mesma forma, Eu digo que são aqueles que no presente me traem, não aqueles que foram ou serão, mas aqueles que ainda estão vivos. Também digo que não se trata de apenas uma pessoa, mas de muitas. Mas tu deves me perguntar: ‘Não há dois tipos de pão, aquele invisível e espiritual, do qual os Anjos e os Santos vivem e o outro que pertence a Terra, pelo qual os homens se alimentam? Mas se os Anjos e os Santos não desejam nada que não esteja de acordo com a Tua vontade, e os homens não podem fazer nada que Tu não aceites, como, então, podem Te trair?

    Na presença de minha Corte Celestial que sabe e vê todas as coisas em mim, Eu respondo por teu bem, de forma que possas compreender: De fato, há dois tipos de pão. Um é aquele dos Anjos, que comem meu pão no meu Reino e são preenchidos com a minha glória indescritível. Eles não me traem, pois não querem nada que não seja aquilo que Eu quero. Mas aqueles que comem meu pão no altar me traem. Eu Sou verdadeiramente esse Pão. É possível perceber três coisas nesse Pão: a forma, o sabor e a circularidade. De fato, Eu sou esse Pão e, como tal, tenho três coisas em mim: sabor, forma e circularidade. Sabor, porque tudo é insípido, insubstancial e carente de sentido sem mim, assim como uma refeição sem pão não tem sabor e não é nutritiva. Eu também tenho a forma do pão enquanto me considero da terra.

    Vim da Mãe Virgem, minha Mãe é a de Adão, Adão é da Terra. Também tenho circularidade onde não há princípio nem fim, porque Eu não tenho princípio nem fim. Ninguém pode encontrar um fim ou um princípio na minha sabedoria, no meu poder e na minha caridade. Eu estou em todas as coisas, sobre todas as coisas e além de todas as coisas. Mesmo se alguém voasse perpetuamente como uma flecha, sem parar, nunca encontraria um final ou um limite ao meu poder e à minha força. Através dessas coisas, sabor, forma e circularidade, Eu sou o Pão que parece e tem sabor de pão no altar, mas que se transforma em meu corpo que foi crucificado. Do mesmo modo que qualquer madeira facilmente inflamável é rapidamente consumida quando se coloca no fogo, e não resta nada da forma da madeira, pois toda se converte em fogo, assim também acontece quando estas palavras são ditas: ‘Este é o meu Corpo…,’ o que antes era pão imediatamente se torna meu corpo. Faz-se uma chama, não como o fogo com a madeira, mas pela minha divindade. Por isso, aqueles que comem meu pão me traem. Que tipo de crime pode ser mais horrível do que quando alguém se mata a si mesmo? Ou que traição poderia ser pior do que quando duas pessoas unidas por um vínculo indissolúvel, como um casal, um trai o outro? O que um dos dois faz para trair o outro? Ele diz a ela enganando: ‘Vamos a tal e tal lugar de forma que eu passe meu futuro contigo!’

    Ela vai com ele com toda simplicidade, pronta para satisfazer qualquer desejo de seu marido. Mas, quando ele encontra a oportunidade e o lugar, lança contra ela três armas traiçoeiras. Ou utiliza algo suficientemente pesado para matá-la com um único golpe, ou afiado o suficiente para cortar exatamente seus órgãos vitais, ou, algo asfixiante que sufoca diretamente nela o espírito de vida. Então, quando ela morre, o traidor pensa consigo mesmo: ‘Agora eu fiz mal. Se meu crime for descoberto e tornar-se público, serei condenado à morte’ Então, ele leva o corpo da mulher em um lugar escondido, de forma que seu pecado não seja descoberto.

    Esta é a forma com que sou tratado pelos meus sacerdotes, que são meus traidores. Pois eles e Eu estamos ligados por uma só vinculo quando eles tomam o pão, e, pronunciando as palavras, o transformam em meu verdadeiro Corpo, que recebi da Virgem. Nenhum dos Anjos pode fazer isto. Eu dei somente aos sacerdotes essa dignidade e os selecionei dentre as mais altas ordens. Mas eles me tratam como traidores. Fazem uma cara feliz e complacente para mim e me levam a um local escondido onde possam me trair. Estes sacerdotes fazem cara de felicidade aparentando ser bons e simples. Eles me levam a uma câmara escondida quando se aproximam do altar. Ali Eu sou como a noiva ou a recém casada, disposta a realizar todos os seus desejos e, em vez disso, eles me atraiçoam.

    Primeiro, me batem com algo pesado quando o Ofício Divino, que recitam para mim, se torna triste e pesado para eles. De bom grado diriam cem palavras para o bem do mundo do que uma só em minha honra. Antes dariam cem lingotes de ouro para o bem do mundo do que um só centavo em Minha honra. Trabalhariam cem vezes por seu próprio benefício do que uma só vez em minha honra. Eles me pressionam tanto com este pesado fardo que é como se eu estivesse morto em seus corações. Em segundo lugar, me transpassam com uma lâmina afiada que penetra em meus órgãos vitais cada vez que um sacerdote sobe ao altar, sabendo que pecou e arrependeu-se, mas está firmemente decidido a voltar a pecar, uma vez que tenha terminado seu Oficio. Este diz consigo mesmo: Eu de fato me arrependo do meu pecado, mas não penso deixar a mulher com a qual pequei, até que já não possa mais pecar.’ Isto me corta como a mais afiada das lâminas.

    Terceiro, é como se eles asfixiassem meu Espírito quando pensam: ‘É bom e prazeroso estar no mundo, é bom ser indulgente com os desejos e não me posso conter. Farei isto enquanto for jovem e quando me fizer mais velho, irei me abster e emendarei meus caminhos.’ E, através desse perverso pensamento, eles sufocam o espírito da vida. Mas como isso acontece? Pois bem, o coração destes se torna tão frio e tíbio em relação a mim e a cada virtude que nunca mais pode ser estimulado ou renascer no meu amor.

    Assim como o gelo não pega fogo, mesmo quando mantido sobre uma chama, mas apenas derrete, da mesma maneira mesmo que Eu lhes dê a minha graça e eles ouçam palavras de advertência, não melhoram no modo de vida, mas apenas crescem estéreis e frouxos a respeito de cada uma das virtudes. E assim me traem, naquilo que fingem ser simples quando na realidade não o são, e ficam tristes e desgostosos na hora de dar-me a glória em vez de regozijar-se e também naquilo que pretendem pecar e continuam pecando até o final.

    Eles também me escondem, por assim dizer, e me colocam em um local oculto quando pensam: ‘Sei que pequei. Mas se me abstiver de realizar o Oficio, ficarei envergonhado e todos irão me condenar.’ Assim que, imprudentemente, sobem ao altar e tocam a mim, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Fico como se estivesse em um lugar escondido, uma vez que ninguém sabe nem se dá conta de quão corruptos e sem vergonha são.

    Eu, Deus, permaneço ali, diante deles, como em uma dissimulação, porque, mesmo quando o sacerdote é o pior dos pecadores e pronuncia estas palavras “Este é o meu corpo”, ele ainda consagra meu Verdadeiro Corpo, e Eu, verdadeiro Deus e Homem, permaneço ali diante dele. Quando me põe em sua boca, entretanto, Eu já não estou presente para ele na graça das minhas naturezas divina e humana - só resta para ele a forma e o sabor do pão - não porque Eu não esteja realmente presente para os maus como para os bons devido à instituição do sacramento, mas porque os bons e os maus não o recebem com o mesmo efeito.

    Olhe, estes sacerdotes não são meus sacerdotes, e sim na realidade, meus traidores! Eles também me vendem e me traem como Judas. Olho para os pagãos e judeus, mas não vejo ninguém pior que estes sacerdotes, já que caíram no pecado de Lúcifer. Agora, deixe-me dizer-te sua sentença e a quem se assemelham. Sua sentença é a condenação. Davi condenou aqueles que desobedeciam a Deus, não por ira, ou má vontade nem por impaciência, senão devido à justiça divina, pois ele era um honrado profeta e rei. Eu, também, que sou maior que Davi, condeno estes sacerdotes, não pela ira nem pela má vontade, mas pela justiça.

    Maldito seja tudo o que retiram da Terra para seu próprio proveito, pois eles não louvam seu Deus e Criador que lhes deu estas coisas. Maldito seja o alimento e a bebida que entra em suas bocas e que alimenta seus corpos para que se convertam em alimento dos vermes e destinem suas almas ao inferno. Malditos sejam seus corpos que se levantarão novamente no inferno para ser queimados eternamente. Malditos sejam os anos de suas vidas inúteis. Maldita seja sua primeira hora no inferno, que nunca terminará. Malditos sejam por seus olhos que viram a luz do Céu.

    Malditos sejam por seus ouvidos que ouviram minhas palavras e permaneceram indiferentes. Malditos sejam por seu paladar, pelo qual experimentaram meus manjares. Malditos sejam por seu tato, pelo qual me tocaram. Malditos sejam, por seu olfato, pelo qual sentiram aromas agradáveis e se descuidaram de mim, que Sou o mais agradável de todos.

    Agora, como são, exatamente amaldiçoados? Pois bem, sua visão está amaldiçoada porque não desfrutará da visão de Deus em si, mas apenas verão sombras e os castigos do inferno. Seus ouvidos estão amaldiçoados porque não ouvirão minhas palavras, senão somente o clamor e os horrores do inferno. Seu paladar está amaldiçoado porque não experimentarão os bens e o gozo eternos, mas sim a amargura eterna. Seu tato está amaldiçoado porque não conseguirão tocar-me , senão somente o fogo perpétuo.

    Seu olfato está amaldiçoado, porque não sentirão esse doce perfume do meu Reino, que supera todas as essências, mas terão apenas o fedor do inferno que é mais amargo do que a bílis e pior que o enxofre. Sejam malditos pela Terra e o Céu e por todas as bestas. Essas criaturas obedecem e glorificam a Deus, enquanto que eles o evitaram. Por isto eu prometo pela verdade, Eu que sou a Verdade, que se eles morrem assim, com essa disposição, nem meu amor nem minha virtude os cobrirá. Ao contrário, serão condenados para sempre.



    Sobre como, na presença da Corte Celestial e da esposa, a divina natureza fala à natureza humana contra os Cristãos, assim como Deus falou a Moisés contra o povo, sobre os sacerdotes condenáveis que amam o mundo e desprezam a Cristo e sobre seu castigo e maldição.

    Livro 1 - Capítulo 48

    A Corte Celestial foi vista no Céu e Deus lhe disse: ‘Observe, pelo bem desta minha esposa aqui presente, que me dirijo a vós, amigos meus que me estais ouvindo, vós que sabeis, compreendeis e vedes tudo em mim. Como se alguém falasse consigo mesmo, minha natureza humana irá falar à minha natureza divina. Moisés esteve com o Senhor na montanha por quarenta dias e quarenta noites. Quando o povo viu que já fazia tempo que ele havia partido, pegaram ouro, fundiram-no no fogo e criaram com ele um bezerro, a que chamaram seu deus. Então, Deus disse a Moisés: ‘O povo pecou. Eliminá-lo-ei como se apagam as letras de um livro.’ Moisés respondeu: ‘Não o faças, Senhor! Lembra-te de como os guiaste desde o Mar Vermelho e fizeste maravilhas por eles. Se os eliminas, onde ficará então tua promessa? Não o faças, eu te rogo, pois teus inimigos dirão: O Deus de Israel é malvado, conduziu o povo até o mar e o matou no deserto.’ E Deus se aplacou com estas palavras.

    Eu sou Moisés, figurativamente falando. Minha natureza divina fala à minha natureza, como fiz com Moisés, dizendo-lhe: ‘Olha o que o fez teu povo, veja como me desprezaram! Todos os cristãos morrerão e sua fé ficará apagada.’ Minha natureza humana responde: ‘Não, Senhor. Lembra-te como conduzi o povo através do mar por meu sangue, quando fui espancado desde a planta dos meus pés até a o alto da minha cabeça! Eu lhes prometi a vida eterna. Tem misericórdia deles, por minha Paixão!’ Quando a natureza divina ouviu isto, se apiedou dele e lhe disse: ‘Assim seja, pois te foi dado todo juízo!’ Vejam que amor, meu amigos!

    Mas agora, em vossa presença, meus amigos espirituais, meus anjos e santos, e na presença dos meus amigos corpóreos, que estão no mundo, ainda que só em seu corpo, lamento o fato de que meu povo esteja acumulando lenha, acendendo uma fogueira e jogando ouro nela, da qual emerge um bezerro para que eles o adorem como a um deus. Assim como um bezerro, se sustenta em quatro patas, tem uma cabeça, uma garganta e um rabo.

    Quando Moisés se demorou na montanha, o povo dizia: ‘Não sabemos o que lhe aconteceu.’ Lamentaram-se de que lhes houvesse guiado para sair de seu cativeiro e disseram: ‘Vamos fazer outro deus que nos dirija!’ É assim que estes malditos sacerdotes estão me tratando agora. Eles dizem: ‘Porque vivemos uma vida mais austera que os demais? Qual é nossa recompensa? Estaríamos melhor se vivêssemos sem preocupações, na abundancia., Vamos pois amar o mundo do qual temos certeza! Apesar de tudo, não estamos seguros de sua promessa.’ Assim juntam lenha, ou seja, aplicam todos os seus sentidos para amar o mundo. Eles acendem uma fogueira quando todo seu desejo é para o mundo, e ardem à medida que cresce sua cobiça em sua mente e acaba resultando em obras.

    Depois, lhe jogam ouro, que significa que todo o amor e respeito que deveriam demonstrar por mim, o dedicam a obter o respeito do mundo. Então, emerge o bezerro, ou seja, o amor total do mundo, com suas quatro patas de preguiça, impaciência, alegria supérflua e avareza. Esses sacerdotes, que deveriam ser meus, sentem preguiça na hora de me honrar, impaciência diante do sofrimento, se excedem em alegrias vãs e nunca se contentam com o que conseguem. Este bezerro também tem uma cabeça e uma garganta, ou seja, um desejo de comilança que nunca se aplaca, nem mesmo se tragasse o mar inteiro.

    O rabo do bezerro é sua malícia, pois não deixam que ninguém mantenha sua propriedade, extorquem sempre que podem. Por seu exemplo imoral e seu desprezo, ferem e pervertem os que me servem. Assim é o amor ao bezerro que há em seus corações, e nele se regozijam e deleitam. Pensam em mim do mesmo modo que aqueles fizeram com Moises: ‘Ele se foi há muito tempo’, dizem. ‘Suas palavras parecem sem sentido e trabalhar para Ele é muito pesado. Façamos o que nos dê vontade, deixemos que nossas forças e prazeres sejam nosso deus! Também não se contentam parando aí e esquecendo-me por completo, mas alem disso me tratam como um ídolo!

    Os pagãos costumavam adorar pedaços de madeira, pedras e pessoas mortas, entre outros, adoravam um deus cujo nome era Belzebu. Seus sacerdotes lhe ofereciam incenso, genuflexões e gritos de louvor. Tudo que era inútil em sua oferta de sacrifícios se jogava no chão e as aves e moscas o comiam. Mas os sacerdotes podiam ficar com tudo aquilo que pudesse lhes ser útil. Então trancavam a porta de seu ídolo e guardavam a chave pessoalmente, para que ninguém pudesse entrar.

    É assim que os meus sacerdotes me tratam atualmente. Oferecem-me incenso, ou seja, falam e pregam belas palavras às pessoas para conseguir respeito para si mesmos e benefícios temporais, mas não por amor a mim. Da mesma forma que não se pode prender o aroma do incenso, ainda que o sintas e o vejas, também suas palavras não têm nenhum efeito nas almas, para criar raízes e manter-se em seus corações, mas são palavras que só se ouvem e agradam passageiramente.

    Oferecem orações, mas nem todas me agradam. Como quem grita louvores com seus lábios, mas mantem seu coração calado, ficam perto de mim rezando com os lábios mas no coração vagueiam pelo mundo. Entretanto, quando falam com uma pessoa da projeção, mantêm sua mente no que dizem para não cometer erros que poderiam ser observados pelos outros. Na minha presença, entretanto, os sacerdotes são como homens confusos que dizem uma coisa com a boca e tem outra no coração. As pessoas que os escutam não podem ter certeza sobre eles. Dobram seus joelhos diante de mim, ou seja, prometem humildade e obediência, mas, na verdade são tão humildes quanto Lúcifer. Obedecem seus próprios desejos, não a Mim.

    Eles também me trancam e guardam a chave pessoalmente. Abrem-se a mim e me oferecem louvores quando dizem: ‘Faça-se tua vontade na Terra, como no Céu!’ Mas, depois, trancam-me novamente ao por em pratica seus próprios desejos, enquanto os meus se tornam como os de um preso e impotente porque não posso ser visto nem ouvido. Eles guardam a chave pessoalmente, no sentido de que por seu exemplo, também conduzem ao extravio os que querem fazer a minha vontade, e, se pudessem, evitariam que se fizesse minha vontade e se a cumprisse, exceto quando esta se ajustasse a seu próprio desejo.

    Mantêm para si tudo o que nas ofertas de sacrifício seja útil para eles e exigem todos os seus direitos e privilégios. De qualquer forma, parecem considerar inúteis os corpos das pessoas que caem no chão e morrem. Para eles estão obrigados a oferecer o sacrifício mais importante, mas os deixam aí às moscas, ou seja, para os vermes. Não se preocupam nem se importam com os direitos das pessoas ou com a salvação das almas.

    O que foi dito a Moisés? ‘Mata os que fizeram este ídolo!’ Alguns foram eliminados, mas não todos. Consequentemente, minhas palavras virão agora e os matarão, a alguns em corpo e alma através da condenação eterna; a outros em vida para que se convertam e vivam; outros ainda pela morte repentina ao tratar-se de sacerdotes que me são totalmente odiosos. Com que vou compará-los? De fato, eles são como os frutos das urzes, que por fora são bonitos e vermelhos, mas por dentro estão cheios de impurezas e espinhos.

    Da mesma forma, estes homens vêm até mim cheios de caridade e perante as pessoas parecem puros, mas por dentro estão cheios de sujeira. Se estes frutos se colocam no solo, deles saem e crescem mais brotos de urze. Assim, estes homens escondem seu pecado e maldade de coração, como no solo, e se tornam tão enraizados na maldade que nem sequer se envergonham de mostrar-se em público e gabar-se de seu pecado. Por isso, outras pessoas não só encontram ocasião de pecar, mas ficam seriamente manchadas em sua alma, pensando consigo mesmo: ‘Se os sacerdotes fazem isto, mais lícito será que o façamos nós.’

    Acontece, assim, que não só se assemelham com o fruto da urze, mas também com seus espinhos. Pensam que não há ninguém mais sábio que eles e que podem fazer o que quiserem. Portanto, juro por minhas naturezas, divina e humana, na audiência de todos os anjos, que atravessarei a porta que eles fecharam para a minha vontade. Minha vontade se cumprirá e a deles será aniquilada e trancada em um castigo sem fim. Então, assim como foi dito antigamente, meu juízo começará com meu clero e no meu próprio altar.”



    Palavras de Cristo à esposa sobre como Cristo é figurativamente comparado com Moisés dirigindo o povo fora do Egito, e sobre como os condenáveis sacerdotes que Ele tinha escolhido no lugar dos profetas como seus melhores amigos gritam agora: “Afasta-te de nós!”

    Livro 1 - Capítulo 49

    O Filho falou: “Antes fui comparado figurativamente com Moisés. Quando ele guiava o povo, a água se colocou como uma parede à esquerda e à direita. De fato, Eu sou Moisés, figurativamente falando. Eu conduzi o povo Cristão, ou seja, abri o Céu para eles e lhes mostrei o caminho. Mas agora escolhi outros amigos para mim, mais especiais e íntimos que os profetas, na realidade, meus sacerdotes. Estes não só ouvem e veem minhas palavras quando veem a mim, mas até me tocam com as suas mãos, o que nenhum dos profetas ou Anjos puderam fazer.

    Estes sacerdotes, que escolhi como amigos no lugar dos profetas, me aclamam, mas não com desejo e amor como fizeram os profetas, mas me aclamam com duas vozes opostas. Não me aclamam como fizeram os profetas: ‘Vem, Senhor, porque és bom!’ Em vez disso os sacerdotes me gritam: ‘Afaste-se de nós, pois tuas palavras são amargas, e tuas obras são pesadas e um escândalo para nós’. Olhe o que dizem estes sacerdotes condenáveis!

    Estou diante deles como a mais mansa das ovelhas, eles obtém de mim lã para suas vestes e leite para seu alimento e, ainda assim, me odeiam por amá-los tanto. Estou diante deles como um visitante que diz: ‘Amigo, dá-me o necessário que não o tenho, e receberás a máxima recompensa de Deus!’ Mas em troca de minha mansa simplicidade, me lançam fora como se fosse um lobo mentiroso, a espera da ovelha principal. Em vez de dar-me sua acolhida, me tratam como a um traidor indigno de hospitalidade e se recusam a alojar-me.

    O que fará então o visitante rejeitado? Armar-se-á contra o anfitrião que o deixa fora de sua casa? De forma alguma. Isto não seria justo, pois o proprietário pode dar ou negar a sua propriedade a quem ele queira. O que fará, pois, o visitante? Certamente haverá de dizer a quem o rejeita: ‘Amigo, se tu não queres me receber, irei a outro que tenha pena de mim.’ E, indo a outro lugar poderá ouvir de um novo anfitrião: ‘Seja bem-vindo, senhor, tudo o que tenho é teu. Seja tu agora o dono! Eu serei teu servo e teu convidado.’

    Estes são os tipos de casa onde gosto de estar, onde escuto essas palavras. Eu sou como visitante rejeitado pelos homens. Embora possa entrar em qualquer lugar em virtude do meu poder, ainda assim, sob o mandato da justiça tão somente entro onde as pessoas me recebem de boa vontade como a seu verdadeiro Senhor, não como a um hóspede, e confiam sua própria vontade em minhas mãos”.



    Palavras de mútuo louvor da Mãe e do Filho, sobre a graça concedida pelo Filho à sua Mãe para as almas no purgatório e os que ainda estão neste mundo.

    Livro 1 - Capítulo 50

    Maria falou a seu Filho, dizendo: ”Bendito seja teu nome, meu Filho, bendita e eterna seja tua divina natureza que não tem principio nem fim! Em tua natureza divina há três atributos maravilhosos de poder, sabedoria, e virtude. Teu poder é como a mais ardente das chamas na qual, qualquer coisa firme e forte, assim também como a palha seca, passará pelo fogo. Tua sabedoria é como o mar, que nunca se pode esvaziar devido a sua abundancia e que cobre vales e montanhas quando aumenta e as inunda. É igualmente impossível compreender e penetrar tua sabedoria. Quão sabiamente criaste a humanidade e a estabeleceste sobre toda tua criação!

    Quão sabiamente ordenastes as aves no ar, os animais na terra e aos peixes no mar, dando a cada um, seu próprio tempo e lugar! Quão maravilhosamente a tudo dás ou tiras a vida! Quão sabiamente dás conhecimento aos pequeninos e o tiras dos soberbos! Tua virtude é como a luz do sol, que brilha no céu e enche a terra com seu resplendor. Tua virtude, desse modo, satisfaz de alto a baixo e preenche todas as coisas. Por isso, bendito sejas, meu Filho, que és meu Deus e meu Senhor!”

    O Filho assim respondeu: “Minha querida Mãe, tuas palavras me soam doces pois procedem de tua alma. És como a aurora que avança serenamente. Tu iluminas os Céus; tua luz e tua serenidade ultrapassam a de todos os anjos. Por tua serenidade, atraíste a ti o verdadeiro sol, ou seja, a minha natureza divina, tanto que o sol da minha divindade veio até a ti se instalou em ti. Por tua pureza tu recebeste a pureza do meu amor mais que todos, e por teu esplendor foste iluminada em minha sabedoria, mais do que todos. As trevas foram lançadas fora da terra e todos os Céus foram iluminados através de ti.

    Em verdade Eu digo que tua pureza, mais agradável para mim do que a de todos os anjos, atraiu tanto a minha divindade para Ti, que foste inflamada pelo calor do Espírito. Nele, Tu geraste o Verdadeiro Deus e Homem, resguardado em teu ventre, pelo qual a humanidade foi iluminada e os anjos cheios de alegria. Assim, bendita sejas por Teu bendito Filho! E por isso nenhum pedido teu chegará a mim sem ser ouvido. Qualquer um que peça misericórdia através de ti, e tenha a intenção de emendar seus caminhos, conseguirá graça. Como o calor vem do sol, igualmente,toda a misericórdia será dada através de ti. És como um abundante manancial do qual mana toda misericórdia para os infelizes”.

    Por sua vez, a Mãe respondeu ao Filho: ”Teus sejam todo poder e glória, meu Filho! És meu Deus, um Deus de misericórdia. Todo o bem que tenho vem de ti. És como uma semente que, mesmo sem ser semeada cresceu e deu centenas e milhares de frutos. Toda misericórdia emana de ti, e ainda que sendo incontável e indizível, pode ser simbolizada pelo número cem, que representa a perfeição, pois todo o perfeito e a perfeição se devem a ti”.

    O Filho, respondeu à Mãe: ”Mãe, me comparaste corretamente a uma semente que nunca foi semeada e, mesmo assim cresceu, pois em minha natureza divina eu vim a ti e minha natureza humana não foi semeada por inseminação alguma, e mesmo assim cresci em ti, e a misericórdia emanou de ti para todos. Tens falado corretamente. Agora, pois, porque extrais de minha misericórdia pela doçura de tuas palavras, pede-me o que desejas e se te dará”

    A Mãe acrescentou: ”Meu Filho, por haver conseguido a misericórdia, peço-te que tenhas misericórdia dos infelizes e os ajudes. Afinal de contas, há quatro lugares. O primeiro é o Céu, onde os Anjos e a alma dos Santos não precisam de mais nada além de ti, e te têm pois possuem todo o bem em ti. O segundo lugar é o inferno, e aqueles que estão lá, estão repletos de maldade e por isso, excluídos de qualquer piedade. Assim, nada bom pode entrar neles nunca mais. O terceiro é o lugar daqueles que são purificados. Estes precisam de uma tripla misericórdia, pois estão triplamente afligidos. Sofrem em sua audição, pois não ouvem nada mais que lamentos, dor e miséria. São afligidos em sua visão pois não veem mais que sua própria miséria. São afligidos em seu tato, pois somente sentem o calor insuportável do fogo terrível de seu angustioso sofrimento. Assegura-lhes tuas misericórdias, Senhor meu, Filho meu, por meus rogos!”

    Jesus assim respondeu: ”Com gosto lhes garantirei uma tríplice misericórdia por ti. Em primeiro lugar, sua audição será aliviada, sua vista será mitigada, e seu castigo será reduzido e suavizado. Além disso, a partir deste momento, aqueles que se encontram no maior dos castigos do purgatório, passarão para a fase intermediaria, e os que estejam na fase intermediaria, avançarão para a punição mais leve. Os que estejam na punição mais leve, cruzarão para o descanso.” A Mãe respondeu: ”Louvor e honra a ti meu Senhor!” E de imediato acrescentou: ”O quarto lugar é o mundo. Seus habitantes precisam de três coisas: primeiro, contrição por seus pecados; segundo, reparação; terceiro, força para fazer o bem.”

    O Filho respondeu: ”A todo o que invoque meu nome e tenha esperança em Ti, junto com o propósito de emenda por seus pecados, serão dadas estas três coisas, alem do Reino dos Céus. Tuas palavras são tão doces para mim, que não posso negar-te nada do que me peças, pois tu não queres nada mais do que o que Eu quero. És como uma chama brilhante e ardente, pela qual as tochas apagadas se reacendem, e uma vez acesas, crescem em força. Graças a teu amor, que se elevou até meu coração e me atraiu a ti; aqueles que estão mortos pelo pecado reviverão e os que estejam tíbios e escurecidos como a fumaça negra, se fortalecerão em meu amor”.



    Palavras da Mãe de louvor ao Filho e sobre como o Filho glorioso compara sua doce Mãe com um lírio do campo

    Livro 1 - Capítulo 51

    A Mãe falou a seu Filho, dizendo: “Bendito seja teu nome, meu Filho, Jesus Cristo! Louvores à tua natureza humana, que supera toda a criação! Glória a tua natureza divina acima de toda a bondade! Tua natureza divina e a humana são um único Deus.” O Filho respondeu: “Minha Mãe, és como uma flor que cresceu em um vale em cujo redor há cinco montanhas." A flor brotou de três raízes, tendo uma haste perfeita sem nós. Esta flor tem cinco pétalas suavíssimas. O vale e sua flor ultrapassam as cinco montanhas e as pétalas da flor se estendem sobre cada altura do céu, e sobre todos os coros de anjos.

    Tu, minha querida Mãe, és esse vale em virtude da grande humildade que possuis em comparação com os demais. Este, ultrapassou as cinco montanhas. A primeira montanha foi Moisés, devido ao seu poder, pois manteve o poder sobre meu povo através da Lei, como se o sustentasse firme com seu pulso. Porém, tu mantiveste o Senhor de toda Lei em teu ventre e, por isso tu és mais alta que essa montanha. A segunda montanha foi Elias, tão santo que seu corpo e sua alma ascenderam ao lugar sagrado. Tu, porém querida Mãe foste assunta em alma ao trono de Deus sobre todos os coros dos anjos e teu puríssimo corpo está ali junto à tua alma. Tu, portanto, minha querida Mãe, és mais alta que Elias.

    A terceira montanha foi a grande força que possuía Sansão em comparação com outros homens. Contudo, o diabo derrotou-o através da astúcia. Mas tu venceste o demônio por tua força. Portanto, és mais forte que Sansão. A quarta montanha foi Davi, um homem de acordo com meu coração e vontade, que, apesar disso, caiu em pecado. Mas tu , minha Mãe, te submeteste completamente à minha vontade e nunca pecaste. A quinta montanha foi Salomão, que estava cheio de sabedoria mas se tornou tolo. Tu ao contrário, Mãe, estavas cheia de toda sabedoria e nunca foste ignorante nem enganada. És, pois, mais alta que Salomão. A flor brotou de três raízes no sentido de que possuíste três qualidades: obediência, caridade e conhecimento divino. Destas três raízes brotou a haste mais perfeita, sem um único nó, ou seja, sua vontade nunca se desviou para nada além da minha vontade. A flor também tinha cinco pétalas mais altas que todos os coros dos anjos. Tu, minha Mãe, és de fato a flor com estas cinco pétalas. A primeira pétala é sua nobreza, que é tão grande, que meus Anjos, que são nobres em minha presença, ao observar tua nobreza, a veem acima deles e mais exaltada que sua própria santidade e nobreza. Tu és, portanto, mais alta que os Anjos.

    A segunda pétala é a tua misericórdia, que foi tão grande que, quando viste a miséria das almas, te compadeceste delas e sofreste enormemente a dor da minha morte. Os Anjos estão cheios de misericórdia, contudo nunca sofrem dor. Tu, entretanto, amada Mãe, tiveste piedade dos miseráveis uma vez que experimentaste toda a dor de minha morte e, por essa misericórdia preferiste sofrer a dor do que livrar-te dela. É por isso que a tua misericórdia ultrapassa a de todos os anjos.

    A terceira pétala é tua doce amabilidade. Os Anjos são doces e amáveis, desejam o bem para todos mas tu, minha muito querida Mãe, tiveste tão boa vontade como um anjo, em tua alma e em teu corpo antes de tua morte, e fizeste o bem para todos. E agora não recusas atender a ninguém que reze razoavelmente para seu próprio bem. Assim, tua amabilidade é mais perfeita que a dos Anjos. A quarta pétala é a sua pureza. Cada um dos anjos admira a pureza dos demais e eles admiram a pureza de todas as almas e de todos os corpos. Entretanto, eles veem que a pureza da tua alma está acima do resto da criação e que a nobreza do teu corpo supera a de todos os seres humanos que foram criados.

    Assim, tua pureza ultrapassa a de todos os anjos e toda a criação. A quinta pétala é teu gozo divino, pois, nada te deleitou mais que Deus, assim como nada deleita os anjos mais que Deus. Cada um deles conhece e conheceu seu próprio gozo dentro de si. Mas quando viram teu gozo em Deus dentro de ti, lhes pareceu a cada um em sua consciência que sua alegria resplandecia neles como uma luz no amor de Deus. Perceberam teu gozo como uma grandíssima fogueira, ardendo com o mais aceso dos fogos com labaredas tão altas que chegavam perto da minha divindade. Por isso, dulcíssima Mãe, tua divina alegria ardeu muito acima dos coros dos Anjos.

    Esta flor, com estas cinco pétalas de nobreza, misericórdia, amabilidade, pureza e supremo gozo, era dulcíssima em todos os sentidos. Quem queira provar sua doçura deve se aproximar dela e recebê-la dentro de si. Isto foi o que tu fizeste, boa Mãe. Porque foste tão doce com meu Pai que ele recebeu todo teu ser no seu Espírito e tua doçura o deleitou mais que nenhuma outra. Pelo calor e energia do sol, a flor também gera uma semente e dela cresce um fruto. Abençoado seja este sol, ou seja, minha divina natureza que adotou a natureza humana do teu ventre virginal! Como uma semente faz brotar as mesmas flores em qualquer lugar que sejam semeadas, assim os membros de meu corpo são como os teus em forma e aspecto, embora eu tenha sido homem e tu mulher virgem. "Este vale, com sua flor, foi elevado sobre todas as montanhas quando o teu corpo, junto a tua santíssima alma, foi elevado sobre todos os coros dos Anjos”.



    Palavras de louvor e orações da Mãe a seu Filho para que suas palavras se difundam por todo o mundo e deixem raízes nos corações de seus amigos. Sobre como a própria Virgem é maravilhosamente comparada a uma flor que cresce em um jardim, e sobre as palavras de Cristo dirigidas através da esposa ao Papa e a outros prelados da Igreja.

    Livro 1 - Capítulo 52

    A bendita Virgem falou ao Filho dizendo-lhe: “Bendito sejas Filho meu e Deus meu, Senhor dos anjos e Rei de glória! Rogo que as palavras que pronunciaste deixem raízes nos corações de teus amigos e se fixem em suas mentes como o breu com o qual foi untada a arca de Noé, que nem as tempestades nem os ventos puderam dissolver. Que se espalhem pelo mundo como ramos e doces flores, cuja essência se impregna por toda a parte. Que também deem frutos e cresçam doces como a tâmara cuja doçura deleita a alma sem medida.”

    O Filho respondeu: ”Bendita sejas tu, minha muito querida Mãe!" Meu anjo Gabriel te disse: 'Bendita sejas Maria sobre todas as mulheres!' Eu te dou testemunho de que és bendita e mais santa que todos os coros dos anjos. És como uma flor de jardim rodeada de outras flores perfumadas, mas que a todas supera em perfume, pureza e virtude. Estas flores representam todos os eleitos, desde Adão até o fim do mundo.

    Foram plantadas no jardim do mundo, e floresceram em diversas virtudes, mas entre todos os que foram e que ainda serão, tu foste a mais excelente em fragrância de uma vida santa e humilde, na pureza de uma gratíssima virgindade e na virtude da abstinência. Dou testemunho de que foste mais que um mártir em minha Paixão, mais que um confessor em tua abstinência, mais que um anjo em tua misericórdia e boa vontade. Por ti, eu fixarei minhas palavras, com o mais forte dos breus nos corações de meus amigos. Eles se espalharão como flores perfumadas e darão os frutos como a mais doce e deliciosa das palmeiras”.

    Então, o Senhor falou à esposa: ”Diz a teu amigo que deve procurar repetir estas palavras quando escrever a teu pai, cujo coração está de acordo com o meu e, ele as dirigirá ao arcebispo e depois a outro bispo. Quando estes estiverem completamente informados, ele há de enviá-las a um terceiro bispo". Dize-lhe de minha parte: 'Eu sou teu Criador e o Redentor de almas. Eu sou Deus a quem tu amas e honras sobre tudo. Observa e considera como as almas que redimi com meu sangue são como as almas daqueles que não conhecem a Deus, como foram presas do demônio de forma tão espantosa, que ele as castiga em cada membro de seu corpo como se as passassem por uma prensa de uvas.

    Portanto, se em algo sentes minhas feridas em tua alma, se meus açoites e sofrimento significam algo para ti, então mostre, com obras, o quanto me amas! Faça que as palavras da minha boca sejam conhecidas publicamente e traga-as pessoalmente até a cabeça da Igreja! Eu te darei meu Espírito, de forma que, onde quer que haja diferenças entre duas pessoas, tu as possas unir em meu nome e através do poder que se te dá se elas acreditarem. Como evidência adicional de minhas palavras, apresentarás ao Pontífice os testemunhos daquelas pessoas que provam e se deleitam com elas. Pois minhas palavras são como gordura que se derrete mais rapidamente quanto mais quente esteja em seu interior. Lá, onde não há calor, são rejeitadas e não chegam ao interior das pessoas.

    As minhas palavras são assim, porque quanto mais as ingere e as mastiga uma pessoa com caridade fervente por mim, mais se alimenta com a doçura do desejo do Céu e de amor interior e mais arde por meu amor. Mas aqueles que não gostam de minhas palavras são como se tivesses gordura em sua boca. Quando a provam, cospem-na e a pisoteiam no chão. Algumas pessoas desprezam assim minhas palavras, porque não possuem gosto algum pela doçura das coisas espirituais. "O dono da terra, a quem escolhi como um dos meus membros e o fiz verdadeiramente meu, te auxiliará cavalheirescamente e te abastecerá das provisões necessárias para tua viagem, com meios corretamente adquiridos”.



    Palavras de mútuas bênção e louvor da Mãe e do Filho, e sobre como a Virgem é comparada à arca onde foram guardados o cajado, o maná e as tabuas da Lei. Muitos detalhes maravilhosos estão presentes nesta imagem.

    Livro 1 - Capítulo 53

    Maria falou ao Filho: “Bendito és, Filho meu, meu Deus e Senhor dos anjos"! És aquele cuja voz ouviram os Profetas, e cujo corpo viram os Apóstolos, aquele a quem perceberam os judeus e teus inimigos. Com tua divindade e humanidade e com o Espírito Santo, És um em Deus. Os Profetas ouviram o Espírito, os Apóstolos viram a glória da tua divindade e os judeus crucificaram tua humanidade. Portanto, bendito sejas, sem principio nem fim! O Filho respondeu: “Bendita sejas tu, pois és Virgem e Mãe”! És a arca do Antigo Testamento, na qual havia estas três coisas: o cajado, o maná e as tabuas.

    Três coisas foram feitas pelo cajado: primeiro, se transformou em serpente sem veneno. Segundo, o mar foi dividido por ele. Terceiro, fez com que a água brotasse da pedra. Este cajado é um símbolo meu, que repousei em teu ventre e assumi de ti a natureza humana. Primeiro, sou tão assustador para meus inimigos como o foi a serpente para Moisés. Eles fogem de mim assim como de uma serpente; aterrorizam-se ao ver-me e detestam-me como a uma serpente, embora eu não tenha veneno de maldade e seja cheio de misericórdia. Permito que se apoiem em mim, se desejarem. Voltarei a eles, se me pedirem. Correrei para eles, se me chamarem, como uma mãe que corre para seu filho perdido e encontrado. Se clamarem, eu lhes mostrarei minha misericórdia e perdoarei os seus pecados. Faço tudo isso por eles, e ainda me rejeitam como a uma serpente.

    Em segundo lugar, o mar foi dividido por este cajado, no sentindo de que o caminho para o Céu, que se havia fechado pelo pecado, foi aberto por meu sangue e minha dor. O mar foi, de fato, aberto, e o que havia sido inacessível se converteu em caminho quando a dor em todos os meus membros alcançou meu coração que se partiu pela violência da dor. Então, quando o povo foi conduzido para o mar, Moisés não o levou diretamente para a terra prometida, mas sim para o deserto, onde podiam ser testados e instruídos.

    Agora, também, uma vez que a pessoa tenha aceitado a fé e meu comando, não são levados diretamente ao Céu, mas, é necessário que os seres humanos sejam testados no deserto, ou seja, no mundo, para ver até que ponto amam a Deus. Além disso, o povo provocou Deus no deserto por três coisas: primeiro, porque fizeram um ídolo para si mesmos e o adoraram; segundo, pelo desejo de comer carne que haviam tido no Egito; terceiro, por soberba, quando quiseram subir e lutar contra seus inimigos sem a aprovação de Deus. Ainda agora, as pessoas no mundo pecam contra mim da mesma maneira.

    Primeiro, adoram um ídolo, porque amam o mundo e tudo o que há nele mais que a mim, que sou o Criador de tudo. De fato, Seu deus é o mundo, e não Eu. Como disse em meu Evangelho: ‘Ali onde está o tesouro de um homem, está seu coração.’ Seu tesouro é o mundo porque tem aí seu coração e não em mim. Portanto, da mesma forma que aqueles pereceram no deserto pela espada, que atravessou seu corpo, igualmente estes cairão pela espada do castigo eterno atravessando sua alma e viverão em eterna condenação. Segundo, pecaram por concupiscência da carne.

    Dei à humanidade tudo que precisa para uma vida honesta e moderada, mas eles desejam possuir tudo sem moderação nem discrição. Se sua constituição física suportasse, estariam, continuamente tendo relações sexuais, bebendo sem restrição, cobiçando sem medida e, tão rápido quanto pudessem pecar, nunca desistiriam de fazê-lo. Por esta razão, a estes ocorrerá o mesmo que àqueles do deserto: morrerão repentinamente. O que é o tempo desta vida comparado ao da eternidade se não um só instante? Portanto, devido à brevidade desta vida, eles terão uma rápida morte física, mas viverão eternamente em dor espiritual. Terceiro, pecaram no deserto por orgulho, porque desejaram lançar-se na batalha sem a aprovação de Deus.

    As pessoas desejam ir ao Céu por seu próprio orgulho. Não confiam em mim, apenas nelas mesmas, fazendo o que querem e abandonando-me. Portanto, da mesma forma que aqueles outros foram mortos por seus inimigos, assim também estes serão mortos em sua alma, pelos demônios e seu tormento será interminável. Assim, me odeiam como a uma serpente, adoram um ídolo em meu lugar e amam seu próprio orgulho em lugar de minha humildade. Entretanto, sou tão piedoso que se voltarem-se para mim com contrição, me voltarei para eles como um pai dedicado e lhes abrirei os braços.

    Em terceiro lugar, a rocha verteu água por meio deste cajado. Esta rocha é o endurecido coração humano. Quando é perfurado por meu temor e amor, fluem em seguida as lágrimas de contrição e a penitência. Ninguém é tão indigno nem tão mau que seu rosto não se inunde de lágrimas nem se agitem todos os seus membros com a devoção, quando regressa a mim, quando reflete minha Paixão em seu coração, quando recobra a consciência do meu poder, quando pensa em como minha bondade faz com que a terra e as árvores deem frutos.

    Na arca de Moises, em segundo lugar se conservou o maná. Assim também em ti, minha Mãe e Virgem, se conserva o Pão dos anjos, das almas santas e dos justos, aqui na Terra, a quem nada agrada mais que a minha doçura, para quem tudo no mundo está morto, e quem, se fosse minha vontade, com gosto viveriam sem nutrição física. Na arca, em terceiro lugar, estavam as tabuas da Lei. Também em ti encontra-se o Senhor de todas as Leis. Por isso, bendita sejas sobre todas as criaturas no Céu e na Terra!

    Então, se dirigiu à esposa, dizendo: “Diga três coisas aos meus amigos. Quando habitei fisicamente no mundo, temperei minhas palavras de tal forma que fortaleceram os bons e os tornaram mais fervorosos. Também os maus se fizeram melhores, como foi claramente o caso de Maria Madalena, Mateus e muitos outros. De novo, temperei minhas palavras de tal forma que meus inimigos não foram capazes de diminuir sua força. Por isso, que aqueles aos quais são enviadas minhas palavras trabalhem com fervor, de modo que os bons se tornem mais ardentes em sua bondade por minhas palavras, os maus se arrependam de sua maldade; que evitem que meus inimigos obstruam minhas palavras.".

    Não faço mais dano ao demônio do que aos anjos do Céu. Pois, se quisesse, poderia muito bem pronunciar minhas palavras de modo que todo mundo as ouvisse. Sou capaz de abrir o inferno para que todos vejam seus castigos. Entretanto, isso não seria justo, pois as pessoas então me serviriam por medo, quando devem me servir por amor. Pois só a pessoa que ama pode entrar no Reino dos Céus. Além disso, eu estaria prejudicando o diabo, se levasse comigo os escravos que ele adquiriu vazios de boas obras. Também prejudicaria os anjos do Céu, se o espírito de uma pessoa imunda se pusesse no mesmo nível de outra que está pura e fervorosa no amor.

    Consequentemente, ninguém entrará no Céu, exceto aqueles que tenham sido provados como ouro no fogo do purgatório ou aqueles que tenham provado a si mesmo ao longo do tempo, fazendo boas obras na Terra, de tal modo que não fique neles mancha alguma pendente de ser purificada. Se tu não sabes a quem hão de dirigir-se minhas palavras, vou te dizer. Àquele que deseja obter méritos através das boas obras para vir ao Reino dos Céus ou quem já o mereceu por boas obras do passado. Minhas palavras hão de ser entregues aos que são assim e hão de penetrar neles. Àqueles que sentem um gosto por minhas palavras e esperam humildemente que seus nomes sejam inscritos no livro da vida, conservam minhas palavras. Aqueles que não a saboreiam, no princípio as consideram, mas depois, as rejeitam e as vomitam imediatamente.



    As palavras de um Anjo à esposa sobre se o espírito de seus pensamentos é bom ou ruim, sobre como há dois espíritos, um não criado e um criado e sobre suas características.

    Livro 1 - Capítulo 54

    Um anjo falou à esposa dizendo: “Há dois espíritos, um não criado e um criado. O não criado possui três características. Em primeiro lugar, é quente, em segundo lugar, doce e em terceiro lugar, puro. Primeiro, emite calor não das coisas criadas, mas de si mesmo, pois, junto com o Pai e o Filho, ele é o Criador de todas as coisas e o todo poderoso. Ele emite calor sempre que a alma inteira se inflama pelo amor de Deus. Segundo, é doce, quando nada agrada e deleita a alma mais que Deus e o conjunto de suas obras. Terceiro, é puro e nele não se pode achar pecado nem deformidade, nem corrupção ou mutabilidade".

    Ele não emite calor como fogo material ou como o sol visível, que faz as coisas derreterem. Seu calor é o amor interno e o desejo da alma, que a plenifica e a engrandece em Deus. Ele é doce para a alma, não da mesma forma que é o vinho ou o prazer sensual ou algo que seja doce no mundo. A doçura do Espírito não se pode comparar com nenhuma doçura temporal e é inimaginável para aqueles que não a tenham experimentado. Terceiro, o Espírito Santo é tão puro quanto os raios do sol, onde nenhuma impureza pode ser encontrada.

    O outro, o espírito criado, também possui três características. Ele é ardente, amargo, e sujo. Primeiro, queima e consome como o fogo, pois incendeia a alma que possui, com o fogo da luxúria e o desejo depravado, de forma que a alma não pode nem pensar nem desejar outra coisa além de satisfazer seu desejo, até ao ponto de que, como resultado disso, sua vida temporal às vezes perde a honra e a dignidade. Segundo, é tão amargo como o fel, pois, ao inflamar a alma com sua luxúria, os outros prazeres se lhe parecem insossos e os gozos eternos lhe parecem tolices.

    Tudo o que tem a ver com Deus e que a alma haveria de fazer por Ele, se torna amargo e tão abominável como um vômito de bílis. Terceiro, é imundo, uma vez que deixa a alma tão vil e propensa ao pecado, que não se envergonha de pecar nem desistiria de fazê-lo se não fosse porque teme ver-se envergonhada diante de outras pessoas, mais que diante de Deus.

    É por isso que este espírito arde como fogo, pois queima pela iniquidade e incendeia a outros juntamente com ele. Também é por isso que este espírito é amargo, porque todo o bom se lhe parece amargo e deseja tornar o bem em amargura para os outros como faz consigo mesmo. Também é por isso que é imundo, porque se deleita na corrupção e busca tornar os outros como a si próprio.

    Agora, tu podes me perguntar e dizer: “Acaso não és também tu um espírito criado assim como esse? Por que, não és igual?" Eu responderei: Claro que sou criado pelo mesmo Deus que também criou o outro espírito, pois há somente um Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, e estes não são três deuses mas um só Deus. Ambos fomos perfeitos e criados por Deus, porque Deus tão somente criou o bem. Mas eu sou como uma estrela, pois tenho me mantido fiel na bondade e no amor de Deus, em quem fui criado e ele é como o carvão porque abandonou o amor de Deus. Por isso, assim como uma estrela tem brilho e esplendor e o carvão é negro, um Santo Anjo, que é como uma estrela, tem seu esplendor, ou seja, o Espírito Santo. Pois tudo o que tem, o tem de Deus, do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

    Cresce inflamado no amor de Deus, brilha em seu esplendor se adere a Ele e se conforma com sua vontade sem querer nada mais do que Deus quer. É por isso que ele arde como uma labareda, é por isso que é puro.

    O demônio é como um carvão feio, mais feio do que qualquer outra criatura, pois, só pelo fato de ter sido o mais belo dos Anjos, tornou-se o mais feio entre todos, justamente por opor-se ao seu Criador. Assim como o anjo de Deus brilha com a luz de Deus e se inflama incessantemente em seu amor, assim o demônio está sempre se queimando na angústia de sua maldade. Sua maldade é insaciável, assim como a graça e a bondade do Espírito Santo são indescritíveis. Não há ninguém no mundo tão arraigado ao demônio, que o bom Espírito não o visite alguma vez e mova seu coração. Da mesma forma, não há ninguém tão bom que o demônio não tente tocá-lo com a tentação. Muitas pessoas boas e justas são tentadas pelo demônio com a permissão de Deus. Isto não é por maldade alguma de sua parte, mas para a sua maior glória.

    O Filho de Deus, uno em divindade com o Pai e com o Espírito Santo, foi tentado na natureza humana que tomou. Quanto mais seus eleitos são postos à prova para uma recompensa maior! Novamente, muitas pessoas boas, às vezes, caem no pecado e sua consciência se escurece pela falsidade do demônio, mas elas voltam a se levantar robustecidas e se mantêm mais fortes do que antes pelo poder do Espírito Santo. Entretanto, não há ninguém que não perceba em sua consciência, se a sugestão do demônio conduz à deformidade do pecado ou ao bem, se somente pensassem nisso e examinassem cuidadosamente. E assim, esposa do meu Senhor, tu não hás de duvidar se o espírito de seus pensamentos é bom ou mau. Pois a tua consciência te diz quais coisas hás de ignorar e quais escolher.

    O que há de fazer uma pessoa que está cheia do demônio se, por esta razão, o Espírito bom não pode entrar nela? Ela deve fazer três coisas. Há de fazer uma confissão clara e completa de seus pecados, na qual, mesmo se ela não estiver totalmente arrependida, devido à dureza de coração, mesmo assim se beneficie disso, na medida em que –devido a sua confissão- o demônio lhe dê certa trégua e saia do caminho do Espírito Santo. Segundo, há de ser humilde, decidir reparar os pecados cometidos e fazer todo o bem que possa e então o demônio começará a abandoná-la. Terceiro, para conseguir que volte a ela o bom Espírito, deve suplicar a Deus, em humilde oração, e com verdadeiro amor, arrepender-se dos pecados cometidos, já que o amor de Deus mata o demônio. O demônio é tão invejoso e malicioso que preferiria morrer cem vezes a ver alguém fazer uma boa ação por pequena que seja, por amor a Deus”.

    Então, a bendita Virgem falou à esposa dizendo: “Nova esposa de meu Filho, arruma-te, coloque seu broche, ou seja, a Paixão de meu Filho!” Ela lhe respondeu: “Minha Senhora, coloque-o tu mesma!” E ela disse: “Claro que o farei. Também quero que saibas como meu Filho estava disposto e por que os pais o almejaram tanto. Ele estava, como se disséssemos, entre duas cidades. Uma voz, da primeira cidade lhe chamou dizendo: "Tu, que estás aí, entre as cidades, és um homem sábio, pois sabes como proteger-te dos perigos iminentes". Também és forte o bastante para resistir aos males ameaçadores. Além disso és valente, porque nada temes. Temos estado desejando-te e esperando-te! Abra nossa porta! Os inimigos a estão bloqueando para que não possa ser aberta!"

    Uma voz da segunda cidade foi ouvida dizendo: ‘Tu, homem humaníssimo e fortíssimo escute nossas queixas e gemidos! Considera nossa miséria e nossa penúria! Estamos sendo podados como a erva cortada por uma foice. Estamos enfraquecidos, separados de toda bondade e toda nossa força nos abandonou. Vinde a nós e salvai-nos, pois só a ti temos esperado, temos posto nossa esperança em ti como nosso libertador! Vinde e acabai com nossa penúria, transformai em gozo nossos lamentos! Sede nossa ajuda e nossa salvação! Vinde digníssimo e sacratíssimo corpo, que procede da puríssima Virgem!’

    Meu Filho ouviu estas duas vozes vindas das duas cidades, ou seja, do Céu e do Inferno. Por isso, em sua misericórdia, abriu as portas do inferno por meio de sua amarga paixão e o derramamento de seu sangue, e resgatou dali os seus amigos. Ele também abriu o Céu e deu alegria aos anjos ao conduzir para ali os amigos que havia resgatado do inferno. “Filha minha, pensa nestas coisas e mantenha-as sempre diante de ti!”



    Sobre como Cristo é comparado a um poderoso senhor que constrói uma grande cidade e um lindo palácio, que representam o mundo e a Igreja, e sobre como os juízes, e trabalhadores da Igreja de Deus se converteram em um arco inútil.

    Livro 1 - Capítulo 55

    Sou como um poderoso senhor que construiu uma cidade e deu seu nome a ela. Na cidade, construiu um palácio no qual havia vários pequenos cômodos para armazenar o necessário. Depois de haver construído o palácio e organizado todos os seus assuntos, dividiu seu povo em três grupos, dizendo: ‘Estou partindo para uma região remota. Ficai firmes e trabalhai bravamente pela minha glória! Providenciei vossa comida e outras necessidades. Tendes juízes para julgá-los, defensores para protegê-los de vossos inimigos, e encarreguei a uns empregados para alimentá-los. Eles hão de pagar-me o dízimo de seu trabalho, reservando-o para meu uso e em minha honra.”

    Entretanto, passado certo tempo, o nome da cidade caiu no esquecimento. Então, os juízes disseram: ‘Nosso senhor viajou para uma região remota. Que julguemos corretamente e façamos justiça de modo que, quando ele retornar, não seremos acusados, e sim elogiados e abençoados’. Então, os defensores disseram: ‘Nosso senhor confia em nós e entregou sua casa a nossos cuidados. Vamos nos abster de alimentos e bebidas supérfluas, para não ficarmos inaptos em caso de batalha! Vamos nos abster do sono excessivo, para não sermos capturados de improviso!

    Estejamos também bem armados e em alerta constante, para não sermos surpreendidos em um ataque inimigo! A honra de nosso senhor e a segurança de seu povo dependem muito de nós’. Depois, os empregados disseram: ‘A glória de nosso senhor é grande e sua recompensa é maravilhosa. Vamos trabalhar com vigor e demos a ele não apenas um décimo de nosso trabalho, mas sim, tudo o que nos sobrar daquilo que gastamos para viver ! Todos nossos salários serão mais gloriosos quanto mais amor nosso senhor veja em nós.”.

    Depois disso, algum tempo mais se passou e o senhor da cidade e seu palácio foram ficando esquecidos. Então os juízes disseram para si mesmos: ‘Nosso senhor está demorando muito. Não sabemos se voltará ou não. Assim, julguemos da forma que quisermos e façamos o que nos agrada!’

    Os defensores disseram:”Somos uns tolos porque trabalhamos e não sabemos qual será nossa recompensa!"

    Aliemos-nos a nossos inimigos e durmamos e bebamos com eles! Pois, não é assunto nosso de quem hajam sido inimigos.”.’Depois disso, os empregados disseram: ‘Por que guardamos nosso ouro para outro? Não sabemos quem ficará com ele.

    É melhor, então, que o usemos e disponhamos de acordo com nossa vontade. Demos a décima parte aos juízes, e, tendo-os de nosso lado, poderemos fazer o que quisermos’.

    Em verdade sou como esse poderoso senhor. Construí Eu mesmo uma cidade, isto é, o mundo, e ali coloquei um palácio, isto é, a Igreja. O nome dado ao mundo foi sabedoria divina, pois o mundo teve esse nome desde o princípio, ao haver sido feito na divina sabedoria. Este nome era venerado por todos e Deus era louvado por seu conhecimento e maravilhosamente aclamado por todas as suas criaturas. Nos tempos atuais, o nome da cidade foi desonrado e mudado, e sabedoria mundana é o novo nome que se usa.

    Os juízes, que no passado davam sentenças justas no temor do Senhor, agora se levantam em soberba e se tornam a ruína das pessoas simples. Aparentam ser eloquentes para receberem elogios humanos; falam agradavelmente para obter favores. Toleram quaisquer palavras para que digam que são bons e compassivos; mas permitem-se ser subornados para ditar sentenças injustas. São sábios no que diz respeito a seus próprios benefícios mundanos e a seus próprios desejos, mas são mudos em meu louvor. Menosprezam as pessoas simples e as mantêm quietas. Estendem a todos sua cobiça e convertem o certo em errado. Esta é a sabedoria apreciada nos dias de hoje, enquanto que a minha caiu no esquecimento.

    Os defensores da Igreja, que são os nobres e os cavaleiros, olham para meus inimigos, os assaltantes da minha Igreja, e fingem que não os veem Escutam suas repreensões e não se importam. Conhecem e compreendem as obras daqueles que violam meus mandamentos e, entretanto os suportam pacientemente. Eles os observam diariamente, perpetrando todo tipo de pecado mortal com impunidade e não sentem compulsão mas dormem lado a lado com eles e tem se relacionado com eles, ligando-se à suas companhias mediante juramento. Os empregados, que representam todos os cidadãos, rejeitam meus mandamentos e retêm meus presentes e dízimos. Subornam os juízes e lhes demonstram reverência para garantir sua boa vontade e favores. Atrevo-me a dizer, de fato, que a espada do temor a mim e a minha Igreja na terra foi degradada, e uma bolsa cheia de dinheiro foi aceita em troca.



    Palavras com as quais Deus explica a revelação anterior; sobre a sentença emitida contra estas pessoas e sobre como Deus em alguns momentos, aguenta os malvados pelo bem dos justos.

    Livro 1 - Capítulo 56

    Já te disse antes que a espada da Igreja havia sido degradada e um saco de dinheiro havia sido aceito em troca. Este saco está aberto por uma extremidade. No outro extremo é tão profundo que tudo o que nele entra nunca alcança o fundo, por isso, o saco nunca se enche. Este saco representa a ganância. Ela excedeu todos os limites e medidas e se tornou tão forte que o Senhor é desprezado e nada mais é desejado exceto o dinheiro e o egoísmo. Entretanto, Eu sou como um senhor que por sua vez é pai e juiz.

    Quando seu filho vai a julgamento, os ali presentes dizem: ‘Senhor, proceda rapidamente e dê logo o seu veredicto!’ O senhor lhes responde: ‘Esperem um pouco até amanhã, pois talvez meu filho mude de vida até lá!’. Quando chega o dia seguinte, as pessoas dizem : ‘Prossiga e dê sua sentença, Senhor!’ Por quanto tempo irás adiá-la e não condenarás o culpado?’ O senhor responde: ‘Esperem um pouco mais, para vermos se meu filho muda! E então, se não se arrepender, farei o que for justo.’ Da mesma forma, eu tolero pacientemente as pessoas até o último momento, já que sou Pai e Juiz. Entretanto, como minha sentença é incomutável, apesar da demora para emiti-la, castigarei os pecadores que não se emendarem ou, se eles se converterem , lhes mostrarei minha misericórdia.

    Já te disse antes que classifiquei as pessoas em três grupos: juízes, defensores e empregados. O que os juízes simbolizam senão os sacerdotes que converteram minha a sabedoria divina em corrupção e vão conhecimento? Como alunos avançados, que recompõem um texto longo em outro mais breve e, com poucas palavras dizem o mesmo que se dizia com muitas, os sacerdotes de hoje em dia, tomaram meus dez mandamentos e os resumiram em uma só frase. E qual é essa única frase? ‘Estenda tua mão e dê-nos dinheiro!’ Esta é sua sabedoria: falar elegantemente e agir maldosamente, fingir que pertencem a mim e agir injustamente contra mim.

    Em troca de subornos, amavelmente suportam aos pecadores em seus pecados e, com seu exemplo provocam a queda das pessoas simples. Além disso, odeiam aqueles que seguem meus caminhos. Segundo, os defensores da Igreja, os nobres, são desleais. Quebraram sua promessa e juramento e toleram com gosto aqueles que pecam contra a fé e a Lei de minha Santa Igreja. Terceiro, os empregados, ou cidadãos, são como touros selvagens, pois fazem três coisas. Primeiro, marcam o chão com suas pisadas; segundo fartam-se até saciar-se; terceiro, satisfazem seus próprios desejos somente de acordo com sua vontade. Hoje, os cidadãos anseiam apaixonadamente pelos bens temporais. Reafirmam a si mesmos na glutonaria imoderada e na vaidade mundana. Satisfazem seus prazeres carnais de maneira irracional.

    Porém, embora meus inimigos sejam muitos, ainda tenho amigos entre esses, mesmo que escondidos. Foi dito a Elias, que acreditava não haver mais amigos meus além dele mesmo: ‘Existem sete mil homens que não dobraram seus joelhos diante de Baal’. Da mesma forma, embora sejam muitos os inimigos, ainda tenho amigos escondidos entre eles, que se lamentam diariamente, pois meus inimigos prevalecem e meu nome é desprezado. Como um rei bondoso e caridoso que conhece os fatos perversos da cidade, mas tolera seus habitantes pacientemente e envia cartas a seus amigos alertando-os sobre o perigo que correm, assim também, em atenção às suas orações Eu envio minhas palavras aos meus amigos.

    Estas não são tão obscuras como as encontradas no Apocalipse que revelei a João sob um véu de obscuridade para que pudessem, a seu tempo, ser explicadas por meu Espírito quando Eu quisesse. Elas não são tão enigmáticas que não possam ser manifestadas -assim como quando Paulo viu alguns de meus mistérios e sobre os quais não lhe foi permitido falar- mas que são tão evidentes que todos, com pouca ou aguda inteligência, podem entendê-las, tão fáceis que quem quiser as pode captar. Portanto, que meus amigos vejam como minhas palavras atingem meus inimigos, para que talvez se convertam. Que se lhes deem a conhecer seus perigos e juízo para que se arrependam de suas obras! Caso contrário, a cidade será julgada e, como uma parede é derrubada sem deixar pedra sobre pedra ou mesmo duas pedras unidas no alicerce, assim acontecerá com a cidade, isto é, o mundo.

    Os juízes, certamente, queimarão no fogo mais ardente. Não há fogo que arda mais do que aquele alimentado com gordura. Estes juízes estavam untados, pois tiveram mais ocasiões de satisfazer seu egoísmo que os demais, sobrepujaram os outros em honras e abundância mundanas, e também em maldade e crueldade. Por isso, arderão na mais quente das panelas.

    Os defensores serão pendurados no mais alto dos patíbulos. Um patíbulo consiste em duas peças verticais de madeira com uma terceira colocada em cima, de forma transversal. Este patíbulo com dois postes de madeira representa seu cruel castigo que está, por assim dizer, feito com duas peças de madeira. A primeira peça significa que não tiveram esperança em minha recompensa eterna nem trabalharam para merecê-la por suas obras. A segunda peça de madeira indica que eles não confiaram em meu poder e bondade, crendo que Eu não era capaz de fazer tudo ou que não os quisesse prover suficientemente.

    A viga de madeira transversal, representa sua consciência deturpada, distorcida, pois eles entendiam bem o que estavam fazendo, mas fizeram o mal e não sentiram vergonha de ir contra sua consciência. A corda do patíbulo significa o fogo inextinguível, que não pode ser apagado pela água nem cortado por tesouras, nem quebrado ou acabado pelo tempo.

    Nesta forca de punição cruel e fogo inextinguível, eles ficarão pendurados e humilhados como traidores. Sentirão angústia, pois foram desleais. Ouvirão insultos, pois minhas palavras lhes eram desagradáveis. Gritos de dor estarão em suas gargantas, pois sentiram prazer em seu próprio louvor e glória. Corvos vivos, isto é, demônios que nunca se saciam, os machucarão neste patíbulo, mas, embora estejam feridos, nunca serão consumidos: viverão em tormento sem fim e seus carrascos viverão para sempre. Sofrerão um duelo que nunca acabará e uma desgraça que nunca diminuirá. Teria sido melhor para eles não haver nascido, e que sua vida não tivesse sido prolongada! A sentença dos trabalhadores será a mesma que é dada aos touros. Touros têm uma pele e uma carne muito espessas. Por isso, sua sentença é o afiadíssimo gume. Esta lâmina afiada significa a morte infernal que atormentará aqueles que me hajam desprezado e que tenham amado seus desejos egoístas mais que os meus mandamentos.

    A carta, isto é, minhas palavras, foram escritas. Que meus amigos trabalhem para fazê-las chegar aos meus inimigos com sabedoria e discrição, na esperança de que atendam e se arrependam. Se, tendo ouvido minhas palavras, alguém disser: "Esperemos um pouco mais, ainda não chegou o momento ainda não é sua hora". Então, pela minha natureza divina, que expulsou Adão do paraíso e mandou as dez pragas ao faraó, juro que irei até eles antes do que pensam. Pela minha natureza humana- que assumi da Virgem, sem pecado, para a salvação da humanidade e na qual sofri aflição em meu coração, experimentei dor em meu corpo e morri para que os homens vivam, e nela ressuscitei e subi ao Céu e estou sentado à direita do Pai, verdadeiro Deus e homem em uma pessoa- Eu juro que cumprirei minhas palavras.

    Por meu Espírito- que desceu sobre os Apóstolos no dia de Pentecostes e os inflamou de tal forma que eles falaram a língua de todos os povos, Eu juro que, a menos que emendem seus caminhos e voltem a mim como humildes servos, me vingarei deles em minha ira. Então, lamentar-se-ão em corpo e alma. Lamentar-se-ão por terem vindo viver no mundo e de haver vivido nele. Lamentar-se-ão de que o prazer que experimentaram foi muito pequeno e agora é nulo, e, entretanto, sua tortura será para sempre. Então, perceberão o que agora se recusam a acreditar, isto é, que minhas palavras eram palavras de amor. Assim, compreenderão que os aconselhei como um pai, mas eles não quiseram escutar-me. Em verdade, se não acreditaram nas palavras de bondade, terão de acreditar nas obras que estão por vir.



    Palavras o Senhor à esposa sobre como Ele é nutrição abominável e insignificante nas almas dos cristãos, enquanto o mundo é deleitável e amável para eles, e sobre a terrível sentença que recairá em tais pessoas.

    Livro 1 - Capítulo 57

    O Filho falou à esposa: ‘Os Cristãos me tratam agora da mesma forma que me trataram os judeus. Os judeus me expulsaram do templo e estavam inteiramente resolvidos a matar-me, mas, pelo fato de minha hora ainda não ter chegado, escapei de suas mãos. Os Cristãos me tratam assim agora. Expulsam-me de seu templo, ou seja, de sua alma, que deveria ser meu templo, e se pudessem me matariam em seguida. Em seus lábios sou como carne podre e mal cheirosa, creem que estou mentindo e não se preocupam comigo, em absoluto. Voltam-me suas costas, mas Eu afastarei minha face deles, pois não há nada mais que cobiça em suas bocas e só luxúria bestial em sua carne. Só a soberba os agrada, só os prazeres mundanos encantam seus olhos.

    Minha Paixão e meu Amor lhes são repugnantes e minha vida um peso. Por isso, agirei como o animal que tem muitas tocas: quando os caçadores o acossam em uma toca, foge para outra. Farei isto, porque estou sendo perseguido pelos cristãos com suas más obras e expulso da toca de seus corações. Por isso, irei aos pagãos, em cujas bocas agora sou amargo e insípido, mas chegarei a ser-lhes mais doce que o mel. Entretanto, ainda sou tão misericordioso que com gosto abrirei meus braços a quem me peça perdão e diga: ‘Senhor, sei que pequei gravemente e livremente quero melhorar minha vida por tua graça. Tem piedade de mim por tua amarga paixão!’ Mas, àqueles que persistirem no mal, lhes chegarei como um gigante com três qualidades: terrível, muito forte e muito áspero. Chegarei inspirando tanto medo aos cristãos que não se atreverão a levantar o dedo mínimo contra mim. Eu virei ainda com tanta força que eles serão como uma mosca diante de mim. Terceiro, eu virei com tal aspereza que se sentirão tristes no presente e lamentarão sem fim'.



    As palavras da Mãe à esposa; doce diálogo da Mãe com o Filho, e sobre como Cristo é amargo, muito amargo, amaríssimo para os maus, porém doce, muito doce ,dulcíssimo para os bons.

    Livro 1 - Capítulo 58

    A Mãe disse à esposa: ‘Considera, jovem esposa, a Paixão de meu Filho. Sua paixão sobrepujou em amargura a paixão de todos os Santos. Assim como uma mãe ficaria amargamente abalada se tivesse que presenciar como cortavam em pedaços seu próprio filho vivo, assim eu fiquei abalada na paixão de meu Filho quando presenciei a crueldade de tudo aquilo’. Então ela disse a seu Filho: ‘Bendito sejas, Filho meu, pois és santo, como diz a canção: ‘Santo, santo, santo, é o Senhor Deus do Universo. Bendito sejas, pois és doce, muito doce, e o mais doce! Eras santo antes da encarnação, santo em meu ventre santo, depois da encarnação. Foste doce antes da criação do mundo, mais doce que os anjos e o mais doce para mim em tua encarnação’.

    O Filho respondeu: ‘Bendita sejas, Mãe, sobre todos os anjos! Assim como fui o mais doce para ti, como dizias agora, também sou amargo, muito amargo, o mais amargo para os maus. Sou amargo para aqueles que dizem que criei muitas coisas sem motivo, que blasfemam e dizem que criei as pessoas para morrer e não para viver. Que ideia tão miserável e sem sentido! Acaso Eu, que sou o mais justo e virtuoso, criei os anjos sem uma razão? Teria Eu dotado a natureza humana de tantas bondades se a tivesse criado para se condenarem? De maneira alguma! Eu fiz todo bem por amor, à humanidade dei todo bem. Entretanto, a humanidade converte todo o bem em mal para si.

    Não Sou eu que faço nada mau, e sim, são eles que o fazem, dirigindo sua vontade a tudo, menos ao que deveriam, de acordo com a Lei Divina. Isto é o que é mal. Sou mais amargo para aqueles que dizem que lhes dei livre arbítrio para pecar e não para fazer o bem, que dizem que sou injusto, porque condeno algumas pessoas enquanto que a outras, justifico; que me culpam por sua própria maldade, porque afasto deles minha graça. Sou muito amargo para aqueles que dizem que minha lei e meus mandamentos são muitos difíceis e que ninguém os pode cumprir; que dizem que minha paixão é indigna para eles, e que é por isso que não a consideram.

    Portanto, juro por minha vida, como jurei uma vez pelos profetas, que defenderei minha causa diante dos anjos e todos os meus santos. Aqueles para quem Eu sou amargo comprovarão por si mesmos que Eu criei tudo racionalmente e bem , para utilidade e instrução da humanidade, e que nem o menor dos vermes existe sem motivo. Aqueles para os quais sou muito amargo, comprovarão por si mesmos que Eu, sabiamente, dei ao ser humano livre arbítrio a respeito do bem. Descobrirão também que Eu sou justo, dando reino eterno às pessoas boas e castigando os maus.

    Não seria justo que o demônio, a quem criei como bom, mas que caiu por sua própria maldade, estivesse em companhia dos bons. Os maus também comprovarão que não é culpa minha que eles sejam perversos, mas sua. De fato, se fosse possível, com gosto me submeteria por todos e cada um dos seres humanos aos mesmos castigos que aceitei uma vez na cruz por todos, para restituir-lhes sua herança prometida. Mas a humanidade está sempre opondo sua vontade à minha. Dei-lhes liberdade para que me servissem se quisessem, e merecessem assim, o premio eterno. Mas se eles não quisessem, teriam que compartilhar o castigo do demônio, por cuja maldade e suas consequências, foi justamente criado o inferno.

    Como sou cheio de caridade, não quis que a humanidade me servisse por medo nem que fosse obrigada a fazê-lo como os animais irracionais, mas por amor a Deus, porque ninguém que sirva contra a sua vontade ou por medo de meu castigo pode ver minha face. Aqueles para os quais sou muito amargo perceberão em sua consciência, que minha lei era leve e meu jugo suave. Estarão inconsolavelmente tristes de haver menosprezado minha Lei e de haver amado o mundo em seu lugar, cujo jugo é mais pesado e muito mais difícil que o meu.

    Então, sua Mãe acrescentou: ‘Bendito sejas, Filho meu, meu Deus e Senhor! Porque tu eras minha doce delicia, rogo que os demais possam participar desta doçura’. O Filho respondeu: ‘Bendita és tu, minha querida Mãe! Tuas palavras são doces e cheias de amor. Por isto bondosamente acudirei a quem receba tua doçura em sua boca e a conserve perfeitamente. Mas quem a receba e a rejeite será castigado da forma mais amarga’. A Virgem respondeu: “Bendito sejas, Filho meu, por todo o teu amor!”



    Palavras de Cristo, na presença da esposa, contendo parábolas nas quais Cristo se compara com um camponês; os bons sacerdotes com um bom pastor; os maus sacerdotes com um mau pastor e os bons cristãos como uma esposa. Estas comparações são úteis de várias formas.

    Livro 1 - Capítulo 59

    Eu sou aquele que nunca pronunciou mentira alguma. O mundo me toma por um camponês cujo mero nome leva ao desprezo. Minhas palavras são tomadas por tolices e minha casa é considerada uma vil habitação. Agora, este camponês tinha uma esposa que não queria nada mais do que ele queria, que tinha tudo em comum com seu marido e o aceitou como seu mestre, obedecendo-lhe em tudo. Este camponês também tinha muitas ovelhas, e contratou um pastor para cuidar delas por cinco moedas de ouro e pelo suprimento de suas necessidades diárias. Este era um bom pastor, que fez bom uso do ouro e do alimento na medida de suas necessidades.

    Com o passar do tempo, esse pastor foi sucedido por outro pastor, um inferior, que usou o ouro para comprar uma esposa e dar-lhe seu alimento, que descansava com ela constantemente e não cuidava das pobres ovelhas, que foram acossadas e dispersadas por animais ferozes. Quando o camponês viu seu rebanho disperso, gritou: ‘Meu pastor não me é fiel. Meu rebanho se dispersou e algumas ovelhas indefesas foram devoradas por animais ferozes, enquanto que outras morreram ainda que seus corpos não tenham sido destroçados. Então, a mulher do camponês disse a seu marido: ‘Senhor, é certo que não recuperaremos os corpos que foram devorados. Mas, vamos levar para casa e usar aqueles corpos que ficaram intactos, ainda que já não haja um sopro de vida neles.

    Não poderíamos suportar o ficarmos sem nada’.Seu marido lhe respondeu: ‘O que faremos? Como os animais têm veneno em seus dentes, a carne das ovelhas está infectada de veneno mortal, a pele está corrompida, a lã está ruim’. Sua mulher acrescentou: ‘Se tudo foi desperdiçado e tudo foi perdido, então, do que vamos viver?’ O marido disse: ‘Vejo que há algumas ovelhas ainda vivas em três lugares. Algumas delas parecem mortas e não ousam respirar por medo. Outras estão enterradas no barro e não podem se levantar. Ainda outras estão escondidas e não ousam sair. Vem, esposa, vamos levantar as ovelhas que estão tentando pôr-se de pé, mas não conseguem sem ajuda, e vamos usá-las!’

    Observa, Eu, o Senhor, sou o camponês. Os homens me veem como o traseiro de um burro criado em um estábulo de acordo com sua natureza e hábitos. Meu nome é a mente da Santa Igreja. Ela é considerada como desprezível, na medida em que os sacramentos da Igreja, batismo, crisma, unção, penitência e matrimônio são, de alguma forma, recebidos com zombaria e administrados a alguns com ganância. Minhas palavras são consideradas tolas, pois as palavras da minha boca, pronunciadas em parábolas, passaram de um entendimento espiritual a ser convertidas em entretenimento para os sentidos. Minha casa é vista como desprezível, enquanto que as coisas da terra são mais amadas que as do Céu.

    O primeiro pastor que tive simboliza meus amigos, isto é, os sacerdotes que costumava ter na Santa Igreja, (por ‘um’ quero dizer muitos). A eles confiei meu rebanho, isto é, o meu venerável corpo para que o consagrassem e as almas de meus eleitos para que as governassem e protegessem. Também lhes dei cinco coisas boas, mais preciosas que ouro, a saber, a compreensão inteligente de todos os temas enigmáticos para que distinguissem entre o bem e o mal, entre a verdade e a falsidade. Segundo, dei-lhes discernimento e sabedoria de temas espirituais; isto foi esquecido, agora e em seu lugar se ama o conhecimento do mundo. Terceiro, dei-lhes castidade; quarto, temperança e abstinência em tudo para autocontrole de seu corpo; quinto, estabilidade nos bons hábitos, palavras e obras.

    Depois deste primeiro pastor, ou seja, depois destes meus amigos que faziam parte da minha Igreja no passado, agora entraram outros pastores malvados. Eles compraram uma esposa para si mesmos, em troca de ouro, isto é, em troca de sua castidade e, por essas cinco coisas boas, tomaram para si o corpo de uma mulher, isto é, a incontinência. Por isso, meu Espírito afastou-se deles.

    Quando têm total vontade de pecar ou de satisfazer à sua esposa, isto é, sua luxúria, de acordo com seu sentido de prazer, meu Espírito está ausente deles, pois não se importam com a perda do rebanho enquanto possam seguir sua própria vontade. As ovelhas que foram completamente devoradas representam aqueles cujas almas estão no inferno e cujos corpos estão enterrados em túmulos a espera da ressurreição para a condenação eterna.

    As ovelhas cujos corpos estão intactos, mas cujos espíritos de vida já não estão nelas, representam as pessoas que nem me amam, nem me temem, não sentem devoção alguma nem se importam comigo. Meu espírito está longe delas, já que os dentes envenenados das feras contaminaram sua carne. Em outras palavras, seus pensamentos e espírito, como o simbolizam a carne e entranhas das ovelhas, são para mim tão repugnantes como comer carne envenenada. Sua pele, isto é, seu corpo, está desprovido de toda bondade e caridade e não têm condições de servir em meu reino. Ao contrario, seja enviado ao fogo eterno do inferno depois do juízo. Sua lã, isto é, suas obras, são tão inúteis que não há nada nelas que lhes faça merecer meu amor e minha graça.

    O que, então, minha esposa, que simboliza os bons Cristãos, podemos fazer? Vejo que ainda há ovelhas vivas em três lugares. Algumas delas assemelham-se à ovelha morta e não ousam respirar por medo. Estes são os pagãos que, de boa vontade, adotariam a verdadeira fé se ao menos a conhecessem. Entretanto, não ousam respirar, isto é, não ousam perder a fé que já têm e não se atrevem a aceitar a verdadeira fé. O segundo grupo de ovelhas é daquelas que permanecem escondidas e não ousam sair. Estas representam os judeus que, por assim dizer, estão como detrás de um véu. Sairiam com prazer se tivessem certeza do meu nascimento. Escondem-se por trás do véu, na medida em que sua esperança de salvação está nas imagens e sinais que costumavam simbolizar-me na antiga Lei, mas que foram verdadeiramente realizados em mim, quando me encarnei.

    Por sua vã esperança, têm medo de passar à verdadeira fé. Em terceiro lugar, as ovelhas que ficaram afundadas na lama são os cristãos em estado de pecado mortal. Por temerem o castigo, estão desejosos de levantar-se de novo, mas não o conseguem devido à gravidade de seus pecados e porque lhes falta caridade.

    Por isso, esposa minha, ou seja meus bons cristãos, ajudem-me ! Assim como homem e mulher são considerados uma só carne e um só membro, assim, o cristão é meu membro e Eu sou dele, pois estou nele e ele em Mim.

    Assim pois, minha esposa, meus bons Cristãos, dirijam-se comigo às ovelhas que ainda respiram um pouco e vamos levantá-las e revivê-las! Sustentem seus dorsos enquanto eu lhes sustento a cabeça! Alegro-me em carregá-las em meus braços. Uma vez as carreguei todas sobre minhas costas, quando estas estavam feridas e pregadas na cruz.

    Ó meus amigos! Amo tão ternamente essas ovelhas que, se me fosse possível sofrer, por qualquer dessas ovelhas individualmente, a morte que sofri uma vez na cruz por todas elas, preferiria redimi-las antes que perdê-las. Por isso, com todo o meu coração, rogo a meus amigos que não poupem esforços nem bens por mim. Se não me pouparam da repreensão quando estive no mundo, que não se retraiam eles, na hora de dizer a verdade sobre mim. Não me envergonhei de morrer uma morte desprezível por eles, mas permaneci lá assim como vim ao mundo, nu, perante os olhos de meus inimigos.

    Seus punhos golpearam meus dentes; fui arrastado pelos cabelos; fui flagelado por chicotes; fui pregado à madeira com suas ferramentas, e pregado na cruz junto com meliantes e ladrões. Por esse motivo, meus amigos, não se poupem por mim que suportei tudo isso por amor a vocês! Trabalhem corajosamente e ajudem meu necessitado rebanho! Por minha natureza humana - que é o Pai porque o Pai está em mim - e por minha natureza divina - que é meu Espírito porque o Espírito está nela e porque o mesmo Espírito está em mim e Nele, sendo estes três um só Deus em três Pessoas – juro que irei àqueles que se esforçarem em carregar minhas ovelhas comigo, e os ajudarei enquanto caminham e lhes darei um precioso pagamento : Eu mesmo, em seu gozo eterno.



    Palavras do Filho à esposa sobre três tipos de cristãos, simbolizados pelos judeus que viviam no Egito, e sobre como estas revelações foram dadas à esposa para que fossem transmitidas, publicadas e pregadas pelos amigos de Deus.

    Livro 1 - Capítulo 60

    O Filho falou à esposa dizendo-lhe: ‘Eu sou o Deus de Israel, aquele que falou com Moisés. Quando foi enviado ao meu povo, Moisés pediu um sinal, dizendo: ‘O povo não crerá em mim de outra maneira’. Se o povo ao qual Moisés foi enviado pertencia ao Senhor, por que ele não tinha confiança? Deves saber que havia três tipos de pessoas entre os judeus. Alguns acreditavam em Deus e em Moisés. Outros acreditavam em Deus, mas não confiavam em Moisés, imaginando se, talvez, não estaria ele dizendo e fazendo tudo por invenção própria e presunção. O terceiro tipo era daqueles que não acreditavam em Deus nem em Moisés.

    Da mesma forma, existem atualmente três tipos de pessoas entre os Cristãos como simbolizado pelos hebreus. Existem alguns que realmente acreditam em Deus e em minhas palavras. Existem outros que acreditam em Deus, mas não confiam em minhas palavras, pois não sabem como distinguir entre um espírito bom e um mau. O terceiro grupo é daqueles que não acreditam em mim nem mesmo em ti, esposa minha, a quem tenho transmitido minhas palavras. Mas, como disse, embora alguns hebreus não confiassem em Moisés, todos – sem dúvida - cruzaram o Mar Vermelho com ele em direção ao deserto onde, aqueles que não tinham confiança adoraram ídolos e provocaram a ira de Deus, motivo pelo qual seu fim foi uma morte miserável, embora apenas para aqueles que tinham má fé.

    Por esta razão, como o espírito humano é lento para crer, meu amigo deve transmitir minhas palavras àqueles que creiam nele. Depois, eles as divulgarão a outros que não sabem distinguir um espírito bom de um mau. Se os ouvintes lhe pedirem por um sinal, que mostrem a essas pessoas um cajado, assim como fez Moisés, ou seja, que expliquem a eles minhas palavras. O cajado de Moisés era firme e, devido à sua transformação em uma serpente, foi também temível para eles. Da mesma forma, minhas palavras são firmes e não há falsidade nelas. São temíveis também, porque emitem um juízo verdadeiro.

    Que expliquem e declarem que, pelas palavras e sons de uma única boca, o demônio se afastou de criaturas de Deus, esse mesmo demônio que poderia mover montanhas, não fosse ele impedido por meu poder. Que tipo de poder possuía ele, com a permissão de Deus, quando foi feito para fugir diante do som de uma só palavra? Segundo isso, da mesma forma que aqueles hebreus que não acreditavam em Deus nem em Moisés também deixaram o Egito em busca da terra prometida, sendo de alguma forma forçados a ir juntamente com os outros, assim também muitos cristãos se juntarão agora, a contragosto, a meus escolhidos, sem crer em meu poder para salvá-los. Não acreditam em minhas palavras de maneira alguma; possuem apenas uma falsa confiança em meu poder. Entretanto, minhas palavras se cumprirão sem que eles o desejem e de certo modo, serão forçados a caminhar para a perfeição até que cheguem onde me for conveniente.
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